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Portugueses estão a passar fome no Luxemburgo
Luxemburgo 12 min. 21.10.2020

Portugueses estão a passar fome no Luxemburgo

Portugueses estão a passar fome no Luxemburgo

Foto: Lusa
Luxemburgo 12 min. 21.10.2020

Portugueses estão a passar fome no Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A pandemia trouxe o desemprego e o desespero de não ter dinheiro para alimentar os filhos. Nunca houve tantos casos, entre eles famílias que sempre “viveram decentemente” no país. O testemunho de quem teve de regressar a Portugal e o relato de quem está no terreno a ajudar estes imigrantes.

“Nunca vi tantos portugueses a passar fome e em situações tão difíceis aqui no Luxemburgo como nos últimos meses, devido pandemia”, garante José Trindade, o fundador e presidente do Centro de Apoio Social e Associativo (C.A.S.A.) do Luxemburgo que emigrou para o país em 1970.

O alerta sobre a “nova pobreza” que está a crescer entre os imigrantes é também dado por Marco Hoffmann, da Caritas Luxemburgo, realçando que cerca de 20% dos pedidos de ajuda para a linha Corona Helpline foram feitos por portugueses. Também Sérgio Ferreira, porta-voz da ASTI, fala sobre os casos de “tragédia humana” que estão a aumentar. Entre eles, os de imigrantes que continuam a chegar ao Luxemburgo, “sem contrato, sem nada acreditando que aqui têm mais chances de encontrar trabalho e ter a vida decente que perderam no seu país”. Por vezes ficam em situação ainda pior. Atirados pela pandemia para situações dramáticas de subsistência há portugueses que não têm alternativa senão regressar a Portugal, um número que está a aumentar (Ver caixa).

Sete meses depois da chegada da epidemia ao Luxemburgo, ainda há dias em que se formam filas de pessoas à porta do C.A.S.A. para pedir auxílio na alimentação ou nos processos necessários para os apoios oficiais.

Imigrantes e famílias com crianças, que perderam os seus empregos com a crise da covid-19 e cujo orçamento é agora insuficiente para pagar a renda da casa e garantir comida na mesa. Durante o confinamento, o C.A.S.A. distribuiu cheques alimentares graças a convénios com supermercados para que “devidamente assinalados e identificados” estes portugueses pudessem ir aos estabelecimentos abastecer-se de bens de primeira necessidade. “Há casos de pessoas que vivem isoladas, idosas ou com problemas de saúde que vamos nós a casa entregar os cabazes“, conta José Trindade que fundou este centro há 40 anos mas nunca viu “tanta gente em dificuldade na comunidade”.

“Nós ajudamos com todas as nossas possibilidades. Ao todo entregámos 300 cheques alimentares durante o confinamento e atualmente acompanhamos 91 portugueses em sérias dificuldades”, relata José Trindade. “Temos famílias com crianças pequenas, jovens e até pessoas na casa dos 50 anos que sobreviviam com trabalhos precários que agora perderam e ficaram sem conseguir subsistir neste país que tem um nível de vida muito elevado”, alerta o comendador.

Além das ajudas alimentares este centro português desenvolve um apoio muito importante no encaminhamento dos casos para os serviços oficiais específicos e seguindo os processos, desde a ajuda no preenchimento dos documentos, ao acompanhamento dos portugueses a estas instituições, como a ADEM, de modo a que estes possam ter os apoios sociais devidos.

Nos serviços sociais do C.A.S.A os telefones não param de tocar, do outro lado da linha chegam pedidos de informações, “muitos relativos à obtenção do subsídio de desemprego, e na procura de um novo trabalho para conseguir pagar as contas e viver dignamente”, conta Alice Santos, enquanto o toque de chamada telefónica ecoa sem parar. É esta portuguesa que coordena todos os processos dos serviços sociais, atendendo os imigrantes “em situação desesperada e que não dominam o francês nem sabem onde se dirigir para obter apoios”. “Nunca vi tantas situações dramáticas na comunidade como as que nos têm chegado devido à covid-19”, assume Alice Santos e dá como exemplo, os serviços sociais da cidade do Luxemburgo que “antes tinham apenas três funcionárias e agora têm mais de 20 para tentar responder a todas as solicitações de gente necessitada”.

Outra das provas está nas suas estatísticas que rapidamente apresenta: “Os processos de pedido de ajuda este ano, depois da pandemia, aumentaram cerca de 60% em relação a idêntico período no ano passado”.

Os casos mais complicados de quem se senta na cadeira à sua frente são “a perda de emprego, os trabalhos com contratos semanais que provocam muita insegurança, as famílias que perderam o abono de família devido aos trabalhos precários ou a cobertura de saúde porque ficaram desempregados, entre outros”, diz Alice Santos salientando que “é uma pescadinha de rabo na boca sem fim”.

Um drama que afeta principalmente os “imigrantes sem grandes estudos, que estão cá há pouco tempo com trabalhos precários e ficaram no desemprego, mas não dominam a língua francesa e desconhecem os apoios a que têm direito e como podem se candidatar”, conta esta funcionária do C.A.S.A., referindo o elevado custo de vida do país, sobretudo a habitação que leva “mais de 50% do rendimento de muitas famílias”.

