Escolha as suas informações

Quem são estes senhores ao lado do pequeno Mário?
Luxemburgo 7 min. 20.11.2019

Quem são estes senhores ao lado do pequeno Mário?

Quem são estes senhores ao lado do pequeno Mário?

Luxemburgo 7 min. 20.11.2019

Quem são estes senhores ao lado do pequeno Mário?

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O menino português, de Bettendorf, conta ao Contacto as emoções que viveu ao conhecer Cristiano Ronaldo e outros jogadores no Luxemburgo-Portugal. Ele foi a estrela fora do relvado. Devido à sua doença os pais tiveram de sair de Portugal e emigrar.

O pequeno Mário Filipe ainda se entusiasma quando fala da tarde de domingo passada, dia em que realizou um dos sonhos da sua vida: conheceu o seu ídolo, Cristiano Ronaldo e ainda outros jogadores da “sua” seleção.

E, se no estádio Josy Barthel a seleção portuguesa foi a estrela da tarde para os jogadores, portugueses e luxemburgueses, Mário, de 9 anos, foi o protagonista fora de campo, a quem cumprimentaram, com quem posaram para a fotografia e até lhe levaram uma manta para assistir ao jogo mais quentinho.

“É um dia que vai ser difícil esquecer”, assume Mário animado. Este menino português, que nasceu em Santa Maria da Feira, Portugal, reside com os pais em Bettendorf, no cantão de Diekirck, e desde que se lembra que vê jogar Cristiano Ronaldo e sonhava um dia conhecê-lo. 

Cristiano Ronaldo, um ídolo lá em casa

Um sonho que herdou do seu pai, também ele Mário e fã do jogador. “Admiro-o não só pelo jogador que é, mas porque chegou onde chegou pelo esforço e pelo trabalho. Lutou sempre para dar o seu melhor”, diz o pai Mário Almeida, contando que lá em casa todos gostam do capitão da seleção portuguesa. 

“Desde pequenino que o Mário queria ver o Cristiano e a seleção portuguesa jogar”, recorda este pai que muito se orgulha do filho que tem. 

O menino nasceu com uma malformação congénita, a espinha bífida, que o deixou “paraplégico não sentindo nada dos joelhos para baixo”, obrigando-o a estar numa cadeira de rodas.

Um menino "igual aos outros"

Apesar de ser uma criança com “mobilidade reduzida é, de resto, um menino igual aos outros. Frequenta o 3º ano aqui na escola ‘normal’ de Bettendorf”, vinca o pai.

A família veio de França para o Luxemburgo há seis anos e devido a esta mudança, sobretudo por causa do idioma alemão, que o pequeno não dominava, os pais e a escola decidiram manter o Mário dois anos letivos no mesmo ano. De resto é uma criança “inteligente” que gosta muito de futebol. Tanto que torce por três clubes.

"O Mário costuma dizer que é do Feirense que é o clube da terra onde nasceu, do Porto porque o avô materno é 'doente' por aquele clube e incutiu no neto essa mesma 'doença', e do Leixões por simpatia porque o pai é um apaixonado pelo clube", conta o pai.

A estratégia do pai 

Para o Mário pai e Mário filho (os dois na foto em cima) a ida da seleção lusa ao Luxemburgo, para defrontar a seleção da casa era a altura perfeita para realizar o sonho do pequeno. E Mário pai fez tudo que dar esta alegria ao filho.

Conseguiu chegar à Federação Portuguesa de Futebol (FPF) que aceitou colaborar e no dia do jogo os dois portugueses com cachecóis da seleção portuguesa chegaram ao estádio para ver a partida e esperar que a sorte estivesse do seu lado “e conseguir falar com Ronaldo e os outros jogadores” conta o menino.

A manta de Daniel da Mota

“Como o estádio Josy Barthel não tem condições para cidadãos com mobilidade reduzida ficámos na pista de tartan, junto ao relvado, e ao pé dos bombeiros que ali estavam de serviço”, diz o pai. 

E logo que teve a primeira oportunidade foi falar com o diretor da FPF, João Vieira Pinto, contando que o filho gostaria muito de conhecer Cristiano Ronaldo. “João Vieira Pinto disse-me que ia falar com ele no final ”.

Durante a partida realizada numa tarde de muito frio no Grão-Ducado também o jogador da seleção do Luxemburgo, o lusodescendente Daniel da Mota, reparou naqueles dois adeptos especiais, ali perto do relvado. “Ele foi levar-nos uma manta para cobrirmos os pés. Foi um gesto muito humano”, vincou Mário Almeida.

A foto com Cristiano Ronaldo

Chegou o final da partida e a “loucura” da vitória da seleção portuguesa. “Fomos para o pé do túnel onde os jogadores iam entrar como nos indicaram. O Cristiano saiu, mas o João Vieira Pinto seguiu-o e o Cristiano voltou atrás para vir ter com o Mário”, lembra o pai.

