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Portugal no Luxemburgo é uma velha história de bola
Luxemburgo 7 min. 16.11.2019

Portugal no Luxemburgo é uma velha história de bola

Portugal no Luxemburgo é uma velha história de bola

Luxemburgo 7 min. 16.11.2019

Portugal no Luxemburgo é uma velha história de bola

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Havia Porto e Benfica, Sporting e Braga, Tondela, Leixões, Chaves, Tirsense, Estoril. Há 40 anos, arrancava o campeonato das equipas portuguesas do Grão-Ducado, que chegou a ter três divisões e 36 clubes. Na semana em que o Luxemburgo recebe a Seleção Portuguesa de Futebol, recordamos o fenómeno que a imigração lusófona provocou nos relvados de um pequeno país da Europa Central.

“Chegou a um ponto que cresceu demasiado”, e Osvaldo dos Santos, para o resto do mundo Zezinho, ainda hoje lamenta o fim do campeonato português no Grão Ducado. Foi 16 anos capitão da Associação Amílcar Cabral, o Micau, que para participar na competição mudou de nome para Associação Luso-Cabo-Verdiana. Depois tornou-se dirigente, foi nessa condição que viu o seu clube ganhar o último troféu que se disputou entre as equipas imigrantes – O Torneio du Sud. Há dez anos, uma vitória por 3-2 ao Leixões colocou o ponto final definitivo numa das mais visíveis manifestações da comunidade lusófona no país.

No domingo, o Luxemburgo recebe Portugal em jornada de apuramento para o Campeonato da Europa de 2020 – e a equipa das Quinas está obrigada a ganhar. Há uma longa história entre as duas equipas nacionais, como pode ler no artigo de Rui Miguel Tovar, “O dia glorioso do Luxemburgo”, na página 27 deste jornal. Dos 16 jogos oficiais que os dois países disputaram, os lusos ganharam 14. A única vitória luxemburguesa, no entanto, aconteceu na estreia de Eusébio de deu cabo das esperanças de apuramento para o Mundial de 1962. Os imigrantes estão esperançosos, sim, mas dizem todos que as tropas de Fernando Santos não podem facilitar.

“Um jogo entre Portugal e o Luxemburgo é sempre especial”, diz Jean Ketter, historiador e autor do livro “L’immigration dans le football luxemburgeois” – ou, em tradução livre, “A imigração no futebol luxemburguês”. “Não é só por um quarto da população do país ser lusófona, não é só pelo facto de uma boa parte dos luxemburgueses serem hoje lusodescendentes. É também que, hoje, as equipas do Grão-Ducado estão cheias de apelidos como Costa, Almeida ou Oliveira. Na construção do futebol deste país, os portugueses são uma referência essencial.”

O início da conversa

O primeiro campeonato português aconteceu em 1978/1979, há portanto quatro décadas redondas. Na década anterior já várias associações recreativas de imigrantes portugueses se haviam formado no país, formando equipas que batiam-se entre si em jogos de amadores ao fim de semana. “É preciso ver que aqui chegavam sobretudo rapazes solteiros, ou homens casados que tinham deixado as suas famílias em Portugal”, explica João Silva, o ainda diretor do Sporting Étoiles du Sud. “Muitos não sabiam falar sequer francês, e esta era a maneira de terem algum tipo de vida social.”

Jean Ketter constata o impacto na comunidade imigrante. “Estes pequenos clubes foram uma ferramenta de integração importantíssima para essa primeira vaga de portugueses. Ao misturarem-se uns com os outros misturavam-se também na sociedade luxemburguesa, ajudavam-se mutuamente na resolução de problemas e criavam as bases para uma certa estabilidade.” Os nomes das associações reinvindicavam os lugares de origem ou os clubes dos fundadores.

Havia os Lusitanos e a Luso-Cabo-Verdiana, mas depois fundaram-se Transmontanos, Mortaguense, Bairradinos, Tirsense e Leixões. Até houve um Estoril e um Estrela da Amadora. Benfica, Porto, Sporting e Braga ainda hoje sobrevivem, anos mais tarde haveriam de fundir-se aos clubes do Grão-Ducado. “Isto não quer dizer que um benfiquista só pudesse jogar no Benfica. Eu, por exemplo, fui presidente do Benfica de Dudelange entre 1974 e 1975 e a partir de 1979 é que peguei no Sporting Étoiles du Sud”, diz João Silva. “Na Luso-cabo-verdiana jogavam muitos portugueses, nós costumávamos dizer que o Sporting não era Sporting se não tivesse um africano e um careca.” Os grupos formavam-se pelo regionalismo de origem, ou pela proximidade da residência ou da fábrica onde agora trabalhavam. “Eram grupos muito abertos, com uma rivalidade saudável. Mas toda a gente era bem vinda em todo o lado.”

Os esforços de arranque do campeonato nascem do trabalho da Embaixada com a associação Amitié Portugal-Luxembourg – e a primeira edição conta com 14 equipas. Cria-se a Federação das Associações Portuguesas no Luxemburgo. Na época seguinte, 1979/80, já há 22 equipas – e a organização percebe que é preciso dividir dois grupos. Na cidade do Luxemburgo militam seis equipas, e há localidades onde nascem duas – Ettelbruck, Dudelange ou Esch. Na década seguinte, o campeonato há de crescer de forma extraordinária.

