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Portuguesa de 20 anos morreu atropelada na passadeira no Luxemburgo. Pais querem mudar a lei

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Portuguesa de 20 anos morreu atropelada na passadeira no Luxemburgo. Pais querem mudar a lei

Portuguesa de 20 anos morreu atropelada na passadeira no Luxemburgo. Pais querem mudar a lei
O legado de Kika

Portuguesa de 20 anos morreu atropelada na passadeira no Luxemburgo. Pais querem mudar a lei


por Tiago RODRIGUES/ 22.06.2022

Os pais de Kika, Vânia e Frederico, querem mudar a lei e alertar para a falta de segurança nas passadeiras no Luxemburgo.Foto: Oli Kerschen

Frederica foi atropelada numa passadeira em Grevenmacher no dia 18 de janeiro de 2021. Morreu no hospital cinco dias depois, com 20 anos. O caso ainda está em tribunal. O condutor é acusado de homicídio involuntário. O Ministério Público pediu seis meses de prisão. Os pais de Kika dizem que a lei aplicada nestes casos é antiga e pedem mudanças. Para que outros jovens não tenham medo de pisar uma passagem onde é suposto que se sintam seguros.

*Com Sandro dos Santos

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Tragédia
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Segunda-feira. 18 de janeiro de 2021. Passa pouco das 19 horas. Já está escuro lá fora. A noite é fria, de inverno, mas seca. Frederica diz aos pais que vai passear o cão. A família jantou mais cedo nesse dia. Ela está contente. Fez uma entrevista com os avós no fim de semana, para um projeto do liceu sobre migrações. Está entusiasmada para contar à mãe e ao pai. "Eu já venho. A gente já fala".

Ela sai primeiro, com o cão mais pequeno. O irmão Nicolau vai logo a seguir, com os outros dois. É um passeio habitual ali na Route du Vin, uma das principais ruas de Grevenmacher, junto ao rio Moselle, que separa o Luxemburgo da Alemanha. Kika dá a volta para regressar a casa. Aproxima-se da passadeira para atravessar a estrada. No momento em que pisa aquelas faixas brancas, um carro vem na sua direção em excesso de velocidade. O impacto é violento.

O alerta é dado às 19h20. Na rua ouvem-se as sirenes das ambulâncias. Os pais de Kika também as ouvem. Perguntam-se sobre o que se terá passado. O Nicolau chega a casa. Não é normal, deveria ser a Kika a chegar primeiro, pensam os pais. O irmão diz que se passa alguma coisa lá fora, há muita confusão. Ele atravessou outra passadeira, mas viu o aparato na rua. Pensou que era um acidente com um autocarro. Os pais olham um para o outro e dizem: "Falta a Kika".

Frederico, o pai, liga para a filha. Está a chamar, mas não há resposta do outro lado. Ele diz ao Nico para ir depressa lá abaixo para ver o que se passa. A primeira coisa que pensaram foi que o cão tentou fugir e foi atropelado. Nunca pensaram o pior. Frederico liga para o filho. Desta vez a chamada é atendida. Do outro lado, a pior notícia: "Pai, é a Kika". Ele chama a Vânia, a mãe, e saem os dois a correr.

Quando chegam ao local do acidente, a poucos metros ali de casa, Kika já está dentro da ambulância, em coma. O socorro é rápido. A polícia não os deixa aproximar. Diz-lhes que ela vai para o Centro Hospitalar do Luxemburgo, em Strassen, a cerca de 30 quilómetros. Frederico corre de volta a casa para ir buscar as chaves do carro. Conduzem até ao hospital. Perguntam pela filha, respondem que estão a fazer-lhe uma radiografia. Um médico das urgências vem ter com eles. Encosta-se à parede e diz: "É grave, mas o quadro clínico não é o que estávamos à espera quando ela chegou. Ela é jovem, ainda pode recuperar".

A esperança vai combatendo a dor e o medo. Frederico e Vânia passam a noite no hospital à espera de mais notícias. Na madrugada de quarta-feira, à uma da manhã, dois cirurgiões falam com eles e admitem que a situação é gravíssima. Kika tem vários ferimentos, uma lesão no pulmão, fratura na bacia. Está a lutar para sobreviver. Aos pais só lhes resta esperar. Pedir a Deus que não lhes leve a filha. Kika lutou durante cinco dias. No sábado, dia 23 de janeiro de 2021, deu o último suspiro. Tinha apenas 20 anos.


