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Praça Pública: OPINIÃO: Barroso, o pato manco europeu

Praça Pública: OPINIÃO: Barroso, o pato manco europeu

AFP
Luxemburgo 2 min. 22.10.2014

Praça Pública: OPINIÃO: Barroso, o pato manco europeu

Na rua da grande cidade, por Hugo Guedes - Quando um presidente está a chegar ao fim do seu mandato e é sabido que este não será renovado, o presidente é apelidado no mundo anglo-saxónico de "pato manco" ("lame duck").

O termo nasceu na Bolsa de Londres há mais de dois séculos para designar alguém que não era capaz de pagar as suas dívidas – tal como um pato que, por ser manco, não conseguia acompanhar o seu bando tornando-se assim numa presa fácil.

Barroso é o pato manco europeu (devido à iminente entrada ao serviço da Comissão Juncker: esta semana o Parlamento Europeu dará luz verde à reformulada equipa, que entrará em funções a 1 de Novembro). E por definição, um pato manco já tem pouco quem lhe preste atenção, logo o seu poder diminui à medida que a data de saída se vai aproximando. Mas nem tudo é mau: o estatuto de fim de festa também empresta ao visado o sentimento libertador de nem ter nada a perder nem consequências pessoais futuras a enfrentar. É nesta altura que muitos políticos ganham finalmente coragem para tomar decisões ou fazer afirmações impopulares.

Em 2002, ao ser empossado primeiro-ministro português, Barroso foi apelidado pela sua própria esposa de “cherne”. E durante a sua longa década aos comandos da Europa, Barroso ganhou em Bruxelas outro cognome oriundo do reino animal: o “camaleão”, devido à facilidade com que mudava de cor política para ir tentando agradar aos poderosos Estados-membros que lhe deram o emprego, nomeadamente Alemanha e Reino Unido. A mesma Alemanha que centrifuga a Europa. O mesmo Reino Unido que ostraciza a Europa, que se crê superior à Europa, e cujos políticos utilizam a Europa como bode expiatório e alvo de demagogia.

O ainda presidente da Comissão Europeia fartou-se. Segunda-feira, em Londres, o pato manco Barroso teve a subtileza do elefante na loja de porcelanas: avisou David Cameron que ele está a cometer “erros históricos”, e que a defesa da Europa se deve fazer agora, e não em desespero antes de um referendo; deixou claro que os planos de Londres para limitar o número de imigrantes no país – dirigidos sobretudo a polacos e romenos, mas também a portugueses ou espanhóis – são ilegais pelos tratados da União, e contrários aos princípios de um mercado livre que é afinal “o que os britânicos sempre quiseram”; finalmente, ameaçou que no caso de realmente sair da UE, o Reino Unido passaria a ter “uma influência igual a zero”.

Barroso vai sair, e quis fazê-lo com estrondo: o Reino Unido ficou em polvorosa com as declarações deste anglófilo de sempre. Infelizmente para a Europa, este estertor final de “lame duck” significa demasiado pouco. E pior: vem demasiado tarde.


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