“A renda de um quarto alugado aqui é muito cara. Chegou-nos um caso de uma família com dois filhos que está a viver em dois quartos e paga 1700 euros de renda por mês, como é possível! Perdendo o emprego torna-se impossível conseguir sobreviver aqui, e isto está a acontecer a muitas famílias”, frisa Alice Santos num tom de grande preocupação. Entre os portugueses há muitas pessoas nascidas em Cabo Verde ou Angola mas que cresceram em Portugal e nos últimos anos emigraram para o Luxemburgo, diz.


Regressar a Portugal para não passar fome
Sem emprego, dinheiro, nem perspetivas de novo trabalho para conseguir "viver decentemente no Luxemburgo" há quem não "encontre outra alternativa senão voltar para a terra natal", conta Alice Santos, dos serviços sociais do C.A.S.A..

Imigrantes de longa duração

A crise económica da pandemia está também a afetar imigrantes de longa duração, que nunca tinham estado neste aperto financeiro, realça José Trindade. “Chegam-nos aqui famílias que sempre levaram uma vida digna tinham os seus empregos e mesmo com baixos rendimentos, conseguiam pagar a renda da casa, a alimentação e as suas contas. Agora a pandemia levou-lhes os trabalhos e já não conseguem viver dignamente e isso impressiona de modo muito triste e preocupante”, desabafa este dirigente associativo.

Ao seu lado, Alice Santos explica que estes imigrantes, apesar de estarem cá há anos sempre trabalharam com outros portugueses na construção civil ou restauração ou mesmo nas limpezas, por isso “nunca sentiram necessidade de aprender bem o francês. Falam o básico e, por isso, pedem-nos apoio para preencher os documentos e irmos com eles expor a situação junto das entidades oficiais”.

“Como podem estes portugueses sobreviver? Nós fazemos tudo o que está ao nosso alcance para apoiar o maior número de pessoas, mas quem anda pelos bairros na cidade do Luxemburgo e conhece a comunidade sabe bem que a situação é muito preocupante”, diz José Trindade salientando que o drama que se vive não afeta só portugueses mas também outras comunidades e mesmo luxemburgueses.

A “nova pobreza”

A realidade da “nova pobreza” no país é comprovada pela Caritas Luxemburgo que recentemente divulgou os números do apoio que deu durante o confinamento através da sua linha de apoio Corona Helpline, ativa entre 7 de abril e 31 de agosto.

“Mais de metade, 67% das pessoas que recorreram à Corona Helpline tinham antes uma vida decente no País, mas encontram-se agora numa situação financeira muito complicada, com a pandemia. Até agora, estas pessoas e famílias nunca recorreram às ajudas sociais, ou pelo menos, não tiveram necessidade de o fazer no último ano antes da crise da covid-19 chegar”, alerta Marco Hoffmann um dos coordenadores da Helpline e responsável pelo Serviço de Trabalho Social Comunitário da Caritas Luxemburgo. Entre estes “novos pobres” encontram-se portugueses como comprova os números do balanço da iniciativa Corona Helpline divulgado recentemente.

Do total de 445 pedidos de apoio que chegaram do outro lado do telefone a esta entidade, 19,4% foram feitos por imigrantes de nacionalidade portuguesa, como refere o relatório do balanço desta ação. A seguir aos luxemburgueses (37,04%), os portugueses foram a nacionalidade mais apoiada. No total, a Caritas auxiliou 806 pessoas, das quais 308 crianças dando ajudas financeiras pontuais, recurso à mercearia social, informação ou orientando-as para outros organizações.


Portugueses possuem o maior risco de cair na pobreza
Do total de residentes do Luxemburgo em perigo de viver abaixo do limiar da pobreza, 30% são portugueses.

“Temos que olhar para a dimensão da comunidade portuguesa no Luxemburgo, é a mais representada entre os imigrantes, mas mesmo assim, quase 20% do total dos pedidos tratados pela Corona Helpline é relevante sim”, confirma Marco Hoffmann. Entre os imigrantes oriundos de países fora da União Europeia os brasileiros foram os mais representados (7,4%) entre os que recorreram a esta linha de apoio.

“Atualmente, há pessoas em situações muito complicadas e a passar fome em consequência da covid-19”, realça este responsável salientando, em particular, o caso das famílias monoparentais.

Os mais afetados

De acordo com a análise dos dados da Helpline, “39% dos candidatos com filhos eram pais solteiros”. “Quando os agregados familiares são formados por um casal, geralmente é mais fácil conseguir sobreviver, agora quando o orçamento da casa depende apenas de uma pessoa e que tem a seu cargo os filhos, tudo é mais difícil caso ela fique sem emprego”, vinca o coordenador da Corona Helpline que a partir de 31 de agosto foi desativada.

A análise dos pedidos de apoio à Helpline revelou ainda que aqueles que ficaram em pior situação, sem sustento, são jovens “26,6% tinham menos de 30 anos de idade e 32% entre os 31 e 40 anos de idade”. Dos que indicaram o seu emprego, “19,2% trabalhavam no sector da restauração, 13,8% como freelancers e 9% no sector da limpeza”.

