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“Quando falamos das alterações climáticas, falamos de uma mãe que segurou o cadáver do filho”

“Quando falamos das alterações climáticas, falamos de uma mãe que segurou o cadáver do filho”

“Quando falamos das alterações climáticas, falamos de uma mãe que segurou o cadáver do filho”

“Quando falamos das alterações climáticas, falamos de uma mãe que segurou o cadáver do filho”


por Sibila LIND/ 01.11.2019

© Will Rose / Greenpeace

Há seis anos, Joanna Sustento viu o pai afogar-se à sua frente e teve de escolher entre salvar-se a si ou à sua mãe, naquela que foi uma das maiores tempestades de sempre a atingir a terra. O super tufão Hayan devastou as Filipinas no dia 8 de novembro de 2013, e provocou mais de 7.360 mortos e desaparecidos. Desde então, Joanna fez o seu luto, que acabou por se tornar numa luta pelo clima. No dia 22 de outubro, a ativista filipina de 28 anos veio ao Luxemburgo, a convite da Greenpeace Luxembourg, para alertar para as consequências das alterações climáticas, utilizando a sua história como exemplo.

Numa sala cedida pela Caritas Luxembourg, Joanna pede a um grupo de desconhecidos para fecharem os olhos e pensarem na sua memória de infância preferida. Quando abrem os olhos, Joanna conta a sua: “A minha memória preferida era o tempo de qualidade que passava com a minha família, um momento simples em casa, à volta da mesa ou na praia”.

Atrás de si, tem a imagem da sua família projetada, que com um clique passa para a imagem de uma aldeia submersa. “Eu gostava dos tufões, quando havia alerta de tufões não tínhamos aulas e podíamos ir para casa ou para a praia. Era um dia livre para fazer aquilo que queríamos. Claro que o meu gosto por tufões acabou quando um dia, há quase seis anos, eu e a minha família travámos uma batalha épica. A nossa casa ficou submersa e tivemos de lutar para nos mantermos à superfície. Em duas horas perdi tudo o que amava. Perdi o meu pai, a minha mãe, o meu irmão mais velho, a minha cunhada e o meu sobrinho de três anos. Só sobreviveu o meu irmão do meio. Este foi o dia em que o super tufão Hayan devastou as Filipinas”.

Joanna Sustento segura um cartaz onde se lê: "Escolham as pessoas em vez do petróleo", durante o protesto da Greenpeace contra a plataforma de petróleo Statoil Songa Enabler, na Noruega, em 2017
Joanna Sustento segura um cartaz onde se lê: "Escolham as pessoas em vez do petróleo", durante o protesto da Greenpeace contra a plataforma de petróleo Statoil Songa Enabler, na Noruega, em 2017
© Will Rose / Greenpeace

Depois de uma tragédia como esta, como é que uma pessoa se reconstrói?

Contar a mesma história vezes sem conta ajuda. Eu tive um terapeuta que foi uma das coisas que faltou na comunidade, nem todos tiveram ajuda psicológica. O processo de luto é muito importante para as pessoas que passam por um trauma. Mas o que me ajudou foi a escrita. A escrita e o storytelling tornaram-se as minhas ferramentas, e foi aí que a minha cura começou. Disse para mim própria que a minha missão seria partilhar a minha história, aquilo que as alterações climáticas significam na nossa parte do mundo. Porque o aquecimento dos oceanos, o aumento do nível da água, nada disto nos toca realmente, nada nos faz realmente agir. É por isso que o storytelling é importante. Porque nas Filipinas, quando falamos das alterações climáticas, falamos de um pai que viu a família afogar-se ou de uma mãe que segurou o cadáver do filho. É importante humanizar as consequências, porque o que aconteceu com a minha família pode acontecer com a vossa.

É importante humanizar as consequências [das alterações climáticas], porque o que aconteceu com a minha família pode acontecer com a vossa.

Joanna Sustento

Quando é que percebeu que se tinha tornado ativista?

