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Presidenciais: Há reformados no Luxemburgo que nunca votaram e quem já só acredite no Benfica
Luxemburgo 7 min. 14.01.2016 Do nosso arquivo online

Presidenciais: Há reformados no Luxemburgo que nunca votaram e quem já só acredite no Benfica

Enquanto o futebol suscita paixões, a campanha para as eleições presidenciais deixa os portugueses indiferentes

Presidenciais: Há reformados no Luxemburgo que nunca votaram e quem já só acredite no Benfica

Enquanto o futebol suscita paixões, a campanha para as eleições presidenciais deixa os portugueses indiferentes
Foto: Marc Wilwert
Luxemburgo 7 min. 14.01.2016 Do nosso arquivo online

Presidenciais: Há reformados no Luxemburgo que nunca votaram e quem já só acredite no Benfica

As eleições presidenciais disputam-se a 24 de Janeiro, mas 97,3 por cento dos portugueses que vivem no Luxemburgo não vão a jogo. Não estão inscritos para votar e os candidatos deixam-nos indiferentes. Há quem tenha vivido a vida inteira sem participar em eleições. E há quem esteja tão desiludido com a política que já só acredita no Benfica.

É um café português, com certeza: três televisores ligados nos canais portugueses, cachecóis do Benfica e da selecção nacional, bacalhau com lugar vitalício na ementa. À hora do almoço, este snack-bar na capital luxemburguesa enche-se de portugueses, e a cozinheira não tem mãos a medir para despachar os pedidos dos clientes. É só depois de o café voltar a ficar vazio que Rosa larga os tachos e vem almoçar em frente a uma das televisões com os outros empregados, num ambiente de boa-disposição. Mas mal se lhe fala em política, torce o nariz.

"Eu não vou nessa do voto. Não votava em Portugal, também não vou votar aqui", diz a cozinheira de 55 anos, que vive há 17 no Luxemburgo. Mas sabe que este mês há eleições? "Onde, aqui ou em Portugal?".

O dono do café está mais informado, mas também nunca votou desde que chegou ao Luxemburgo, "vai fazer este mês 36 anos".

"Nunca fiz o recenseamento, e acredito pouco ou nada nos políticos. A gente vê que o nosso país está um caos, e tanto faz que vá para lá o Manuel como o António", defende Carlos Figueiredo.

Dos dez candidatos às eleições presidenciais, só conhece dois. "Eu chamo-lhe o Papagaio, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, e depois há aquela antiga ministra do PS, como é que ela se chama?". Maria de Belém. "Exacto. Eu quando ligava um bocadinho à política era simpatizante do PS, mas agora não acredito nada nos políticos. Um dos líderes do PS, o senhor Sócrates, foi vergonhosamente acusado de qualquer coisa, e eu disse cá para mim: 'Se calhar o melhor é ligares mais ao teu Benfica'".

Ao balcão, Juvenal Fajardo, com 45 anos, mais de metade passados no Luxemburgo, é mais um dos emigrantes que não estão inscritos para votar, mas mesmo assim espera "que ganhe a Maria de Belém".

"Não ligo à política. Só votei uma vez em Portugal, aqui nunca votei, mas se tivesse de votar, era na Maria de Belém. É uma pessoa que eu acho inteligente, uma pessoa culta, e depois é de um partido [PS] que eu admiro", explica.

Juvenal trabalha na construção, tem dois filhos com 20 e 14 anos, que nasceram no Luxemburgo, e o mais velho também não está inscrito para votar, nem em Portugal, nem no Grão-Ducado. "Ele sabe lá o que é a política, nem sabia em quem votar...". Mas apesar de ter deixado o país há 22 anos e de não estar inscrito nos cadernos eleitorais – e não ter, por isso, voto nos destinos do país –, garante que continua a ter "Portugal no coração", e que não é por não votar que se sente menos português. "Isto é como a religião: somos católicos, mas não somos praticantes", compara Juvenal.

O emigrante português é vice-presidente do rancho folclórico Mocidade Portuguesa, onde toca cavaquinho e onde o filho mais velho também dança. A cultura popular portuguesa passa de pai para filho, tal como a desafiliação política? Nem Juvenal nem o filho estão inscritos para votar. "Porquê? Nunca calhou, ainda não dei esse passo. Mas devíamos votar todos, para mostrar que estamos vivos".

Não sabe bem o que o faria "dar o passo", mas acha que "há pouca informação para os emigrantes". "Acho que devia haver mais informação [sobre o recenseamento] e sobre a política também. Eu ainda sei quem são os candidatos, porque vejo muita televisão, mas os meus filhos nem isso vão saber".

Só 2,7% dos residentes portugueses no Luxemburgo com idade para votar estão inscritos nos cadernos eleitorais
Só 2,7% dos residentes portugueses no Luxemburgo com idade para votar estão inscritos nos cadernos eleitorais
Foto: Manuel Dias

UMA VIDA SEM VOTAR

Fausto tem 69 anos, trabalha desde os 13 e nunca votou na vida. "Nunca deitei o voto, deitar, deito-me à noite", brinca.

