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Portugueses no Luxemburgo fazem fila para levantar dinheiro da Caixa
Luxemburgo 6 min. 27.07.2018 Do nosso arquivo online

Portugueses no Luxemburgo fazem fila para levantar dinheiro da Caixa

Portugueses no Luxemburgo fazem fila para levantar dinheiro da Caixa

Foto: Pierre Matgé / Contacto
Luxemburgo 6 min. 27.07.2018 Do nosso arquivo online

Portugueses no Luxemburgo fazem fila para levantar dinheiro da Caixa

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
É o movimento mais pedido esta manhã ao balcão da Caixa Geral de Depósitos da cidade do Luxemburgo, após a notícia de que o banco vai cessar atividade no país: transferir as poupanças para outro lado. Mas também há quem não tenha conta noutro banco e já não tenha tempo para a abrir antes das férias.

A notícia caiu ontem à tarde, denunciada pelos sindicatos que estão a negociar a compensação dos 23 trabalhadores afetados pelo encerramento, e apanhou todos os clientes de surpresa. “Estive ontem a fazer uma transferência para pagar umas obras lá em baixo e não me disseram nada”, lamenta Júlia, que só soube quando o filho lhe ligou. “Ele disse-me: 'Vi aqui na internet que vai fechar'. 'Não é verdade!'”, respondeu a imigrante, de 65 anos, a viver há 48 no Luxemburgo. “Estive lá agora e ninguém me disse nada!”.

Esta manhã, Júlia não perdeu tempo. “Vim resolver a situação. Tenho de tirar o dinheiro todo de uma vez, porque vão fechar e não me deram solução, e eu tenho um homem doente”, queixa-se. “O meu marido está a fazer quimioterapia e recebe a reforma nesta conta. É preciso que ele assine uns papéis para mudar [a transferência permanente da pensão], e depois tenho de reconhecer o papel no notário”, explica a imigrante, com a preocupação estampada no rosto.

Ao balcão da CGD na avenida da Liberdade, na capital luxemburguesa, duas funcionárias repetem as mesmas respostas às mesmas perguntas: “A mensagem que nos foi dada para transmitirmos aos clientes é que podem estar descansados. Quando houver uma data para fechar os clientes serão avisados”, ouve-se várias vezes.  Mas os portugueses que têm conta no banco português estão longe de estar descansados.

Arlindo Gonçalves tem a senha n° 46, e enquanto espera para ser atendido, bombardeia a jornalista com perguntas. “É verdade que vai fechar?”. “Mas em Esch [a segunda agência da CGD no país] fica aberta, não?”. “Está previsto fechar quando?”.

A falta de informação foi uma das queixas que mais se ouviram esta manhã. Armando de Almeida tem 73 anos e ligou para o Contacto para saber mais informações, depois de um amigo o ter alertado para o fecho, esta manhã. “Tenho de retirar de lá o dinheiro, não vá eu ficar sem ele, como aconteceu com o BES”, diz. Armando chegou ao Luxemburgo em 1970, é reformado da construção, tem “filhos e netos” no país, e embora vá a Portugal "amiúde”, continua a viver no Grão-Ducado. Todo o dinheiro que tem está depositado na Caixa Geral de Depósitos. "Também tenho conta na Caixa em Portugal e não pago transferências daqui para lá, mas agora vou ter de tirar o dinheiro e mudar para outro banco”.

Ao balcão da CGD,  as funcionárias não sabem muito mais que os clientes. “Pode fechar daqui a um mês, dois meses, um ano, não sabemos”, repete uma funcionária. Ao lado, a colega diz a outro cliente: “Ponha-se no nosso lugar. Ficar sem trabalho de uma hora para a outra também não é fácil”.

Arlindo continua à espera de ser atendido, mas já sabe o que vai fazer ao dinheiro depositado na agência do Luxemburgo. “Vai todo para Portugal, e depois tenho de me desenrascar por lá”, diz o reformado, a viver no Grão-Ducado há 46 anos. A mulher tem outra opinião: “Então mas espera lá, é preciso abrir outra conta no Luxemburgo!”.

