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Quando as sombras tapam a verdade
Editorial Luxemburgo 3 min. 05.02.2020

Quando as sombras tapam a verdade

Quando as sombras tapam a verdade

Editorial Luxemburgo 3 min. 05.02.2020

Quando as sombras tapam a verdade

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Vivemos em plena revolta contra a realidade. Em momentos de crise, em que a situação social se torna insustentável, o racismo e a xenofobia crescem e funcionam como uma válvula de segurança que permite que o ódio esconda os responsáveis pela existência das desigualdades sociais gritantes.

Vivemos em plena revolta contra a realidade. Em momentos de crise, em que a situação social se torna insustentável, o racismo e a xenofobia crescem e funcionam como uma válvula de segurança que permite que o ódio esconda os responsáveis pela continuação das desigualdades sociais gritantes.

Segundo as previsões da OCDE, citadas no livro “Pós-Capitalismo” de Paul Manson, são precisos mais 50 milhões de imigrantes nos EUA e igual número na União Europeia, nas próximas décadas, para manter o nível de desenvolvimento nessas duas regiões do mundo e conseguir garantir as reformas.

No entanto, a suposta imigração incontrolada, que nenhuma estatística revela, tornou-se o Cavalo de Troia que a extrema-direita cavalga nos EUA e na Europa. Um histerismo que tem que ver com três vetores fundamentais: o medo, a multiplicação da mentira nas redes sociais, o arrastar de uma situação de insegurança laboral generalizada e o aumento das desigualdades sociais em todo o planeta.

Vivemos num mundo em que os 50% mais pobres nada têm, em que as dezenas de pessoas mais ricas possuem grande parte da riqueza gerada em toda a Terra, mas em que o ódio dos pobres se dirige sempre aos outros pobres. Num universo de profundas desigualdades reais multiplicam-se as pseudo guerras de civilizações, racismos e xenofobias.

Em Portugal, o número de pessoas que acreditam existirem raças superiores a outras é quase ´de 52,9%, muito acima da média europeia que ronda os 30%. Esse fundo racista resulta que – num país em que os contribuintes pagaram, e vão continuar a pagar, dezenas de milhares de milhões de euros pela falência dos bancos privados – o ódio popular se dirija para alegados abusos nos subsídios de combate à pobreza, que são dados aos mais desfavorecidos, sobretudo se eles forem ciganos ou de outras minorias existentes.

Não importa que os dados demonstrem que apenas 3,8% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção sejam ciganos, as redes sociais pejadas de utilizadores fictícios e páginas produtoras de notícias falsas continuam a repetir a mentira até ao infinito, perante uma multidão que está mais interessada em confirmar os seus ódios que saber a verdade.

Esta atração pela mentira útil sempre existiu, as redes sociais apenas multiplicaram a sua virulência.

Relembremos um episódio. De janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, os batalhões de assassinos da organização Shindo Remnei declaram guerra aos japoneses “traidores” que acreditam que o Japão perdeu a guerra. Matam 23 imigrantes e ferem mais de 150. A polícia brasileira, para desarticular a organização, é obrigada a prender mais de 30 mil imigrantes japoneses. A Shindo Remnei chegou a distribuir edições falsas da revista Life em que as fotos da rendição do Japão aparecem como se fossem da rendição dos Estados Unidos da América. Os homens do Shindo Remnei não podiam desconhecer os factos da rendição do Japão; no entanto, não podiam acreditar neles. Esta distância cínica é parte daquilo que permite que qualquer sociedade funcione em termos de dominação.

Vivemos em plena revolta contra a realidade. Em momentos de crise, em que a situação social se torna insustentável, o racismo e a xenofobia crescem e funcionam como uma válvula de segurança que permite que o ódio esconda os responsáveis pela existência das desgualdades sociais gritantes.