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Quem não quer ser populista, não lhe veste a pele
Um brincalhão converteu um poster de campanha do DP em propaganda do ADR.

Quem não quer ser populista, não lhe veste a pele

Foto: Adam Walder
Um brincalhão converteu um poster de campanha do DP em propaganda do ADR.
Editorial Luxemburgo 4 min. 14.09.2018

Quem não quer ser populista, não lhe veste a pele

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Em política, como de resto na vida, há que ter a coragem das suas convicções. O problema com o DP é que, enquanto de noite chafurda no mais descarado populismo, de dia desdiz os seus próprios cartazes.

"Ridendo castigat mores". Em Cessange, um brincalhão converteu um poster de campanha do DP em propaganda do ADR, e nem precisou de muito trabalho. Bastou-lhe pintar "ADR" por cima de "DP". A crítica é certeira. Do polémico slogan ao spot de campanha divulgado esta semana, é difícil distinguir entre o partido que lidera a atual coligação do Governo e a sanha nacionalista do ADR. 

O lema de campanha do DP para as legislativas de outubro é "Zukunft op Lëtzebuergesch", o futuro em luxemburguês, o idioma que funciona como crivo no acesso à Função Pública e aos cargos políticos, excluindo os estrangeiros, que representam 47% da população. Já o cartaz vandalizado mostra um pai com a filha ao colo (loira, como convém), com a frase "Um bom pai e um bom colega de trabalho", rematada pelo polémico slogan. Podia ser um daqueles cartazes da guerra fria a distinguir o bom cidadão do traidor à pátria. E o vídeo também não deixa margem para dúvidas sobre o nacionalismo dominante na campanha do DP. 

O spot tem apenas 26 segundos, mas um semiólogo teria aqui pano para mangas. O vídeo arranca com uma menina de tranças ao piano, a tocar as primeiras notas do hino do Luxemburgo. Depois, sucedem-se outras personagens que cantarolam e assobiam o resto da canção, enquanto se preparam para começar o dia. Nestas manhãs que cantam o hino nacional, tudo está no seu lugar na ordem social estabelecida. A maioria são loiros de tez clara, claro. Estes são mostrados a gozar o ócio em casas abastadas ou a trabalhar em frente ao computador. Há um proprietário rural a inspecionar uma vinha, com todos os sinais exteriores dos agros-betos, do boné verde à camisa cor de rosa. Os únicos com pinta de estrangeiros são uma empregada de uniforme, que abre diligentemente as cortinas e faz a cama, e um jovem - do Médio Oriente? - que se prepara para abrir as portas de um estabelecimento comercial. O spot acaba com Xavier Bettel a dar o nó na gravata, antes de iniciar o dia à frente dos destinos da nação, ao som do hino tocado ao piano.

"Ons Heemecht"  ("A nossa pátria") é um hino bonito. Os versos de Michel Lentz louvam o encanto bucólico do país, do rio Alzette às vinhas do rio Moselle. O poema remata com um pedido a Deus para que proteja o Luxemburgo "da opressão estrangeira". "Em crianças semeaste em nós / o desejo de ser livres / Deixa que brilhe o sol da liberdade / por toda a eternidade". No spot do DP, não falta sequer a alusão subliminar a este "sol da liberdade" que ilumina um país sem a sombra da ameaça dos estrangeiros, com a aurora dourada a focar-se no atual primeiro-ministro.

Em política, como de resto na vida, há que ter a coragem das suas convicções. O problema com o DP é que, enquanto de noite chafurda no mais descarado populismo, de dia desdiz os seus próprios cartazes. "Zukunft op Lëtzebuergesch" ("O futuro em luxemburguês") seria, assim, uma declaração de amor ao multilinguismo e à abertura do país aos estrangeiros. E o nacionalismo do spot televisivo com o hino a conta-gotas, em que a maioria das pessoas tem baixos níveis de pigmentação, não tem nada a ver com o nacionalismo praticado às claras pelo ADR, sem o verniz das agências que vendem políticos e cerveja com os mesmos truques de marketing. 

Esta semana, em declarações ao El Mundo à margem do discurso sobre o estado da União, Jean-Claude Juncker deixou recados aos populistas. "Sabem por que se tornam forte os populistas? Porque parte dos partidos tradicionais estão a usar os mesmos argumentos e as mesmas explicações. Estão a flirtar com essas ideias e a tornar-se eles próprios populistas", criticou. E avisou: "Se fazes isso, as pessoas vão votar no original, e não na cópia". Com as sondagens a prever bons resultados para o ADR, que tem nas listas Fred Keup, o líder da campanha no referendo contra o direito de voto dos estrangeiros, o tiro do DP pode sair-lhe pela culatra. Convinha que ao menos assumisse este nacionalismo de pacotilha, em vez de assobiar para o lado.