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Acusação
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Junho de 2022. Já passou um ano e cinco meses. Recordar aqueles dias ainda é muito doloroso para Frederico e Vânia. São pais jovens. Ele tem 46 anos e ela 41. Além de Kika, têm mais três filhos. O Nicolau, com 19, o Gustavo, com 13, e o Gabriel, com 11. Continuam a viver os cinco num apartamento em Grevenmacher. Não o mesmo onde antes viviam seis, porque as recordações que lá ficaram eram como feridas abertas. Feridas que nunca sararam.

Da varanda eles veem todos os dias a passadeira onde Kika foi atropelada. Uma imagem que dói, mas também os reconforta. Fá-los sentir mais próximos dela. Dentro de casa há várias fotografias da filha, quase todas a preto e branco. É um santuário. Um memorial como aquele que eles deixaram no local do acidente, junto à passadeira que fica por baixo da ponte que liga o Luxemburgo à Alemanha, com flores e velas.

Foto: Oli Kerschen

O caso ainda está em tribunal. No passado dia 14, decorreu a primeira audiência. O condutor que atropelou Kika, um jovem lusodescendente de 21 anos, é acusado de homicídio involuntário. Segundo o artigo 418 do Código Penal do Luxemburgo, "é culpado de homicídio ou lesões involuntárias quem que causou o mal por falta de previsão ou precaução, mas sem intenção de atacar a outra pessoa". A pena para estes casos, em que há a morte de uma pessoa, é de três meses a dois anos de prisão e multa de 500 a 10 mil euros.

O Ministério Público pediu seis meses de prisão efetiva, 30 meses sem carta de condução e uma multa de 3.000 euros. Uma pena que os pais de Kika consideram "absurda". "É um miúdo de 21 anos. Não lhe desejo mal, mas ele vai ser um exemplo para outros. Seis meses passam depressa, é o que os miúdos vão pensar. E não há atenção na estrada", criticou Vânia, afirmando que a lei aplicada nestes casos é antiga. "Na altura os carros andavam a 30 km/h. Não havia tanto trânsito, nem tanta gente. Há que mudar e evoluir nas leis. Ensinamos os nossos filhos em casa e na escola que nunca se deve atravessar no meio da estrada, mas sim na passadeira. Uma criança deve sentir segurança. O que é que lhes vamos dizer? Que não estão seguras?".

É um miúdo de 21 anos. Não lhe desejo mal, mas ele vai ser um exemplo para outros. Seis meses passam depressa, é o que os miúdos vão pensar. E não há atenção na estrada.

A falta de segurança dos peões no Luxemburgo tem sido um problema nos últimos anos. Em 2021, entre 242 acidentes rodoviários considerados graves, 30 foram atropelamentos. Cinco pessoas morreram nesses acidentes, num total de 24 vítimas na estrada. Kika foi uma delas. Segundo o mais recente relatório do Ministério da Mobilidade, divulgado no início deste mês, a média de atropelamentos graves nos últimos nove anos é de 38, enquanto a média de vítimas mortais é de quatro por ano. Depois da velocidade e do álcool, os atropelamentos foram a principal causa de acidentes no ano passado.

Não há dados oficiais sobre quantos desses atropelamentos foram numa passadeira. No entanto, as notícias mostram que tem sido algo recorrente no país. Em dezembro do ano passado, um homem e um rapaz de seis anos foram atropelados numa passadeira na capital. Ficaram com ferimentos ligeiros. Em outubro, uma mulher de 91 anos morreu atropelada por um camião em Mondercange. No mesmo mês, um homem foi atropelado em Ettelbruck e o condutor fugiu.

Em janeiro de 2019, um condutor ignorou um semáforo vermelho e atropelou duas pessoas na capital, uma das quais ficou em estado grave. Também fugiu. Uns dias depois, uma mulher foi atropelada numa passadeira em Reisdorf e ficou em estado crítico. Em 2017, outra mulher morreu atropelada na capital.