“Chegou ao pé de mim, tirou a foto e foi-se embora. Não consegui falar com ele. Nem ele comigo, foi tudo muito rápido e os fotógrafos todos em cima de nós, não deu para falarmos”, conta o menino, salientando: “mas esteve ao meu lado e tirou a foto!”.

LUSA

A foto e os cumprimentos dos outros jogadores

Mas, não foi o único. “Também cumprimentei o Bernardo Silva que tirou uma fotografia comigo. Eu ainda lhe pedi a camisola, mas ele disse-me que já a tinha dado a outra pessoa que também lhe tinha pedido. Cumprimentei ainda o Rui Patrício e o Fernando Santos quando eles iam entrar para o túnel. Todos me retribuíram o cumprimento”, diz o pequeno Mário.

Da parte da seleção do Luxemburgo também houve quem quisesse dar um abraço ao Mário Filipe. Outro lusodescendente. “O Gerson Rodrigues com quem tirei uma foto”, recorda.

O presente especial do árbitro

A surpresa veio da parte do 4º árbitro da partida, o espanhol Carlos Del Cerro Grande.

“O árbitro chegou-se ao pé do meu filho e disse: ‘Sei que não sou o Cristiano Ronaldo, mas fica com os meus cartões como recordação.’ E deu ao Mário os cartões vermelhos e amarelos da partida. E cada cartão tem o nome dele escrito”.

Assim e para recordação de um dia memorável, Mário tem fotografias com os seus ídolos da seleção portuguesa, com jogadores do Luxemburgo e os cartões do árbitro (foto em cima).

Um novo sonho para realizar

Depois desta “conquista” a dupla de Mários já tem novo sonho: ir a Turim, ao estádio da Juventus ver novamente Cristiano Ronaldo jogar. “Se Mário conseguiu realizar o sonho de ver a seleção jogar, conhecer Ronaldo e os outros jogadores porque não conseguir também ir ao estádio em Turim? Não digo que será para já mas vamos fazendo planos”. Mário deixa a promessa e tudo fará para a cumprir.

Uma vida "o mais normal possível"

Mário Almeida e a mulher tentam que o seu filho tenha “uma vida o mais normal possível” num dia a dia em que parte do tempo do menino é passado em tratamentos obrigatórios derivados da doença. Além das consultas frequentes a que tem de ir.

Mário Filipe nasceu com a patologia da espinha bífida aberta, uma malformação congénita da coluna vertebral do bebé onde as meninges, a medula e as raízes nervosas, estão expostas. Trata-se de um defeito do tubo neural que ocorre no início da gestação.

 “A mãe realizou todas as ecografias no Hospital da Vila da Feira, onde o Mário nasceu e nunca lhe disseram nada da doença”, explica o pai. Logo no parto foi-lhe detetada a doença. 

O bebé foi transportado de urgência para o Hospital Maria Pia e foi operado “24 horas depois de ter nascido”.  Ali, recorda o pai, “ficou internado dois meses, entre os cuidados intensivos e a enfermaria”.

Casal emigrou para suportar despesas médicas

Mário foi crescendo sempre a precisar de inúmeros cuidados médicos. “Por causa das consultas e tratamentos que em Portugal não conseguíamos suportar financeiramente tivemos emigrar”, diz o pai. Tinha o Mário 16 meses de vida quando partiram para outro país.

Primeiro foram para a Holanda, depois viveram em França, na fronteira com o Luxemburgo e já Mário trabalhando no Grão-Ducado e agora vivem há seis anos no país.

Empresa a pensar noutros doentes

“Embora as despesas médicas ainda sejam significativas não se compara nada os apoios que o estado luxemburguês dá, nem as comparticipações do sistema nacional de saúde daqui. No Luxemburgo dá para suportarmos os custos”, explica Mário Almeida.

E porque desde o nascimento do filho as suas rotinas implicam viagens constantes para os tratamentos, o pai de Mário Filipe decidiu criar uma empresa de transporte, a ADN Ambulances, que transporta doentes que precisam realizar tratamentos hospitalares". Assim, pode "ajudar outros familiares e doentes”. 

Um filho "muito querido e inteligente"

No Luxemburgo vivem tranquilamente e desde há 18 meses que Mário Filipe tem um novo irmão. Além de um irmão mais velho, de 16 anos, que estuda na Holanda, fruto de um casamento anterior da mãe.

“Sempre educámos o Mário no sentido dele ser o mais autónomo possível. Para que possa não depender dos pais. Nem agora, nem no futuro", explica Mário Almeida acrescentando orgulhoso:"O meu filho é uma criança muito querida e inteligente”.