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“É preciso desconstruir o mito que falar em casa português é suficiente”
Luxemburgo 9 min. 09.06.2021
Português

“É preciso desconstruir o mito que falar em casa português é suficiente”

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“É preciso desconstruir o mito que falar em casa português é suficiente”

Luxemburgo 9 min. 09.06.2021
Português

“É preciso desconstruir o mito que falar em casa português é suficiente”

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
"Temos ainda a ambição de introduzir uma secção portuguesa nas escolas públicas europeias luxemburguesas", afirma Mónica Bastos, adjunta de Coordenação de Ensino de Português no Luxemburgo.

Há cerca de nove anos registou-se uma quebra significativa do número de estudantes a aprender português no Luxemburgo. Porquê?

Houve uma quebra no número de inscrições. Há vários motivos. Por um lado, teve a ver com o facto de se ter introduzido a propina a partir de 2012.

Foi na altura em que vivemos a crise e uma das medidas para tentar limitar as despesas ao nível do ensino do português foi haver esta comparticipação dos encarregados de educação. Não é um valor muito alto, no contexto luxemburguês, porque muitos têm os subsídios para as crianças que dá perfeitamente para pagar, mas efetivamente alguns já não estariam muito motivados e, eventualmente, foi um dos motivos para não querer manter os seus filhos nos cursos de português no regime paralelo.

Também contribui o facto da imigração ter mudado?

A nova geração de emigrantes portugueses valorizam mais o projeto internacional que os filhos poderão vir a ter, do que a ideia de estar aqui alguns anos, “fazer a minha casa em Portugal e depois regressar a Portugal”, que era comum na anterior vaga de emigração.

A nova geração da imigração já não tem tanto essa ideia e valoriza mais a questão de projetos internacionais e de dar outras ferramentas aos seus filhos. Mas isso não coloca de parte a necessidade de tratarmos as nossas raízes e a nossa identidade, saber de onde vimos, para melhor encarar o presente e o futuro. E a língua portuguesa é uma mais-valia também, não só com a família que lá ficou, em Portugal, mas também como língua de trabalho e língua global.

Quem vem de Portugal e chega cá a falar o inglês, porque é a língua de trabalho nas instituições europeias e nas grandes empresas, esquece-se que o português também é uma língua global.

O que é possível fazer para aumentar o interesse no ensino do português?

É preciso desconstruir este mito junto das famílias da comunidade portuguesa de que falar em casa português é suficiente. É verdade que no Luxemburgo os miúdos têm um nível de português, em termos de oralidade, muito bom. Se compararmos com comunidades portuguesas em França, ou na Alemanha. Aqui no Luxemburgo, devido ao facto de haver uma comunidade tão grande e concentrada, eles acabam por utilizar o português também fora de casa. Mesmo quando se visitam as escolas, ouve-se muito português nos recreios. A língua está muito presente, mas é um registo de língua muito familiar, informal, que não é suficiente se se pretender utilizar a língua para efeitos de estudos superiores ou profissionais. Por isso é tão importante a aprendizagem do português. Por outro lado, ao contrário dos receios que possam existir, e são muitos, e não só dos pais, mas de professores, importa desconstruir o mito que aprender mais uma língua ainda vai fazer mais confusão.

E acaba por ajudar…

Pelo contrário, a investigação tem demonstrado que quanto mais a criança dominar a sua língua materna, a língua que fala em casa, mais facilmente faz as transições para as línguas da escola, no caso do Luxemburgo. Mais depressa consegue construir conhecimentos nessas línguas e compreender os conteúdos e conceitos... Muitos pais ignoram essa realidade.

Como é que funcionam os cursos de regime paralelo?

Os cursos de português do regime paralelo são cursos de língua e cultura portuguesas que funcionam fora do horário escolar, em escolas que agrupam alunos que vêm de diferentes espaços, funcionando como uma espécie de núcleo que recebe alunos de vários estabelecimentos de ensino. Seguem programas próprios, definidos pelo Camões, I.P., e são certificados, mediante a submissão a provas de certificação de competências.

Depois temos outro tipo de cursos que são os cursos integrados no horário escolar. Temos esta modalidade principalmente ao nível do ensino pré-escolar e no ensino fundamental, como cursos de ciências ou de história e geografia, com os mesmos conteúdos da escola luxemburguesa, mas lecionados em português. Como são organizados com a escola, a avaliação é integrada no boletim dos alunos, e como há esta implicação com o Ministério da Educação, são gratuitos.

Depois existe uma modalidade, formalizada no Quadro de Referência assinado em 2019, que são os cursos complementares. Estes surgiram na sequência da crise que houve em Esch, no ano letivo 2016/17, em que se decidiu terminar com os cursos integrados, numa decisão unilateral da autarquia. Como sabe, Esch é uma das cidades em que existem mais portugueses, as pessoas organizaram-se porque queriam que os filhos continuassem a aprender português. Houve várias reuniões de trabalho e uma grande implicação diplomática e das forças políticas aqui e criaram-se estes cursos complementares, que são cursos de língua portuguesa fora do horário escolar, mas em articulação com a escola que os recebe. Só podem frequentar aulas de português naquela escola os alunos que lá frequentam o ensino regular. Existe uma articulação entre os professores de português e os professores luxemburgueses no sentido de concertarem os temas que vão tratar algumas metodologias e ao nível da avaliação dos alunos. Esta modalidade de ensino foi entretanto estendida a outras autarquias, como Vianden, Echternach e, mais recentemente, Differdange

Penso que a rede de Ensino de Português no Estrangeiro (EPE) no Luxemburgo é uma das mais dinâmicas e temos uma grande diversidade de cursos.