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Motivo
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Na maior parte destes casos, os condutores estavam sob o efeito de álcool ou drogas. Não era esse o caso do jovem que atropelou Kika. De acordo com os resultados das peritagens do acidente, ele não tinha consumido álcool nem drogas. Nem tinha antecedentes criminais. O telemóvel também foi revistado e não havia sinais de ter sido manuseado no momento do impacto. Não havia mensagens ou chamadas. A única utilização foi cerca de meia hora antes e depois do acidente. A real causa do atropelamento de Kika continua a ser um mistério.

O que se sabe para já é que o carro seguia em excesso de velocidade. Segundo a investigação, ia entre os 65 e os 70 km/h, numa estrada em que o limite é 50. Kika foi atropelada com violência. "Ela voou completamente por cima do carro. Foi projetada 12 metros e ainda bateu num dos postes laterais do lado em que estava a atravessar", contou a mãe, apontando que não havia sinais de travagem, nem antes nem depois da colisão. "Não há nenhuma travagem brusca. Segundo as testemunhas, ele continuou, não com o mesmo aceleramento, e parou mais à frente, porque o miúdo que ia ao lado abriu a porta para ir ver. Senão, não sei se teria parado".

Foto: Oli Kerschen

Havia duas testemunhas no local. Uma seguia no mesmo passeio, cerca de 10 metros atrás de Kika, e outra estava no outro lado. Dizem que o carro, um Volkswagen Polo, saiu de um parque de estacionamento a cerca de 100 metros da passadeira. "Viram o condutor a arrancar e a Kika a olhar para a esquerda e para a direita antes de entrar na passadeira. Durante todo o período até ao impacto, o carro está sempre em aceleração. Só depois é que deixa de acelerar e começa a travar progressivamente. Só pára a cerca de 40 metros depois da passadeira", descreveu o pai.

Mesmo em tribunal, depois da apresentação dos resultados das peritagens e da intervenção das testemunhas, não ficou claro o motivo do acidente. "Não há uma justificação nem uma explicação para o que se passou. Os especialistas não sabem dizer. Nem o próprio advogado do condutor tem uma explicação. A procuradora disse no final da audiência que mesmo com todas as peritagens que foram feitas e mesmo com os testemunhos não há uma resposta sobre como é que aconteceu o acidente”, lamentou Frederico. "O rapaz que ia ao lado disse que não viu porque ia a mandar uma mensagem. Mas também disse que viu que o condutor estava a olhar para o conta-quilómetros".

Não há uma justificação nem uma explicação para o que se passou. Os especialistas não sabem dizer. Nem o próprio advogado do condutor tem uma explicação.

Um dos peritos defende que o condutor poderia ter desviado o carro para evitar a colisão. "Não havia nada à volta que o impedisse de se desviar. Podia ter travado", argumentou Vânia. "Quando ele arrancou, a minha filha já estava na passadeira. Há uma testemunha que diz que ela se apercebeu e tentou fugir". Isso poderia explicar por que é que Kika tinha ferimentos no lado esquerdo do corpo quando o carro a deveria ter atingido no lado oposto. "As lesões de Kika deveriam ter sido do lado direito, mas não. Tinha lesões no lado direito da cara, mas também no lado esquerdo da cabeça e da anca", notou o pai.

Quanto ao número de pessoas que estavam no interior da viatura na altura do acidente também há "contradições". Pelo menos duas pessoas estavam no carro: o condutor e um amigo no lugar do pendura. "Depois há testemunhas que dizem que eram quatro", afirmou Frederico. "O condutor diz que só ia ele e o rapaz ao lado. Há testemunhas que dizem que viram duas miúdas a sair do carro. Outra testemunha diz que eram mais três pessoas", acrescentou Vânia, frustrada por não ter uma explicação. "Ele não sabe dizer o que se passou. É isso que nos revolta".

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Mágoa
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O condutor nunca pediu desculpa aos pais de Kika. "Ele apenas disse em tribunal que dava as suas condolências à família, porque o advogado se levanta para ele dizer isso. Falou virado para o juiz, não para nós", recordou a mãe. Apesar de terem praticamente a mesma idade, o condutor e Kika não se conheciam. "Nós já pensamos que ele poderia querer assustá-la. Segundo a peritagem, ele ia mais em contramão do que na faixa dele". Desde o acidente, os pais só o viram uma vez, durante a primeira audiência.