No site da Caritas Luxemburgo são vários os testemunhos de agradecimento a esta instituição pelo apoio dado através da Corona Helpline. “Gostaria de vos agradecer de todo o coração pela ajuda que me deram, pelo tempo dedicado a ouvir-me, a aconselhar e orientar-me. Perdi o meu emprego no ramo da restauração devido à crise do coronavírus. (…) Obrigado por todos os conselhos e contactos que me deram para que eu pudesse candidatar-me ao subsídio de desemprego e a um novo emprego. Obrigado também pelo apoio financeiro que me deram para que os meus filhos e eu possamos sobreviver enquanto esperamos pelo subsídio de desemprego”, agradece uma mãe de família com três filhos.

Outra mãe que sustenta sozinha três filhos, declara que sem o auxílio desta linha de apoio, as suas crianças teriam passado fome: “Obrigado por me darem acesso à mercearia social. Desde o confinamento, os meus rendimentos estão no mínimo, e estou a ter dificuldades em alimentar devidamente os meus filhos. Obrigada à Linha de Apoio”.

Sem dinheiro para alimentação

Dos 445 apelos apoiados pela Caritas, a maioria tratou-se de apoios financeiros diretos a quem não tinha como se sustentar durante o confinamento. “Dos 398 apoios financeiros direitos, 23,87% destinaram-se a alimentação, 30,4% a despesas quotidianas, 27,14% a rendas de casa, 12,81% a faturas diversas (eletricidade, internet, etc) e 5,78% a despesas de saúde”, enumera o relatório da Corona Helpline. 

No total, a Caritas Luxemburgo distribuiu 267.348,53 euros em ajudas pontuais na iniciativa Helpline, um apoio possível graças à “ajuda de numerosos dadores”. “Em 93,3% dos casos, a principal preocupação foi não conseguir satisfazer as necessidades básicas, relacionadas com os custos de vida e de habitação”, acrescenta este documento. “O choque económico resultante da crise de saúde não é ‘socialmente neutro’ afetando desproporcionadamente e duramente as famílias mais pobres”, alerta.

“Muita gente perdeu os seus empregos e a fome e a pobreza aumentaram no Luxemburgo. Nunca antes tantas pessoas estiveram com problemas de sobrevivência e a situação atual não está melhor, com o número de infeções da covid-19 a aumentar. Infelizmente, penso que empresas vão ainda ter de fechar e que esta crise se estenderá aos próximos anos”, perspetiva Marco Hoffmann.

A mesma perspetiva sobre um futuro negro é feita por Sérgio Ferreira, porta voz da Associação de Apoio ao Trabalhadores Imigrantes (ASTI) que apoia quem está em situação irregular no País e a passar dificuldades, entre eles portugueses. “Há casos de verdadeiras tragédias humanas”.

“A crise da covid-19 veio agravar e expor as desigualdades que já existiam neste país atingido particularmente os portugueses que se encontravam já fragilizados social e economicamente. Perante a evolução atual da covid-19 acho que a situação vai continuar a agravar-se até ao final do ano”, declara Sérgio Ferreira. Desde 6 de outubro que esta associação reativou a doação de vouchers alimentares para abastecimento nas mercearias sociais. “No espaço de duas semanas, a ASTI distribuiu um valor 20% superior ao que doou nas duas semanas de abril” frisa este dirigente associativo salientando que a afluência à associação de quem procura ajuda está a aumentar.


"Aconselho os imigrantes em situação frágil, sem emprego e a viver de ajudas a ponderar regressar para Portugal"
António Gamito, Embaixador de Portugal no Luxemburgo apela a portugueses que contactem a Embaixada para que possam ser apoiados no repatriamento para Portugal.

A multiculturalidade dominante no país reflete-se na composição dos agregados familiares existindo “muitas famílias mistas de portugueses com brasileiros, ou nacionais de Cabo-Verde e outras nacionalidades, em que um deles está em situação irregular” e neste momento atravessam sérias dificuldades, sobretudo porque as famílias já tinham uma posição frágil para fazer face às despesas mensais.

No entanto, Sérgio Ferreira avança que o governo está a escutar as associações e ONG sobre a realidade dos imigrantes “o que nos dá um certo conforto”. “O imperativo social e humanitário não está de todo abandonado, o que é positivo”, reflete.

Apesar do atual contexto há ainda quem emigre para o Luxemburgo, perseguindo uma “ideia errada de que embora isto esteja difícil está menos difícil do que nos países onde vivem e aqui têm mais hipóteses de subsistir”. Sérgio Ferreira fala de casos portugueses, mas também de imigrantes oriundos de países fora da EU, imigrados noutros países europeus, onde já não conseguem viver devido à crise. “Chegam ao Luxemburgo e também aqui não encontram forma de sobreviver tendo que pedir ajuda”. Por vezes, estas pessoas ficam em situação ainda mais trágica devido ao nível de vida tão elevado do País. 

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