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Questão parlamentar contra homenagem ao Puto G serve a xenofobia

Questão parlamentar contra homenagem ao Puto G serve a xenofobia

Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 14 4 min. 31.08.2018

Questão parlamentar contra homenagem ao Puto G serve a xenofobia

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
O diretor do Museu Nacional da Resistência defende que as perguntas do deputado do ADR, Fernand Kartheiser, que garantem que a homenagem ao Puto G em frente ao memorial aos mortos foi um ato de desrespeito ao monumento nacional de Esch-sur-Alzette, têm "motivos puramente racistas".

"Será que uma demonstração semelhante em homenagem a um artista 'luxemburguês' teria suscitado as mesmas reações? Alguns falaram de desrespeito em relação à nossa cultura... Neste caso, o 'problema' resumir-se-ia à origem maioritariamente cabo-verdiana e portuguesa em luto. Portanto, a motivos puramente racistas", respondeu hoje o diretor do Museu Nacional da Resistência, Frank Schroeder, ao deputado do partido nacionalista, através de uma carta aberta.

A 4 de julho, cerca de 300 pessoas marcaram presença na última homenagem ao rapper de origem cabo-verdiana Puto G, que morreu afogado no lago de Remerschen quatro dias antes (30 de junho). O local escolhido pelos amigos e fãs do músico de 27 anos foi o memorial aos mortos, em frente ao Museu Nacional da Resistência, em Esch-sur-Alzette (junto à escola do Brill), tendo a homenagem espontânea (sem prévia comunicação da comuna) ficada marcada por mensagens, balões brancos, velas acesas e flores.

A iniciativa não caiu bem aos olhos do deputado do partido ADR Fernand Kartheiser, que se apressou em apresentar uma questão parlamentar dirigida ao ministro de Estado Xavier Bettel (que é também primeiro-ministro), a 11 de julho (uma semana depois da homenagem).

No pedido de esclarecimento ao Governo, o deputado questiona que se possam realizar eventos "de todo o género"  devido ao respeito que se tem de ter junto aos monumentos em honra aos mortos, aos memoriais, como o recentemente inaugurado em memória das vítimas do Shoah (holocausto), o monumento da Memória simbolizado pela Gëlle Fra (mulher dourada), o monumento Robert Schuman e ainda o memorial aos mortos do Museu da Nacional da Resistência, em Esch-sur-Alzette.

Fernand Kartheiser chega mesmo a referir-se a este último monumento como "gravemente desfigurado" pela homenagem a Puto G, antes de colocar duas questões:

  • "Que regulamentos são aplicados aos monumentos públicos? Que serviço é responsável pela manutenção e preservação dos monumentos?"
  • "O Estado pretende ou não implementar regras que visem o respeito pelos monumentos, como por exemplo a Gëlle Fra, o monumento do Shoah ou o monumento do Museu Nacional da Resistência?".

A primeira resposta foi dada telegraficamente por Xavier Bettel, no dia 29 de agosto. "As várias manifestações são feitas junto a monumentos que estão em terreno das comunas e não do Estado. O Estado é responsável pelos regulamentos gerais que visam o respeito a todos os monumentos. A 'Administration des Batiments publics', tutelada pelo Ministério do Desenvolvimento sustentável e das Infraestruturas, é responsável pela manutenção dos monumentos".

A resposta mais longa e mais dura ao deputado nacionalista chegou hoje, através do diretor do museu, que se mostrou solidário com os amigos e fãs de Puto G. Apesar de a organização do evento não ter informado a comuna de Esch-sur-Alzette, Franck Schroeder defende a legitimidade dos "cabo-verdianos e portugueses" manifestarem o seu luto", criticado por Kartheiser.

Leia aqui a carta aberta do diretor do Museu Nacional da Resistência, Franck Schroeder:

"Senhor deputado,

A 4 de julho teve lugar, junto do memorial aos mortos do Museu Nacional da Resistência, uma cerimónia em homenagem a um músico e ator português de origem cabo-verdiana, que morreu acidentalmente na semana precedente. Centenas de pessoas depositaram flores e velas. Velas que continuaram a arder nos dias seguintes: foram principalmente os jovens que fizeram a peregrinação ao monumento para expressar sua tristeza e luto.

Estas são imagens que conhecemos. Na sequência de acidentes graves ou da morte de uma estrela, as pessoas reúnem-se e depositam flores, velas e fotos para expressar a sua empatia. Imagens que nunca me chocaram - muito pelo contrário.

Quando José Carlos Cardoso, conhecido pelo nome artístico de Puto G, morreu, os seus amigos e fãs decidiram homenageá-lo, e escolheram... o monumento aos mortos em Esch-sur-Alzette. Uma ideia aberrante? Não para mim.

É verdade que não houve um pedido oficial à autarquia para organizar esta manifestação no dia 4 de julho. E é verdade que vestígios de cera levaram à intervenção dos serviços comunais - como é o caso em qualquer manifestação pública, mercado, feira ou festa.

Você não é o único a considerar que esta cerimónia tenha "gravemente desfigurado ("uerg verschampeléiert") o monumento e tenha constituído um ato de desrespeito.

De desrespeito em relação a quê?

Será que uma demonstração semelhante em homenagem a um artista 'luxemburguês' teria suscitado as mesmas reações? Alguns falaram de desrespeito em relação à nossa cultura... Neste caso, o 'problema' resumir-se-ia à origem maioritariamente cabo-verdiana e portuguesa de pessoas em luto. Portanto, a motivos puramente racistas.

Não digo que a sua questão parlamentar tenha sido motivada por ressentimentos xenófobos. No entanto, ela terá servido aos fins daqueles que os têm."


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