O jovem está em liberdade. Deveria ter ficado sem a carta de condução até à data do julgamento, mas o Ministério Público não chegou a emitir a ordem de proibição. "O Parquet diz que se esqueceu de lhe tirar a carta, o que quer dizer que ele continua a conduzir. E vai continuar a conduzir até ao julgamento", disse Vânia. No dia do acidente, a polícia retirou-lhe a carta, mas depois devolveu-a. "Segundo o nosso advogado, o Parquet era obrigado a retirar-lhe a carta no dia em que a Kika faleceu, até haver uma decisão judicial", relembrou Frederico. O primeiro julgamento será no dia 30 deste mês.

Foto: Oli Kerschen

Para os pais de Kika, foi difícil aceitar a situação. "Fui obrigada a vê-lo a conduzir normalmente. Ele teve este tempo todo a conduzir por uma falha na justiça. Quando o carro veio depois de ser arranjado, o miúdo simplesmente andava por aí a conduzir. Não é justo", lamentou a mãe. Um sentimento de "mágoa" que se vai transformando em "raiva". "É isso que me motiva a fazer alguma coisa. Eu sei que se não fizer nada vão acontecer outros casos iguais. Que seja um exemplo para que outras pessoas não passem por isto. Pela minha filha, pelos meus filhos, por outros pais, quero que se mude qualquer coisa".

Fui obrigada a vê-lo a conduzir normalmente. Ele teve este tempo todo a conduzir por uma falha na justiça. Não é justo.

Algumas coisas já começaram a mudar. Nas semanas a seguir ao funeral de Kika, no dia 30 de janeiro, a Comuna de Grevenmacher fez obras na rua onde ocorreu o acidente. "A única coisa que fizeram foi colocar umas pequenas luzes no passeio. Mas nas últimas semanas foram atropeladas mais duas pessoas. Já é uma estrada conhecida por atropelamentos", referiu Vânia.

A Route du Vin tem sempre muito movimento e o risco é maior. "Em 2016 fizeram um estudo sobre esta rua e foi considerada uma das mais perigosas para atravessar. Todos os espaços de lazer que existem nesta cidade estão do lado do rio e todas as pessoas têm de atravessar a estrada", explicou Frederico.

Além disso, nota o casal, "nenhuma passadeira estava em conformidade com a lei, em termos de distância para estacionamento ou cruzamentos". O Código da Estrada do Luxemburgo estipula que um carro não pode estar estacionado a menos de cinco metros de uma passadeira. Segundo um estudo realizado no ano passado, uma em cada três passagens de peões na capital não respeitava a lei. Em 2015, a segurança das passagens na capital foi alvo de críticas numa auditoria que instava a que fossem tomadas medidas imediatas. Apenas 6% das passadeiras foram consideradas seguras.

Os pais de Kika também apelaram à Administração das Pontes e Estradas (APC) para que fossem colocadas lombas naquela rua, mas o serviço do Governo disse que tem de ser a própria Comuna a pedir as alterações. Porém, a única alteração que o burgomestre de Grevenmacher solicitou foi a retirada do memorial de Kika colocado debaixo da ponte, área que é da jurisdição da APC. "Porque aquilo o relembrava que falhou. Tivemos o memorial ali durante seis meses. A justificação dele foi que devido às condições meteorológicas os objetos podiam sair do lugar. Disse-me que é para isso que existem os cemitérios", recordou Vânia, com sentimento de repulsa.

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Indignação
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Os pais de Kika tiveram de tirar a maior parte dos objetos que tinham colocado no memorial da filha, como uma foto dela e a figura de uma santa. No local ficaram apenas as flores e as velas. Além da homenagem, o propósito daquele sacrário era passar uma mensagem. "Ouvia muitas crianças a perguntar o que se passou e os pais a explicar e a dizer para eles terem atenção porque aconteceu isto na passadeira", revelou a mãe.

