Escolha as suas informações

Quando a terra prometida se revela uma desilusão
Editorial Luxemburgo 3 min. 21.04.2021

Quando a terra prometida se revela uma desilusão

Quando a terra prometida se revela uma desilusão

Ilustração: Florin Balaban
Editorial Luxemburgo 3 min. 21.04.2021

Quando a terra prometida se revela uma desilusão

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Talvez esta vontade de partir e de ficar, ao mesmo tempo, esteja inscrita no ADN dos portugueses, o povo que deu o pontapé de saída da globalização.

Estamos a poucos dias de comemorar os 47 anos da revolução dos cravos. Altura para fazer balanços sobre o que andamos para aqui chegar e o caminho que ainda nos falta percorrer. 

No D, do Desenvolvimento há ainda muito por fazer num Portugal em que a pobreza atinge um em cada dez trabalhadores. Mas não deixa de ser a terra de onde muitos partiram e onde tantos outros querem regressar. Na edição desta semana contamos 4 histórias felizes de imigrantes no Luxemburgo que regressaram a Portugal.

"Tenho a cabeça na origem e os pés no destino." A frase de Filipa Martins, colunista do Contacto, resume na perfeição o que sinto muitas vezes na pele. Acredito que esta sensação seja partilhada por muitos dos imigrantes que, como eu, vieram para o Luxemburgo. Um sentimento estranho de contradição entre a necessidade e o desejo de cá estar e a vontade de regressar ao nosso país de origem.

Parece que já não pertencemos a lugar nenhum. Porque quando regressamos a Portugal a sensação de estranheza permanece, mas de uma forma diferente. Talvez esta vontade de partir e de ficar, ao mesmo tempo, esteja inscrita no ADN dos portugueses, o povo que deu o pontapé de saída da globalização.

Nesta edição fomos conhecer a vida feliz de quatro imigrantes portugueses que optaram por regressar a Portugal. Falam com saudades do Luxemburgo, mas o sonho de voltar à sua terra natal falou mais alto. "Embora tivesse uma vida boa no Luxemburgo, Portugal estava sempre no meu pensamento" revela Cátia Maia Loureiro à jornalista do Contacto, Paula Santos Ferreira. 

Eduardo de dez anos resume na perfeição o desejo de muitos: 'Quando vivia no Luxemburgo tinha saudades de cá e agora que estou em Portugal tenho saudades de lá. O que eu gostava é que os dois países estivessem ao lado um do outro.'

Na reportagem que publicamos, esta semana, revelamos que há muitos portugueses a regressar ao seu país de origem, porque com o aumento do custo de vida no Luxemburgo "compensa mais viver em Portugal". Eduardo de dez anos resume na perfeição o desejo de muitos: "Quando vivia no Luxemburgo tinha saudades de cá e agora que estou em Portugal tenho saudades de lá. O que eu gostava é que os dois países estivessem ao lado um do outro."

Mas nem tudo é um mar de rosas. No Contacto desta semana mostramos o lado negro de situação social em Portugal onde um em cada dez trabalhadores é pobre. Há cerca de sete mil sem-abrigo no país e quase meio milhão de pessoas a precisar do apoio do Banco Alimentar. Na reportagem de Regina Nogueira mostramos o dia a dia desta comunidade, sem teto, num país em que a pandemia agravou as desigualdades sociais. A batalha contra a pobreza ainda está longe de ser ganha e o D de Desenvolvimento, enunciado no 25 de Abril por concretizar, quando faltam poucos dias para a comemoração de mais um aniversário da Revolução dos Cravos.

Direitos humanos iguais para todos

Mesmo no Luxemburgo as condições de vida dos luxemburgueses e imigrantes estão longe de ser iguais. Em entrevista ao jornalista Ricardo J. Rodrigues do Contacto, o diretor da Amnistia Internacional no Luxemburgo, Olivier Pirot, deixa o alerta: "Este modelo social é fantástico, mas não pode servir apenas os que têm nacionalidade luxemburguesa. É preciso estarmos atentos se os direitos humanos de que usufruem os cidadãos luxemburgueses também estão a servir os que chegam de fora, os trabalhadores transfronteiriços, os refugiados e os imigrantes."

Fechamos com a nova tendência de encher as casas de plantas, que nasceu durante o confinamento. A jornalista Ana Tomás foi conhecer alguns portugueses que estão a render-se ao verde e a transformar os apartamentos em mini-selvas. Uma fuga para compensar as limitações que o confinamento trouxe aos passeios ao ar livre.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

António Gamito, novo embaixador de Portugal: "Votar nas comunais já é um passo importante"
Recém-chegado ao Grão-Ducado, mas com muita experiência internacional, António Gamito não considera que o voto nas legislativas para os estrangeiros seja um tema do momento. Quanto à questão da indexação salarial para os funcionários, refere que vai “tentar resolver com Lisboa”. E, além da proximidade que pretende manter com a comunidade portuguesa, vem preparado para reforçar o relacionamento bilateral.
Imigrantes: Regressar a Portugal é cada vez mais uma miragem
O “mito do regresso” é cada vez mais uma miragem para a maioria dos imigrantes portugueses da primeira geração, aponta um novo estudo da Universidade do Luxemburgo. Na decisão de ficar no país de acolhimento pesam sobretudo a ligação aos netos que já nasceram no país e o acesso a cuidados de saúde.
O “mito do retorno” é há muito desmentido pela realidade da imigração, mas este é um dos primeiros estudos a constatá-lo no Luxemburgo, defende a investigadora.
“O Luxemburgo sofreu um processo de lusificação”, diz investigadora
A investigadora luxemburguesa Aline Schiltz estuda a emigração portuguesa para o Luxemburgo desde 2003. A viver entre Lisboa e o Grão-Ducado, a geógrafa, de 35 anos, é autora de vários estudos sobre os portugueses, incluindo uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países. Diz que o Luxemburgo se “lusificou” e que a emigração portuguesa levou à criação de um “espaço transnacional” que podia servir de modelo para uma Europa sem fronteiras.