Existe ainda um novo projeto que está a arrancar de cursos integrados de português no currículo do ensino secundário luxemburguês. Temos um caso piloto, mas que poderá ser estendido a mais quatro liceus, no próximo ano letivo. Os alunos estão a estudar português na 2ème do curso de assistente social, no liceu Nordstad, em Diekirch. O que significa que a escola tinha possibilidade de propor uma disciplina de opção e decidiu que essa opção seria o português, tendo em conta o tipo de profissões para que estes alunos estão a ser preparados. É uma escola de ensino técnico que está a preparar futuros polícias e assistentes sociais. E tendo em conta o contexto e o peso da língua portuguesa no Luxemburgo, devido à forte comunidade, acharam que seria importante introduzir o português. Foram feitas reuniões e avançou-se com o projeto. Espera-se para para o ano o projeto seja estendido a mais uma turma.

Paralelamente, estamos em negociações com o Ministério da Educação e outros quatro liceus para oferecer português como curso de opção integrado no currículo a todas as secções do ensino secundário e, neste caso, estamos a falar do secundário clássico. No antepenúltimo ano, os alunos têm a possibilidade de escolher uma disciplina de opção e estamos em negociações para oferecer ao mesmo tempo: português para lusófonos, nível avançado, para estudantes que queiram desenvolver competências do português, ou continuar esse desenvolvimento na sequência do percurso que têm feito com o Camões, I.P., que falam português em casa e pensam ir estudar para Portugal na Universidade e querem trabalhar melhor a componente escrita e académica; por outro lado, teremos cursos de português língua estrangeira para estudantes que não falem português de todo e que queiram iniciar a aprendizagem da língua, também ao nível do secundário. Essa modalidade está a funcionar em regime de experiência no Liceu de Garçons em Esch e no Liceu Aline Mayrisch, na cidade do Luxemburgo. Com base nesta experiência, decidimos fazer a diversificação do público-alvo, porque uma das grandes dificuldades é o facto de haver jovens com diferentes perfis que querem aprender português e tê-los em conjunto na mesma aula e fazer a gestão é muito complicado. Optamos por tentar diferenciar a oferta, tendo em conta o perfil do público-alvo. E vamos ver como vai correr. Escolhemos quatro grandes liceus e vamos ver como corre, se os estudantes se interessam. Os diretores dos liceus foram bastante abertos à iniciativa e até deram sugestões.

Ao mesmo tempo, também temos o português como língua 4, cujo currículo está finalizado e pronto a avançar no próximo ano. Na secção A, que é a secção das línguas, os estudantes podem escolher uma quarta língua. Até agora só havia o italiano e o espanhol, e agora abriu-se também o português, que teoricamente sempre existiu, mas não havia, ainda, um programa. Fizemos o desenvolvimento curricular, foi o grande trabalho deste ano letivo, numa cooperação entre o Ministério de Educação luxemburguês, o Camões, I.P., o Ministério da Educação português e a Embaixada de Portugal, através da Coordenação do Ensino de Português no Luxemburgo. O currículo está pronto a implementar.

A oferta do ensino de português no Luxemburgo é toda da responsabilidade do Camões, I.P., não há apoio do Ministério da Educação do Luxemburgo?

Em alguns países, como a Alemanha existe uma parte do ensino do português que é assegurada pelo Estado alemão, em alguns estados. Na Suécia, existe o ensino de línguas de herança, quer seja o português, o espanhol, o italiano ou outras línguas e todo ele é garantido pelo Estado sueco. No Luxemburgo, tirando os cursos de língua portuguesa que são oferecidos nas escolas internacionais, as chamadas Escolas Europeias, em que os professores são colocados pelo Estado luxemburguês e os currículos são supervisionados pela Estado, todos os outros cursos que existem de português para escolas primárias e liceus são garantidos pelo Camões, I.P.. Alguns em cooperação com o Ministério da Educação, como é o caso do ensino integrado e complementar.

Não devia existir um maior apoio do Estado luxemburguês, tendo em conta a dimensão da comunidade portuguesa?

Penso que o Estado luxemburguês já nos dá bastante apoio. Temos ótimas relações com o Ministério da Educação luxemburguês, contando sempre com o apoio do Sr. Embaixador de Portugal, Dr. António Gamito, que é o interlocutor político do Estado Português com o Ministério, definindo-se, no quadro deste intenso e continuado diálogo, a nossa estratégia e os passos a dar.

Existe um grupo de trabalho que reúne mensalmente para tratar do acompanhamento destes cursos. Mesmo no ensino paralelo, em que não existe um envolvimento do Ministério da Educação, temos sempre apoio. Acho que há empenho. Vamos ver, se o interesse no ensino do português crescer, se calhar precisamos de mais recursos e professores que estejam a trabalhar exclusivamente para cursos de ensino integrado, talvez se possa repensar outras formas de apoio.

Temos ainda a ambição de introduzir uma secção portuguesa nas escolas públicas europeias luxemburguesas.

Para já, acho que estamos no bom caminho, mas queremos mais e melhor.

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É a primeira vez que o ministro da Educação do Luxemburgo fala sobre o fim dos cursos integrados em Esch-sur-Alzette, e a mensagem é clara. O ministro quer que os cursos integrados no ensino primário sejam substituídos por intervenções apenas no pré-escolar. Uma proposta que se aplicaria a todo o país e que representaria o fim dos cursos integrados de língua e cultura portuguesa no ensino primário luxemburguês.