Os dias de apogeu

Em meados da década de 1980, há já duas divisões – que crescerão para três no início dos anos 1990, com 36 equipas e quase um milhar de jogadores inscritos. A Federação tem alguns problemas em encontrar campos e árbitros, por isso começa a desenvolver parcerias com clubes luxemburgueses e a formar os seus quadros próprios. “Muitos rapazes nesta altura jogavam também em equipas do Grão-Ducado”, conta João Silva, “sobretudo porque queriam o estatuto de atletas no país, o que lhes garantia vantagens nas empresas.” Mas até esses participavam na competição portuguesa. “Às vezes marcavam-se os jogos às seis e meia porque este ou aquele jogador tinha um desafio da liga do Luxemburgo às três. Assim, podia jogar as duas partidas.”

É nesta altura que a Federação Luxemburguesa começa a torcer o nariz ao campeonato português. Havia atletas que se lesionavam em treinos e jogos da liga alternativa – e depois não rendiam nas competições nacionais. Além disso, a multidão que acorria aos estádios suplantava muitas vezes os espetadores das provas oficias. “Aquilo era uma festa danada”, recorda Osvaldo dos Santos, do Micau. “Os clubes tentavam financiar-se e montavam barraquinhas de comes e bebes que estavam sempre cheios de gente. Os jogos acabavam e ficávamos ali no convívio, futebolistas com adeptos, às vezes horas a fio.”

Na época 1989/90, mais de 2500 pessoas compareceram à final entre Benfica do Luxemburgo e a Luso-cabo-verdiana. Os clubes crescem, começam a recrutar jogadores de Portugal, com os presidentes a oferecerem empregos aos que estejam dispostos a mudar de país. “No final da década de 1990, já tudo funciona em circuito fechado. Há árbitros portugueses, conselhos de disciplina portugueses, toda uma estrutura federativa de sombra. Aquilo que tinha começado por ser uma ferramenta de integração estava a tornar-se num meio de exclusão e isolamento da comunidade”, diz o historiador Jean Ketter.

O fim da linha

A partir de 1997 começam as negociações para aquilo que o a federação Luxemburguesa sempre tinha recusado: a integração das equipas portuguesas no campeonato nacional. Agora, entrava em cena a CASA – Centro de Apoio Social e Associativo, que prepara um grupo para negociar a entrada. Estabelecem-se as primeiras regras, mas a meio do processo os luxemburgueses criam novas regras que excluem a maior parte dos clubes de qualquer possibilidade de adesão – precisavam de ter campo próprio, circunstância em que estavam apenas duas das 36 equipas.

“Penso que os clubes luxemburgueses tiveram medo de se tornarem irrelevantes e por isso travaram a entrada dos os portugueses”, admite Jean Ketter. A exlusão dos portugueses causou escândalo em 1999, com o governo e o Comité Olímpico a criticarem os clubes do país por não aceitarem a integração. A Federação responde que o campeonato português é ilegal, não tem aprovação de UEFA nem da FIFA. E determina que, para entrarem na liga, terão de se juntar a clubes já existentes. É o que fazem o Benfica, que se une ao Hamm, o Porto, que se junta ao AS Luxembourg, ou o Braga, que se junta ao Céssange para criar o CeBra.

Face à possibilidade de entrada nas competições nacionais, algumas equipas começam a abandonar o campeonato português. Poucas, no entanto, entram de facto na liga do país. Em 2006, o campeonato deixa de se realizar. João da Silva ainda tenta juntar os clubes que sobravam para fazer uma segunda competição, a Taça do Sud – juntando meia dúzia de equipas do sul do país. O último jogo realiza-se em 2009, com uma vitória do Micau sobre o Leixões.

“Desde aí todos os clubes definharam e a maioria desapareceu”, conta João. O Sporting Étoiles não vive hoje senão nas paredes de um café de Dudelange, o Micau perdeu a sua sede, quase todos os outros evaporaram-se. “A partir desse momento veio a normal integração das segundas e terceiras gerações portuguesas nos clubes luxemburgueses, e o campeonato português passou a ser nada mais que uma memória”, diz Ketter. Para homens como Osvaldo, esse fantasma ainda dói. Tal como para João Silva e uma geração inteira de homens que resolveram as vidas numa competição que era só deles. “É também por causa disso que Portugal tem de ganhar no próximo domingo”, diz Osvaldo. “De preferência com muitos golos.” 


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Entrevista: “Os imigrantes foram muito importantes no desenvolvimento do futebol no Luxemburgo”
Jean Ketter foi recentemente distinguido pela Fundação Robert Krieps com o prémio para a melhor tese de mestrado escrita no Grão-Ducado. O jovem luxemburguês, docente no Liceu Técnico de Ettelbruck, recebeu um prémio pecuniário de 2.500 euros pelo trabalho de investigação “Influência do futebol de rua e de clubes sobre a inclusão e a identificação dos imigrantes”, obra que deverá ser editada em setembro.
Jean Ketter iniciou-se no futebol aos sete anos. Jogou até aos 13 edepois começou apraticar basquetebol. Hoje, odocente do Liceu Técnic odeEttelbruck é jogador da equipa principal do Laroche tte, mas continu a ajogar futebol com os amigos