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Portugueses no Luxemburgo. Quando votar não é prioridade
Luxemburgo 5 min. 02.10.2019 Do nosso arquivo online

Portugueses no Luxemburgo. Quando votar não é prioridade

Portugueses no Luxemburgo.

Portugueses no Luxemburgo. Quando votar não é prioridade

Portugueses no Luxemburgo.
Foto: Gerry Huberty
Luxemburgo 5 min. 02.10.2019 Do nosso arquivo online

Portugueses no Luxemburgo. Quando votar não é prioridade

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Não votam, nem se sentem representados. A Confederação da Comunidade Portuguesa fala no efeito “pescadinha de rabo na boca”. A manifesta falta de interesse dos portugueses vai além da barreira linguística, numa altura em que sai de cena Félix Brás, o português que chegou mais longe na política luxemburguesa.

Em Esch-sur-Alzette já não há aulas em português no currículo. Apesar da contestação, a decisão foi tomada há dois anos. Os 550 alunos que compunham os chamado ensino integrado são obrigados a ficar mais horas na escola se quiserem continuar a estudar o idioma que só na cidade do sul é língua oficial de mais de seis mil pessoas. Depois dos luxemburgueses, 55,49%, a comunidade portuguesa é a mais expressiva. Representa 23,73% dos residentes e ultrapassa em larga escala a italiana, francesa, belga e alemã. Nenhuma chega aos dois dígitos na percentagem.

O caso acentuou a discussão sobre a falta de representação dos portugueses na política do Grão-Ducado. Na altura, o deputado do PSD Carlos Gonçalves pôs o dedo na ferida quando apontou a falta de participação da comunidade como motor do desaparecimento do ensino da segunda língua mais falada em Esch.“Quem não vota não conta e os portugueses, se quiserem contar no Luxemburgo, têm de começar a votar”.

Trabalho dia e noite na restauração. Chego a casa exausta. Não me apetece pensar em nada, muitos menos na política e nos políticos”, diz Madalena Rocha.

A perspetiva não é muito diferente daquela que foi manifestada ao Contacto pela presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL). Elisabete Soares reconhece que as barreiras à participação política dos lusodescendentes “são mais que muitas” mas não disfarça o embaraço.“Os portugueses não percebem que as autarquias têm um papel determinante no dia-a-dia. São as câmaras que decidem se há ensino integrado ou complementar da língua, que compõem as turmas, que autorizam ou não que um restaurante ou um café tenham uma esplanada na rua”, começa.“Nesse sentido, os políticos locais têm uma espécie de desculpa para não se preocuparem”.

O raciocínio tem por base a baixa participação da comunidade lusa nas últimas autárquicas, de resto as únicas eleições em que as cerca de 170 nacionalidades que vivem no país podem exercer o direito de voto.

Ao todo, dos 47 mil portugueses que reuniam condições para votar, só 13 mil optaram por recensear-se para as comunais. Quer dizer que apenas um quinto depositou o voto na urna, entre os que vivem no Luxemburgo há pelo menos cinco anos.

Não é o caso de nenhum dos três portugueses entrevistados pelo Contacto. Joel, António e Madalena não só não votam como não querem votar.

"Não, não voto"

Há 14 anos no Grão-Ducado, Madalena Rocha, 44 anos, resiste antes de começar a falar. Não se sente representada na política nacional. Reconhece que não tem tempo para se informar melhor. “Trabalho dia e noite na restauração. Chego a casa exausta. Não me apetece pensar em nada, muitos menos na política e nos políticos”. Sabe que não há muitos portugueses eleitos mas não descarta responsabilidades. “Se calhar falta o nosso voto, incluindo o meu. Se calhar se nós votássemos eles teriam espaço para representar melhor os nossos interesses”.

António discorda em absoluto. Não votava em Portugal e segue a norma no Luxemburgo, onde mora há 30 anos. “Ninguém merece o meu voto porque ninguém faz nada que me interesse”, começa. “Aqui ainda parece pior que na nossa terra. Eles fazem as leis mas depois são aplicadas de forma diferente aos estrangeiros”, atira aos 53 anos sem dar exemplos concretos.

Proprietário do próprio negócio há 5 meses, Joel prefere culpar a comunicação social, as associações de apoio aos imigrantes e os partidos do espectro político luxemburguês. Diz que há falta de informação sobre o assunto que “por si só não é fácil”. Para o lojista de 26 anos, que chegou ao país ao colo dos pais com apenas dois, a maior barreira é o horário de trabalho. “Estou aqui entre 10 a 12 horas. Como sou patrão de mim mesmo ainda é pior porque estou focado nisto 24 sob 24 horas. O meu interesse está na loja, naquilo que vendo e posso vender e não tanto na política”.

Consciente destes e doutros argumentos, Sérgio Ferreira da Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) destaca a questão línguística como “a maior barreira para o engajamento político”. Fala na “incipiente cultura e educação cívica e política” do país de origem e acredita que os anos de chumbo da intervenção da troika em Portugal, entre 2011 e 2015, também tiveram impacto na percepção dos portugueses que vivem no centro da Europa.

Quem não vota não conta e os portugueses, se quiserem contar no Luxemburgo, têm de começar a votar”, defende o deputado do PSD Carlos Gonçalves.

Efeito pescada

O resultado esmagador do “não” no referendo de 2015 que decidiu afastar por 80% a hipótese de conceder aos estrangeiros o direito de participar nas eleições para o Parlamento luxemburguês também entram nas contas da ASTI e da CCPL quando o assunto é a falta de interesse e representatividade da comunidade. “O resultado foi vivivo por boa parte dos estrangeiros como uma rejeição. Somos bons para trabalhar mas não para co-decidir” foi o sentimento que imperou. Ora, se nos sentimos rejeitados por alguém, dificilmente voltamos a aproximar-nos”, sintetiza. “Por outro lado, de facto, quer os números do recenseamento dos estrangeiros a nível comunal, quer a voz da rua deixa muitas vezes transparecer a ideia de que “não estamos no nosso país eles que decidam”.

Elisabete Soares corrobora. No terreno percebe que, da esquerda à direita, persiste medo e desconfiança em relação ao poder das comunidades estrangeiras nos destinos do país, reconhece no entanto que a mínima participação dos compatriotas “reconforta” quem ocupa os cargos de poder. “Então vocês pedem um voto nacional e quando têm hipótese de escolher os vossos representantes não aproveitam?”, simula o discurso a que associa o efeito “pescadinha de rabo na boca”.

Quantos somos?

Nas estatísticas oficias do Statec, os portugueses representam 16,4% da população do grão-ducado, embora os registos do consulado apontem para 19%. Depende de quem conta. Para os primeiros a comunidade não ultrapassa os 96.800, para os segundos chega aos 113 mil. A discrepância que salta à vista nos últimos Relatório da Emigração só se explica pelo método de contabilização do instituto de estatística luxemburguês. Quem tem dupla nacionalidade não entra para as contas da comunidade portuguesa. Desde 2000, os pedidos ultrapassaram os 900%. Os portugueses representaram, em 2017, perto de 15% dos estrangeiros que adquiram a nacionalidade luxemburguesa.

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