Foto: Oli Kerschen

Através do caso da filha, o objetivo de Vânia e Frederico é chamar a atenção para a falta de segurança na estrada e a lei aplicada atualmente. "Acho que devia haver uma sensibilização para que o Estado repense nas leis atuais. Como esta, existem outras, com certeza. Se a humanidade evolui, porque é que as leis não evoluem igualmente?", questionou ela. "Infelizmente não posso fazer nada pela minha filha, mas tenho mais filhos, tenho amigos com filhos, toda a gente tem família. Se estas leis não forem adaptadas aos dias de hoje, estes casos vão continuar a existir. É tempo de dar a prioridade de passagem aos peões e não às viaturas".

Para o pai, o que mais choca no acidente da filha são as sanções que aplicam. "Se eu for a conduzir sem seguro ou sem documentos é aplicada uma sanção às vezes maior do que neste caso. Temos vindo a acompanhar cada vez mais casos de pessoas atropeladas em passadeiras. O número de acidentes per capita é muito elevado", salientou Frederico. "O Governo insiste na velocidade e no álcool, mas se formos a ver as sanções que são aplicadas nestes casos… A nossa filha morreu, mas há casos em que as pessoas não morrem. No final, as passadeiras não nos oferecem segurança nenhuma. É uma ilusão".

O caso da nossa filha é um início, um impulso. Quando se pega num carro e não se tem capacidade para saber o que fazer na estrada, é uma arma que se tem nas mãos.

No acidente de Kika, os pais consideram que a falha foi apenas do condutor, mas querem alertar para outros casos em que o Governo e as autoridades possam evitar novas tragédias. "O caso da nossa filha é um início, um impulso. Quando se pega num carro e não se tem capacidade para saber o que fazer na estrada, é uma arma que se tem nas mãos", afirmou Vânia.

O marido compara este caso com o do homem que ameaçou Bettel e Lenert. "Foi condenado a dois anos de pena suspensa. Por uma ameaça. Aqui há mesmo a morte de uma pessoa. Há uma discrepância na justiça". Para Frederico, não existe desculpa para uma falta de distração na estrada. "Uma coisa é haver uma falha mecânica. Outra coisa é falta de atenção. Estar distraído ou alcoolizado é igual, mas cada caso é um caso", admitiu.

"No caso da nossa filha, quando o miúdo arranca do parque e acelera, conhecendo Grevenmacher como conhecia, sabia que havia sempre gente a passar. Ele podia atropelar qualquer pessoa. Desta vez foi a minha filha, amanhã pode ser um vizinho, uma criança…", alertou Vânia, apoiada pelo companheiro: "Quantas crianças não se mandam para a estrada? O tempo de reação de uma pessoa são dois segundos. Pode não ser suficiente para evitar o acidente, mas pelo menos tentas travar".

Depois do acidente, os pais de Kika receberam apoio psicológico por parte da Associação de Vítimas da Estrada. "Disponibilizaram-se durante o tempo que precisássemos. Ouvem e tentam minimizar a dor", explicou Vânia, lembrando que também no funeral da filha houve muita gente, apesar de ter sido durante a pandemia. "As pessoas foram corretas, muitas delas nem conhecíamos. A Kika teve uma boa homenagem". A grande mobilização das pessoas da cidade surpreendeu-os. "Muita gente nos apoiou. Recebemos muito carinho da população de Grevenmacher", reconheceu Frederico.

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Legado
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Frederica Cardoso de Jesus nasceu no dia 21 de agosto de 2000 em Proença-a-Nova, no distrito de Castelo Branco. Teria hoje 21 anos. Quando tinha apenas dois anos, os pais decidiram emigrar para o Luxemburgo. Casaram muito jovens. A família de Vânia era mais humilde e a família de Frederico, que esteve emigrada em Reims, França, era mais abastada. Ela não queria viver às custas dos sogros e quis ir para o Grão-Ducado à procura de uma vida melhor.

Chegaram ao Luxemburgo em 2002. Primeiro o Frederico, para encontrar trabalho, e depois Vânia com a Kika e o Nicolau, que só tinha quatro meses. Em Portugal, Frederico era bombeiro profissional, mas quando tentou candidatar-se aos bombeiros de Esch-sur-Alzette, não o aceitaram porque não tinha nacionalidade luxemburguesa. Trabalhou como motorista da Provençale, grande empresa de produtos alimentares. Vânia foi para as limpezas.