Tal como a maioria dos clientes, Arlindo soube do encerramento pelos jornais e redes sociais, depois de os sindicatos denunciarem o fecho em comunicado. “Vi no Facebook. Pensei logo em vir tirar o dinheiro todo daqui, foi logo o que pensei”. A mulher queixa-se: “Ele veio cá ontem ao meio-dia fazer uma transferência e não lhe disseram nada, soubemos pela internet”.

Notícia apanhou imigrantes em véspera de partir para férias

José é pintor da construção e hoje ainda tem uma viagem de quase dois mil quilómetros pela frente, “17 horas” ao volante até chegar a Portugal, “se tudo correr bem”. As férias coletivas da construção civil começaram esta sexta-feira e José é um dos milhares de portugueses que partem para Portugal nas próximas horas, de carro, autocarro ou de avião. Antes de arrancar, o imigrante, de 44 anos, veio à Caixa fazer uma transferência e tentar saber mais informações. “Perguntei agora, e por enquanto disseram-me para estar descansado. Disseram-me o que normalmente dizem, mas não se sabe”. Na dúvida, José optou por transferir quase todo o dinheiro que tinha no banco. “Também não tenho muito, e o que deixei também não é assim tanto para ficar preocupado. Mas quando voltar [de férias] vou resolver a situação, para ficar descansado”.

Alguns ainda não sabiam da notícia do encerramento. Alcindo veio levantar dinheiro para as férias em São Vicente, Cabo Verde, e entrou e saiu sem perceber que o banco vai fechar. É só cá fora, quando a jornalista do Contacto o aborda, que o imigrante cabo-verdiano fica a saber da notícia, denunciada ontem pelos sindicatos luxemburgueses. “O meu dinheiro está todo aqui”, diz Alcindo, que tem voo para Cabo Verde este domingo e não sabe como vai resolver a situação nas poucas horas que faltam até os bancos fecharem, esta sexta-feira. Para abrir uma conta no Luxemburgo é preciso apresentar um certificado de residência, que tem de ser pedido no Biergecenter [loja do cidadão], e uma cópia do contrato de trabalho. O imigrante cabo-verdiano trabalha na construção desde 2015, sempre com contratos temporários, e sabe que não vai ser fácil abrir conta noutro banco. “Agora, só depois das férias”. Mas já não vai partir descansado: “Tenho de ficar preocupado, com uma notícias destas”.

Maria pediu para falar com um dos diretores e saiu tranquila. “Estive a falar com o sub-diretor e ele disse-me que podemos estar descansados. Ainda não há prazo [para fechar] e quando chegar a altura vamos ser avisados”, conta. “A gente não pode entrar em pânico”.

Na agência da avenida da Liberdade, esta manhã, só as caras preocupadas traíam a situação. As cerca de duas dezenas de clientes que aguardavam na fila, quando o Contacto lá esteve, mantinham-se em silêncio e falavam em voz baixa com as funcionárias quando chegava a vez de serem atendidos. A calma deve-se em parte ao facto de as férias na construção começarem hoje: muitos já deixaram o país ontem à noite, explica um português ao Contacto. Caso contrário, a fila, garante, seria muito maior.

A maioria dos portugueses queria transferir o dinheiro para outros bancos, mas alguns não têm mais nenhuma conta. Uma cliente que pede para não ser identificada tem conta aberta na CGD há 21 anos, desde que o banco se instalou no Luxemburgo, e guarda ali as poupanças de uma vida de trabalho a tomar conta de uma idosa. Hoje, transferiu uma parte do dinheiro para Portugal e o resto para a conta de uma pessoa de confiança, até conseguir abrir conta noutro banco. Depois de preencher e assinar as duas ordens de transferência, agradece à funcionária. “Boa sorte”, deseja.

Paula Telo Alves


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