Eu apenas recebi a designação de ativista com a ação que fiz na Noruega, contra a exploração petrolífera no Ártico, há dois anos. Quando estava no navio foi quando percebi que aquilo que estava a fazer era ativismo. Mas, nos meses seguintes percebi que o que tinha feito, como alguém que faz campanha contra as alterações climáticas, já era ativismo. Em 2017 comecei a trabalhar com campanhas de justiça climática e a sensibilizar as pessoas na minha cidade através da minha história. E esse foi o momento em que percebi que me tinha tornado ativista. Porque antes eu contava a minha história como uma história de superação, como encontrei um propósito e mantive a saúde mental. Mais tarde é que o discurso evoluiu para as questões ambientais.

Foram 11 os ativistas que participaram no protesto pacífico da Greenpeace na Noruega
Foram 11 os ativistas que participaram no protesto pacífico da Greenpeace na Noruega
© Will Rose / Greenpeace

Então foi algo que acabou por acontecer naturalmente.

Sim, eu não escolhi este caminho, ele foi-me dado. Não podia virar-lhe as costas ou fechar os olhos ao que está a acontecer com o mundo. Foi um instinto natural que me fez querer fazer parte de algo que criasse um impacto, mas não sabia como, e percebi que era este o meu caminho. E agora estou no Luxemburgo.

O tufão Hayan é a base da sua luta pelo clima. Contudo, não existe informação suficiente para relacionar esse desastre natural com as alterações climáticas.

O impacto da exploração petrolífera e das emissões de carbono não acontece no dia seguinte. A mudança climática que estamos a viver agora não é o resultado das atuais emissões de carbono mas das anteriores, das históricas. Richard Heede, do Instituto da Responsabilidade Climática dos Estados Unidos, conseguiu medir as emissões de carbono. E descobriu que 71% das emissões são da revolução industrial e de 90 empresas.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

No dia em que o tufão atingiu as Filipinas, o diplomata filipino Naderev Sano estava na 19.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP19), na Polónia, e fez um discurso que emocionou muitas pessoas. Ele disse: “O meu país recusa-se a aceitar um futuro onde os super tufões vão tornar-se algo normal”. Podemos esperar o aparecimento de mais eventos extremos no futuro?

Acabámos de ter um super tufão no Japão, há alguma semanas. Se não fizermos nada vai-se tornar no novo normal. No vídeo do Naderev, ela fala do irmão. O irmão também é ativista pelo clima e conta sempre a história de um amigo que morreu no tufão das Filipinas. Esse amigo é o meu irmão mais velho.

São os países mais pobres que vão sofrer mais as consequências?

Nós somos uma comunidade que vive numa grande injustiça, porque somos aqueles que estão a contribuir menos para as alterações climáticas mas somos aqueles que sofrem mais. Nas Filipinas, a nossa pegada de carbono é 0,5%. Mas estamos a perder vidas e qualidade de vida. E ter uma vida digna, decente, não é um privilégio mas um direito humano. Três anos depois do tufão, as famílias que viviam na costa, cujas casas foram destruídas, voltaram para lá. Reconstruíram as suas casas e vivem lá desde 2016 porque não têm para onde ir. Foi-lhes dada habitação permanente mas longe do seu meio de subsistência, ou seja, da pesca. As comunidades que regressaram às suas casas na costa preferem viver lá, porque conhecem as pessoas e é lá que está o seu sentido de comunidade. Por questões de segurança, o governo mandou demolir algumas casas na costa, de forma a obrigar as pessoas a deslocarem-se para o interior. Mas então e o seu meio de sustento? Eu fui a algumas aldeias falar com as pessoas e houve um líder de uma aldeia costeira que disse: “Eu aceito mudar de lugar se levarem o mar atrás”.

Eu fui a algumas aldeias falar com as pessoas e houve um líder de uma aldeia costeira que disse: “Eu aceito mudar de lugar se levarem o mar atrás.