Viveram em Esch até 2007, quando decidiram voltar a Portugal, porque Frederico recebeu uma boa proposta de emprego e o casal concordou que a nível escolar também seria melhor para os filhos. Kika tinha então seis anos. Aos 12, voltou a sair do país, desta vez para a Alemanha, em Wellen, que fica do outro lado do rio em frente a Grevenmacher. Ela falava muito bem alemão, melhor até do que o português, dizem os pais.

Foto: Oli Kerschen

Mais tarde voltaram ao Luxemburgo e viveram em Mertert. Para os estudos era melhor do que na Alemanha. Apesar de todas estas mudanças, a Kika sempre se orgulhou de ser portuguesa, garantem. "Os professores disseram-lhe muitas vezes para pedir a nacionalidade luxemburguesa, porque seria mais fácil para ela arranjar trabalho depois, mas ela disse sempre: ‘se me quiserem, tem de ser com a nacionalidade portuguesa’". Ela era uma respondona, admite a mãe. Aos sete meses já falava. Ai de quem a chamasse Frederica. Ela respondia: "Não, sou a Kika".

Deus deu-me o maior prazer do mundo de ter esta menina como minha filha. Aprendi a ser mãe e aprendi a ser amiga. Olhava para ela e via-me quando tinha a idade dela.

Nas palavras dos pais, ela parecia uma menina indefesa, mas tinha muita força. Foi a primeira rapariga voluntária dos bombeiros de Wellen. A sua paixão era a arte. O desenho. A fotografia. O cinema. Estava a estudar na área do audiovisual para acabar o secundário no Lycée des Arts et Métiers, mas queria entrar na faculdade em Psicologia. Via as coisas de uma maneira diferente. Sabia sempre ver o bonito em cada coisa. Para ela tinha de haver sempre algo positivo. Era uma miúda que estava sempre um passo à frente. Pedia conselhos, mas já tinha a ideia dela. Só se queria certificar que a ideia dela estava correta.

Kika era uma menina humilde. Não era muito vaidosa, mas maquilhava-se à noite em casa e depois tirava. Foi uma boa irmã e uma boa filha. Para a mãe, foi uma melhor amiga. "Foi muitas vezes mais mãe para mim do que eu para ela. Deus deu-me o maior prazer do mundo de ter esta menina como minha filha. Aprendi a ser mãe e aprendi a ser amiga. Tive tudo. Olhava para ela e via-me quando tinha a idade dela. Mas ela tinha mais garra do que eu". Para o pai, ela era luz. "Onde quer que estivesse, se a Kika fosse a um sítio em que toda a gente estava triste ou aborrecida, ela começava a falar e ao fim de cinco minutos estava tudo a rir. Quando vemos o impacto que ela deixou, temos ainda mais orgulho".

Se a Kika fosse a um sítio em que toda a gente estava triste, ela começava a falar e ao fim de cinco minutos estava tudo a rir. Quando vemos o impacto que ela deixou, temos ainda mais orgulho.

Os pais têm a certeza de que a filha iria fazer a diferença, mesmo na mais pequena das coisas. "Mas ela continua connosco. Está todos os dias aqui. Se pudesse dizer-lhe algo agora diria: ‘tenho orgulho em ti todos os dias e amo-te imenso’. Ela sabia disso, dizia-lhe muitas vezes. ‘Não baixes a cabeça, filha. A mãe está cá para te apoiar’. A Kika mostrou-me que não fui uma má mãe", disse, emocionada. "Consegui pôr uma mulher no mundo. Como mãe, sinto muito orgulho. Todo o tempo que passei com os meus filhos valeu a pena. Cada segundo que passei com a Kika".

O que minimiza a dor de Vânia e Frederico é uma das frases que Kika lhes costumava dizer: "Todos nós temos uma missão a cumprir na terra. E, quando a acabamos, Deus leva-nos com ele". Talvez eles ainda não saibam exatamente qual foi a missão da filha. "Mas do que já vimos, pela reação dos colegas e das pessoas que a conheciam, acreditamos que ela deixou qualquer coisa boa e que conseguiu mudar quem esteve à sua volta". Um legado que será perpetuado. Para salvar vidas. Em nome da Frederica.

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