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Quando o trabalho mata
Editorial Luxemburgo 4 min. 18.07.2019

Quando o trabalho mata

Quando o trabalho mata

Foto: Le Pictorium Agency
Editorial Luxemburgo 4 min. 18.07.2019

Quando o trabalho mata

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O local de trabalho não tem de ser um martírio, pode – e deve – ser algo encorajador. É lá que passamos a maior parte da nossa vida…

 Um julgamento histórico terminou esta semana em Paris – e o veredicto final dos juízes pode melhorar a vida de milhões de trabalhadores por esse mundo fora. No banco dos réus estão Didier Lombard, o antigo director executivo da France Télécom, bem como alguns dos seus vices; eles são acusados de assédio moral no local de trabalho, criando um ambiente tão implacável com os seus empregados que lhes deixava poucas saídas: o suplício, a baixa médica, o despedimento… ou o suicídio. Só em dois anos, 2008 e 2009, 35 funcionários da empresa de telecomunicações tomaram a sua própria vida, deixando muito claro, nas suas mensagens finais, que a empresa estava na base da sua terrível decisão.

Em 2014 (já depois da companhia mudar de nome, para Orange) uma segunda vaga de suicídios veio de novo chamar a atenção para o que se passava lá dentro: tácticas desprezíveis (mas comuns…) como ameaçar com a falência ou despedimentos em massa; impor aos subordinados metas impossíveis de cumprir para que estes pudessem ser facilmente despedidos ou, desmoralizados, se demitissem; obrigá-los a mudar para uma cidade diferente, longe da família e amigos; aumentar brutalmente a carga de trabalho – ou pelo contrário não dar nada para fazer, o que esvazia as vidas profissionais de interesse ou significado. O dia-a-dia num ambiente de trabalho de cortar à faca tornava-se tão insuportável que a pressão levava a querer acabar com tudo.

Era necessário cortar na força de trabalho da empresa, reduzi-la em pelo menos 30.000 indivíduos… a qualquer preço. Lombard chegou a afirmar que ele conseguiria que as pessoas saíssem da France Télécom fosse como fosse: “pela janela ou pela porta”.

A condenação deste tipo de ideário, até aqui impune, deixará um sinal claro para o futuro: gestores inumanos podem ser responsabilizados pessoalmente ao ponto de terem de cumprir cadeia (a pena máxima é de um ano). Os próximos pensariam talvez duas vezes antes de o tentar... Pelo contrário, a responsabilidade de qualquer empresa, grande ou minúscula, é assegurar que os seus colaboradores estejam nas melhores condições não apenas físicas como sobretudo psíquicas. Até porque não cuidar apropriadamente deles está a custar uma autêntica fortuna: um estudo recente da Organização Mundial de Saúde aponta para números na ordem de um milhão de milhões de euros a cada ano de produtividade perdida – e para 615 milhões de pessoas que, em todo o globo, sofrem de depressão, ansiedade e stress agudo. As empresas que não têm sistemas de apoio ao bem-estar mental produzem menos e pior; os seus empregados faltam mais, ficam mais vezes doentes, e também têm mais tendência a processar o empregador.

Psicólogos laborais são unânimes em afirmar que o fenómeno de esgotamento é hoje em dia comum, atingindo nas nossas sociedades cada vez mais competitivas as proporções de uma verdadeira crise de saúde pública – mas muito pouco, ou nada, tem sido feito para travar o problema. Um estudo lançado pelo Financial Times obteve respostas de 43 países diferentes sobre a saúde mental no local de trabalho; a maioria dos respondentes queixava-se de não poder, ou saber a quem, pedir ajuda por não se encontrar bem. Pelo caminho há sempre trabalho para fazer, ou o estigma cultural de “não conseguir”, ou a pressão vinda de cima, ou o medo – justificado – de ser olhado de forma negativa após confessar uma vulnerabilidade. Um antigo técnico de uma multinacional farmacêutica conta o que se passou após o seu divórcio recente: começou a tomar alguns medicamentos que lhe reduziram a concentração, mas não a angústia que o fazia chorar por vezes no local de trabalho. Tentou abrir-se com o seu chefe, mas este respondeu-lhe rispidamente: “o meu pai dizia sempre que ou eu parava de chorar, ou ele dar-me-ia uma boa razão para chorar”. Passado pouco tempo, o funcionário teve um esgotamento. Em seguida despediu-se.

Nem tudo é mau, e há muitas empresas que procuram resolver o problema, por vezes com soluções interessantes. Algumas reduzem o horário de trabalho semanal para as 35 ou mesmo 32 horas. A Volkswagen impede que os funcionários recebam emails de trabalho entre as 18:15 e as 7 da manhã. Mas talvez o melhor exemplo venha de um português: António Horta Osório, presidente do poderoso banco Lloyds, que pouco depois de ter chegado ao topo da carreira meteu dois meses de baixa médica devido ao stress – uma novidade (e uma inspiração) entre os líderes de elite. Ao voltar ao trabalho, transformou o Lloyds num exemplo a nível de bem-estar mental; afirma querer “pelo bom exemplo que criámos, levar outros a quebrar este tabu.” Os empregados redobraram a sua dedicação ao trabalho e os resultados financeiros melhoraram em consequência.

O local de trabalho não tem de ser um martírio, pode – e deve – ser algo encorajador. É lá que passamos a maior parte da nossa vida…

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