Joanna Sustento

A mudança deve começar nas pessoas ou nas grandes empresas?

A mudança começa connosco e com os governos e com as empresas. Não é “ou”, é sempre “e”. Deve ser um movimento coletivo.

Joanna Sustento durante o seu protesto a solo contra a Shell, em Manila
Joanna Sustento durante o seu protesto a solo contra a Shell, em Manila
© Geric Cruz / Greenpeace

No mês passado, no dia 16 de setembro, fez um protesto sozinha à frente da Shell, em Manila. Porquê esta empresa em específico?

As empresas mais poluentes são a Exxon e a Shell. Nós temos provas legais de que a Shell sabe o impacto devastador que tem no ambiente, mas não faz nada para combater isso. Prefere o lucro à vida das pessoas. Nesse protesto apareceram 40 polícias à minha volta, 40 contra uma. Eu estava apenas lá, sem gritar, em silêncio, apenas a segurar um cartaz. A Shell mandou uma representante vir falar comigo e perguntar o que estava a fazer. Quando lhe contei a minha história, acabei por ficar a saber que ela própria também tinha perdido familiares no tufão. Ela disse-me que era importante eu estar ali e que iria espalhar a minha história no interior do edifício, para pô-los a pensar se estão realmente no caminho certo.

As empresas são as mais culpadas?

Elas não estão a ajudar. Elas fazem todo o tipo de ações de responsabilidade social, de “green washing”, como a Shell, que diz plantar árvores ou que gastam x euros em energias renováveis, mas isso não anula nada, não compensa as suas emissões de carbono históricas ou o facto de produzirem combustíveis fósseis. E depois também há o argumento: “Mas nós ajudámos a tua cidade quando o tufão atingiu o país, demos dinheiro para construírem casas”. Mas para mim isso não é ajuda, é o pagamento deles pelas vidas que se perderam. E nenhum valor vai ser alguma vez suficiente.

A mudança começa connosco e com os governos e com as empresas. Não é “ou”, é sempre “e”. Deve ser um movimento coletivo.

Joanna Sustento

O que acha do papel da Greta Thunberg na sensibilização das pessoas para as consequências das alterações climáticas?

Os esforços da Greta, juntamente com os dos jovens de todo o mundo, transmitem uma mensagem poderosa. Como jovens, eles estão a reconhecer o papel deles para a construção da nação. Nas Filipinas, os jovens não têm uma palavra a dizer. São os mais velhos que tomam as decisões. Mas a juventude atual está a introduzir toda uma nova perspetiva de que ela própria deve ter uma opinião, porque é o seu futuro que está em causa. Ao ouvir a Greta comecei a questionar-me: “O que é que estamos a fazer nas Filipinas? Os jovens desta comunidade tão vulnerável ao impacto das alterações climáticas são ativos?” Nós devíamos manifestar-nos mais. Porque esta rapariga, que nunca viu um tufão na vida, já está a fazer alguma coisa. Do que é que estamos à espera? Para mim, a Greta despertou essa visão nos jovens de todo o mundo, especialmente nos jovens das Filipinas, que também se estão a juntar às greves pelo clima.

No seu dia-a-dia adotou alguns hábitos para preservar o meio ambiente?

Bem, vim da Holanda para o Luxemburgo de comboio [risos]. E depois vou apanhar outro comboio para Viena. Já na minha cidade, em Tacloban, costumo andar mais a pé ou de boleia e tento ter um estilo de vida simples. E suporto os comerciantes locais.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

Num vídeo que gravou para a Unicef, disse que acreditava que havia uma razão para ter sobrevivido. Encontrou essa razão?

Sim.

E qual é?

Acho que aquilo que estou a fazer é a razão pela qual sobrevivi. O trabalho que estou a fazer é maior do que eu. Não o estou a fazer apenas por mim mas pela minha comunidade. E espero que pelo resto do mundo também.