Português ganha eleições mas abdica do cargo de burgomestre

Ainda não é desta que o Luxemburgo vai ter um burgomestre com passaporte português. José Vaz do Rio ganhou as eleições na pequena localidade de Bettendorf, um feito histórico para os portugueses no país, mas decidiu renunciar ao cargo. Em vez disso, vai ser primeiro vereador.

José Vaz do Rio foi o mais votado, mas renunciou a exercer o cargo de burgomestre.
José Vaz do Rio foi o mais votado, mas renunciou a exercer o cargo de burgomestre.
Foto: Guy Jallay

“José, bass du nervös?” (“José, estás nervoso?”). A pergunta foi feita a José Vaz do Rio na véspera das eleições municipais em Bettendorf, durante uma festa nos Bombeiros. Nessa altura, o imigrante de Vila Pouca de Aguiar “não estava nervoso”, garante. Os nervos vieram depois.

No domingo, José Vaz do Rio venceu as eleições municipais na pequena localidade do nordeste do país. Teve 588 votos, mais vinte que o segundo classificado, e deixou em terceiro lugar o anterior burgomestre, Albert Back, com 553 votos. A votação garantia-lhe em princípio o cargo mais alto da autarquia, mas o imigrante achou que não estava à altura. “Eu só tenho a quarta classe. É preciso sabermos ocupar o nosso lugar”, disse ao Contacto.

“O seu lugar” vai ser o de primeiro vereador da autarquia. O cargo de burgomestre foi atribuído à quarta candidata mais votada, a advogada Pascale Hansen, durante a reunião entre os nove eleitos para votar e formalizar as nomeações. José Vaz do Rio diz que a decisão “é para o bem” da autarquia e invoca “vários motivos”.

“Primeiro é a língua: escrever luxemburguês seria um ’handicap’ para mim, e em encontros com outros burgomestres ia ter dificuldades”, diz o homem que passou seis anos a aprender luxemburguês nos cursos noturnos organizados pela autarquia. “Ia ser feio daqui a uns meses dizerem-me que não sou capaz e mandarem-me embora”. E garante que tomou a decisão de “livre vontade”, depois de se aconselhar com a família.

José Vaz do Rio já era conselheiro municipal em Bettendorf desde 2011, altura em que ficou em quinto lugar. Nessa altura ainda só tinha o passaporte português. Há um ano, obteve a nacionalidade luxemburguesa, ficando com dupla nacionalidade. E até fala luxemburguês, a língua em que se desenrolam as reuniões do executivo camarário. “Compreendo cem por cento e falo 80%. Agora vou ter de treinar”, afirmou pouco depois de ser eleito.

Apesar de não ficar com o cargo de burgomestre da pequena localidade, José Vaz do Rio diz que já foi “uma vitória”. “Foi uma vitória para mim e para os portugueses, é verdade. Mas [o cargo de primeiro vereador] também é um posto muito importante e para mim já é uma grande coisa”, disse hoje ao Contacto.

O português vive há 28 anos em Gisldorf, que faz parte da autarquia de Bettendorf. Tem três filhos e quatro netos, “todos a viver no Luxemburgo”, e diz que a mulher já estava à espera de um bom resultado nestas eleições. “Ela sempre me encorajou, disse que eu ia ficar entre os três primeiros”, contou o imigrante. Acabou mesmo por vencer as eleições, mas os nervos terão falado mais alto.

"O medo do burgomestre português"

Até 2011 os estrangeiros não podiam assumir o cargo de burgomestre, mesmo que ganhassem as eleições. Curiosamente, a explicação para esta barreira legislativa, que tardou em ser abolida, foi sempre o “medo do burgomestre português de Larochette”. Afinal, o primeiro português a vencer eleições municipais no Luxemburgo viria de Bettendorf, mas o medo de falhar tê-lo-á impedido de assumir o cargo.

No domingo, quando se soube dos resultados, José Vaz do Rio apelou à participação política dos portugueses. “Os portugueses deviam participar mais e registar-se na comuna para votar”, instou. E deu um exemplo da importância de participar na política: este ano os cursos de língua portuguesa estiveram para não se realizar na escola da localidade, devido a obstáculos colocados pela autarquia. “A comuna dificultou um bocado os cursos, não queriam emprestar a sala, com salas vazias”, contou ao Contacto.

O caso acabaria por se resolver na sexta-feira passada, com a ida do responsável do Serviço de Ensino de Português, Joaquim Prazeres, a uma reunião com responsáveis da autarquia. Problemas que não se repetirão com o imigrante na autarquia, garantiu. “É prioridade, a nossa língua”, disse José Vaz do Rio ao Contacto.

Natural de Raíz do Monte, Vila Pouca de Aguiar, o português é também presidente de dois clubes de futebol: o FC Jeunesse Gisldorf, que integra a Federação Luxemburguesa de Futebol, e o Vila Pouca de Aguiar, um clube com 30 anos e onde a maioria dos jogadores são portugueses.

Paula Telo Alves