O emigrante português chegou ao Luxemburgo em 1970, quatro anos antes de a Revolução dos Cravos abrir as portas à democracia. Quando este ex-combatente na guerra colonial, que se gaba de ter conduzido Spínola ao aeroporto durante uma visita que o general fez à Guiné-Bissau, saiu do país, ainda não havia democracia, e chegou à reforma sem nunca ter "deitado o voto", porque não confia nos políticos. "Eles antes de irem para lá dizem uma coisa e depois de lá chegarem fazem outra", acusa.

Fausto não é caso único: à mesa estão cinco membros da direcção da Juventude Lusitana, uma das primeiras associações portuguesas no Luxemburgo, fundada em 1971. Nenhum dos cinco exerceu alguma vez o direito de voto.

Emília Espada tem 70 anos, é a sócia mais antiga e ainda jogou futebol na antiga equipa feminina do clube português. Votar é que nunca.

"Não, nem percebo nada disso!", protesta Emília, que deixou a escola primária na terceira classe para ir vender peixe nas ruas da Figueira da Foz. "Vejo lá o calceteiro, aquele que era o rei das anedotas, o Tino de Rans, e agora quer ir para Presidente?". A pergunta é retórica mas arranca muitas gargalhadas.

"Eu se pudesse votar, votava numa mulher, acho que Portugal precisa de uma mulher à frente do povo", defende Ana Paula Sousa, de 43 anos, a viver no Luxemburgo desde bebé.

À mesa inicia-se uma discussão sobre os méritos dos dez candidatos à Presidência da República, apesar de nenhum estar inscrito para votar.

"Eu estou mais pelo de lá do Porto, aquele que era da Câmara do Porto [Paulo de Morais]", diz Fausto, "o problema é a corrupção".

Já João Sousa, de 47 anos, há "mais de 30 no Luxemburgo", não conhece nenhum dos candidatos, nem sequer o mediático Marcelo Rebelo de Sousa. "Eu sou simpatizante do PSD, mas nem sei quem é o candidato deles".

A mulher de João volta à carga: "Eu votava numa mulher", insiste Ana. "Tens lá duas, a Marisa e a Maria de Belém", ajuda Fausto. "Eu até cheguei a conhecer a família da Maria de Belém, são do Porto", diz Fausto.

"Ai que desgraça, nascer no Porto!", brinca Emília, "olha tu que não falasses do Porto!". Fausto é do FCP, mas à mesa está em minoria. "Olha, hoje o meu Benfica ganhou 4-1! E o Jonas marcou três", gaba-se Emília, que viu o jogo sozinha em casa, "depois de levar os netos à escola". Foi por causa do nevoeiro, explica a reformada de 70 anos, que o jogo teve de ser adiado para segunda-feira, e o resultado deixou Emília radiante. E em Portugal, o que é que gostava que mudasse? "Que houvesse trabalho, para ninguém ter de emigrar". Fausto concorda.

De fora da conversa mantém-se Virgínia, reformada – um silêncio que só interrompe para se queixar da saúde em Portugal. "É uma vergonha, onde é que já se viu entrar nas urgências às 9h da manhã e sair de lá às 11h da noite?". "E deixam morrer as pessoas, como aconteceu agora há pouco tempo", corrobora João.

Mas sem estarem inscritos nos cadernos eleitorais, não têm voto na matéria, recordo-lhes – uma sugestão que é recebida com muito cepticismo. "Não ia mudar nada, o voto não muda nada – vá para lá um ou outro, não muda nada", defende Ana, que também não está recenseada para votar no Luxemburgo.

"Está mal feito", acusa Fausto, que não percebe por que razão o recenseamento não é automático para os portugueses no estrangeiro. "Por que é que uma pessoa não vai simplesmente ali ao Consulado votar? Temos a nossa 'carta' de identidade, era chegar lá e mostrar. Temos de nos inscrever porquê? Estando lá abaixo ou estando aqui, devíamos poder votar", insurge-se.

"Mas você não é português, é emigrante!", responde-lhe Ana Paula. "Tem o cartão de cidadão português, mas não é tratado como português, é tratado como emigrante".

Ana queixa-se de não ser considerada cidadã em lado nenhum. "Aqui sou emigrante, em Portugal também sou emigrante, que é uma palavra muito feia, mas é o que somos, emigrantes", queixa-se. "E por que é que eu vou votar num país que não me trata como cidadã mas me trata como emigrante?".

No Consulado de Portugal no Luxemburgo estão recenseados apenas 2.027 eleitores, segundo o cônsul Rui Monteiro. Uma gota no oceano, quando se sabe que há 99 mil portugueses a viver no Luxemburgo e que 74.797 têm mais de 18 anos, de acordo com o Registo da População. Contas feitas, no universo de potenciais eleitores no Luxemburgo, só estão inscritos 2,7% portugueses.

Paula Telo Alves

* Publicado no Contacto em 13.01.2016. Corrige percentagem de emigrantes que não estão recenseados de 98% para 97,3%.


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