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Primeira Linha. Setor das limpezas "não pode" ficar em casa
Luxemburgo 4 min. 19.03.2020 Do nosso arquivo online

Primeira Linha. Setor das limpezas "não pode" ficar em casa

Primeira Linha. Setor das limpezas "não pode" ficar em casa

Luxemburgo 4 min. 19.03.2020 Do nosso arquivo online

Primeira Linha. Setor das limpezas "não pode" ficar em casa

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Em tempos de emergência, os trabalhadores das limpezas não têm ordem de recolher. Marta, Celeste, Regina e Patrícia têm a declaração para entrar no Luxemburgo mas, "falta a máscara".

São ordens do governo. Nos próximos três meses só funciona o essencial. Em tempos de crise, Marta, Celeste, Regina e Patrícia continuam a sair à rua. Não recebem sequer o salário mínimo mas estão na primeira linha de defesa contra o coranavírus. O patrão não lhes deu máscaras mas "apressou-se" a enviar a declaração que as autoridades francesas exigem para sair de casa e as luxemburguesas para entrar no país. Nenhuma vai trabalhar de boa vontade. Têm medo e "consciência do perigo". Transfronteiriças, denunciam pressões e ameaças de despedimento, numa altura em que a OGBL lembra que, "mesmo em tempos de crise", os trabalhadores têm direitos.

"Não é justo"

Há menos trânsito, mas Regina continua a sair de casa às 5h30 da manhã para limpar "três a quatro casas" que lhe competem na escala diária. "Os clientes estão todos em casa em quarentena. Não sei se estão doentes, se não estão. Sei que estão em casa e que o meu trabalho é limpar superfícies que podem estar contaminadas. O vírus está em interruptores, em maçanetas. Eu limpo mas basta um descuido, não é?". Marta conta a mesma história, num horário diferente. Entra em cena quando as portas de um dos supermercados da capital se fecham. "Alguém tem de limpar". 

Nenhuma trabalha por conta própria. As empresas que as distribuem por casas particulares, empresas e serviços dizem-se de mãos atadas. "Estão a cumprir uma ordem do governo mas sou eu que dou o peito às balas", reclama Patrícia. "Quando uns saem de cena entramos nós, mas não é justo". A "não ser que os clientes cancelem", Celeste também "vai à batalha" porque "o patrão já avisou que está preocupado". À excepção dos hospitais, farmácias e supermercados, o país está praticamente fechado com os impactos da pandemia a alarmar as empresas. A OGBL assegura que está a "fazer pressão para não haver despedimentos nesta altura" e o primeiro-ministro Xavier Bettel já avisou que o que vigora "é o código de trabalho". Os patrões estão impedidos de obrigar os trabalhadores a tirar férias ou uma licença sem vencimento. Também não podem alterar nem renunciar os contratos, mas a incerteza bate à porta. 

Não há solução

“Muitas não estão a perceber o papel essencial que têm porque nunca receberam essa valorização”. Jessica Lopes lamenta que "tenhamos de chegar a um momento de crise para perceber o papel essencial" destas mulheres. Há uma semana que a dirigente sindical começou a receber e a lidar com as inúmeras denúncias que chegam ao gabinete, agora improvisado e em isolamento, da OGBL. Menos de um mês depois da conferência que denunciou a invisibilidade e as condições de trabalho precárias das milhares de empregadas da limpeza que trabalham no Luxemburgo, Jessica apela ao bom senso. "Compreendemos a apreensão, mas atravessamos um momento particular e abdicar da limpeza pode criar outra crise grave. Quem pode ir trabalhar deve ir trabalhar”.  

Quem não pode, recorre a um médico ou ao mecanismo que o governo criou para os pais dos menores de 12 anos, depois do encerramento de todos os estabelecimentos de ensino do país. Não podem nem devem apresentar-se ao trabalho "pessoas com sintomas" ou "que estejam dentro dos grupos de risco”. Para ficar em casa com os filhos, é preciso provar que não há mesmo outra alternativa. 

Atento a “qualquer violação de direitos” o sindicato lembra, no entanto, que "se o setor das limpezas deixar de trabalhar a situação pode descontrolar-se” nos hospitais. Já andou por lá e certificou-se que “em todo o lado” os trabalhadores têm luvas à disposição. Não há máscaras, os “serviços estão a funcionar no mínimo”, mas a “mínima segurança dos trabalhadores” está a ser respeitada.

"Não há máscaras"

Patrícia é sindicalizada e até percebe a "lógica". Com o marido em casa desde sexta-feira a trabalhar em regime de teletrabalho não tem margem para ficar com os três filhos. Não está doente e recusa-se a falsificar um atestado. Sem alternativa, vai continuar a trabalhar. O pouco que traz para casa "é sempre uma ajuda". A ameaça de despedimento ainda não lhe bateu à porta mas "há relatos" e "não vinha a calhar". 

Se não tivesse sido chamada a uma reunião de esclarecimento, Marta nem sabia que tinha direito a luvas. Trás o desinfetante de casa e vai "cumprindo as normas" que pode. As prateleiras vazias obrigam-na a "passar o pano mais vezes". Sustem a respiração quando dispara o produto em spray e tem feito o mesmo "nos tempos que correm". Não há máscaras, "só luvas". Regina e Celeste queixam-se do mesmo.