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Quarentena no Luxemburgo. Brasileira salva indocumentados da fome
Luxemburgo 6 min. 09.04.2020

Quarentena no Luxemburgo. Brasileira salva indocumentados da fome

Quarentena no Luxemburgo. Brasileira salva indocumentados da fome

Foto: FB
Luxemburgo 6 min. 09.04.2020

Quarentena no Luxemburgo. Brasileira salva indocumentados da fome

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Quando Adrianni percebeu que, sem documentos, centenas de brasileiros passaram a correr risco de deportação a cada ida ao supermercado, lançou uma campanha solidária para encher-lhes a despensa durante o estado de emergência. Os brasileiros indocumentados trabalham maioritariamente nas obras, hotelaria ou restauração. O patrão “não dá contrato”, o Brasil só atende em Bruxelas.

Em apenas meia hora, seis famílias pediram socorro. Agora são quinze. Desde 17 de março que a caixa de mensagens do Facebook de Adrianni Reis se transformou numa espécie de portal da queixa dos brasileiros indocumentados que a pandemia atirou, sem alternativa, para o confinamento. Há gente sozinha, famílias com filhos e pessoas doentes. “Muitos vivem em cima de cafés sem terem sequer onde cozinhar. Com a polícia à porta, não trabalham, nem recebem”, descreve a brasileira que transformou o hall de entrada numa espécie de armazém de distribuição improvisado para não deixar os compatriotas morrer à fome. “Não há dinheiro envolvido”. Adrianni só aceita alimentos e produtos essenciais. “O objetivo é ajudar quem precisa, não é lucrar com a desgraça dos outros”.

Os dezassete anos na "ilegalidade" ajudam a emoldurar-lhe o espírito de iniciativa. Há 19 anos no Luxemburgo, a brasileira de Belém do Pará só começou a entrar nas contas das autoridades do país há dois. Aliadas ao sentimento de injustiça, foram as memórias “dos dias difíceis” que a atiraram para a frente. “Não temos a ajuda de ninguém. As refeições que a Cruz Vermelha pôs à disposição dos trabalhadores indocumentados não chegam para todos e com um consulado itinerante a cada três ou cinco meses é muito difícil pedir ajuda a quem quer que seja”, descreve. Do outro lado da linha, escondidos atrás do anonimato forçado, Bruno, Júlia, Paula e Sandro são o rosto do desespero.

Feijão com arroz

Há pouco mais de um ano no Grão-Ducado, Sandro está sozinho há 17 dias no quartinho que o patrão do restaurante lhe cedeu em troca de 12 horas de trabalho diário. Júlia conta a mesma história. Sem contrato, viram a esperança num “futuro melhor lá na Europa”, dissolver-se na pandemia e no recolher praticamente obrigatório que pôs as autoridades a controlar as entradas e saídas das áreas mais movimentadas das cidades. Prestes a desistir, foram dos primeiros a pedir ajuda e a espalhar a palavra que dos bairros da capital chegaram, à velocidade da luz a Esch-sur-Alzette, Remich, Dudelange e Differdange.

“O caso mais crítico foi o da mãe de uma menina de dez anos que começou a ter ter convulsões. Corri meio mundo e encontrei uma médica solidária que, sem cobrar nada, me conseguiu uma receita. Sem aqueles medicamentos para a epilepsia a criança podia ter morrido”, recorda Adrianni que confessa que só a vasta rede de contactos semeados atrás dos balcões dos sucessivos cafés onde trabalhou, tem permitido que o número de doações acompanhem o ritmo da angustia.

A organização é milimétrica. “Tenho pedidos de famílias com quatro, seis ou oito pessoas e organizo cabazes consoante as necessidades de cada uma. Fraldas para crianças pequenas, verduras para uma boa sopa, proteína porque ninguém vive do ar, medicamentos para os mais idosos…Vou fazendo assim porque tem de chegar para todos e tem de ser tudo muito bem pensado porque não sabemos quanto tempo é que isto vai durar”, resume Adrianni. Distribuídos diariamente, os sacos levam, à vez, arroz, feijão, massa, pão, óleo, leite, carne e conservas. “Alguns patrões doaram fogões elétricos e alguns amigos próximos ajudam-me nas deslocações”. A ordem é chegar a todos.

Isolamento forçado

Sem documentos, Paula não pode sequer socorrer-se do estatuto de trabalhadora essencial para furar o isolamento social imposto pelo governo para travar a propagação do surto do novo coronavírus. Há três anos nas limpezas, nunca assinou contrato e mantém a situação irregular. Sem receber está sozinha com três filhos. A única vez que tentou sair de casa, correu tanto que ficou com a nítida sensação que não valia a pena. “Eu não vim para aqui para pedir esmola. Vim trabalhar. Trabalho desde que cheguei e numa situação destas estou completamente desamparada. Se não fosse a solidariedade da Adrianni estava perdida”.

A contar pelas dezenas de mensagens de agradecimento que acompanham as publicações da brasileira do Pará nas redes sociais, há um sem número de brasileiros na mesma situação. De viva voz, o carioca Bruno falou num “jogo do gato e do rato”, onde “quem perde é o brasileiro”. Muitas vezes, conta, “o trabalhador e o patrão ficam à mercê do parecer da comuna e das autoridades para desbloquear a residência” e “com medo que o pedido seja recusado, nem o patrão envia o pedido para regularizar, nem o próprio trabalhador quer passar por isso”. Com cerca de 2.500 brasileiros registados, nem as autoridades do Grão-Ducado conhecem a verdadeira dimensão da comunidade que, só no ano passado, ultrapassou os belgas, os portugueses e os alemães no número de pedidos de nacionalidade que chegaram ao ministério da Justiça.

“Não andamos na rua a pedir esmola, não passamos o dia na Gare nem enchemos o país de droga. Somos trabalhadores e já é altura e haver um acolhimento diferente”, reclama Adrianni. “Vi há poucos dias que neste cenário de crise o SEF, em Portugal, decidiu conceder o visto a todos os trabalhadores com pedidos pendentes, é hora do Luxemburgo seguir o exemplo. É um país rico. Abre as portas a toda a gente e deve abrir-nos a nós”, reclama Adrianni.


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