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Porta-voz da CCPL: Vitória esmagadora do “Não” revela “tensões latentes” entre luxemburgueses e estrangeiros
Luxemburgo 5 min. 10.06.2015

Porta-voz da CCPL: Vitória esmagadora do “Não” revela “tensões latentes” entre luxemburgueses e estrangeiros

O lema do Luxemburgo é “Queremos continuar a ser aquilo que somos”. No 
domingo, a esmagadora maioria dos luxemburgueses votaram contra a mudança

Porta-voz da CCPL: Vitória esmagadora do “Não” revela “tensões latentes” entre luxemburgueses e estrangeiros

O lema do Luxemburgo é “Queremos continuar a ser aquilo que somos”. No 
domingo, a esmagadora maioria dos luxemburgueses votaram contra a mudança
Foto: Lex Kleren
Luxemburgo 5 min. 10.06.2015

Porta-voz da CCPL: Vitória esmagadora do “Não” revela “tensões latentes” entre luxemburgueses e estrangeiros

O “Não” ao direito de voto dos imigrantes nas eleições legislativas venceu de forma esmagadora o referendo no Luxemburgo, com 78% dos votos, frustrando as aspirações de muitos portugueses no país, que representam 16% da população. Para representantes da comunidade portuguesa no Luxemburgo, os resultados confirmam que há “tensões latentes” entre luxemburgueses e estrangeiros.


O “Não” ao direito de voto dos imigrantes nas eleições legislativas venceu de forma esmagadora o referendo no Luxemburgo, com 78% dos votos, frustrando as aspirações de muitos portugueses no país, que representam 16% da população. Para representantes da comunidade portuguesa no Luxemburgo, os resultados confirmam que há “tensões latentes” entre luxemburgueses e estrangeiros.

José Coimbra de Matos não tem dúvidas. Para o porta-voz da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), a vitória esmagadora do ’Não’ ao voto dos estrangeiros nas legislativas “pode ser em parte um ’cartão vermelho’ ao Governo, mas mostra também que há tensões latentes na sociedade” e problemas com a política de acolhimento e de integração.

O dirigente associativo diz que a estratégia do governo para a integração dos estrangeiros “está toda errada” e que é necessário “criar sinergias entre todos e plataformas para que os luxemburgueses também se encontrem com os estrangeiros”.

“Não se compreende como é que o orçamento de Estado para a integração são apenas dois milhões de euros distribuídos a duas ou três associações”, acusa. Coimbra de Matos aponta também o dedo ao Gabinete de Acolhimento e Integração (OLAI, na sigla em luxemburguês), que está de “costas voltadas” para as associações de estrangeiros.

“É mais fácil conseguir uma reunião com um ministro que não tem nada a ver com a tutela [dos estrangeiros] do que um encontro com o director do OLAI”, critica.

O porta-voz lamenta também que o debate tenha estreitado ainda mais o conceito de integração, com muitos partidários do “Não” a defenderem que os imigrantes que não falam luxemburguês não estão bem integrados no país.

“Reduzir a integração à questão linguística é um erro crasso. Há pessoas que falam luxemburguês e não participam na vida em sociedade, enquanto outros que não falam a língua são membros de sindicatos, da Câmara dos Assalariados e de outras instituições sociais, e dificilmente se pode dizer que não estão integrados”, diz.

“A integração passa essencialmente pela cidadania e pela participação na vida da ’cidade’, na vida em sociedade”, diz o porta-voz, defendendo que é necessário “redefinir em conjunto a definição de integração”.

PERCENTAGEM DO “NÃO” FOI UM CHOQUE

A vitória maciça do “Não” surprendeu os analistas. O “Sim” não venceu em nenhuma autarquia do país, com o “Não” ao voto dos estrangeiros a rondar quase sempre os 80%. A única excepção foi a capital, onde o “Não”teve menos votos que no resto do país, 67%.

O “Não já liderava as intenções de voto na última sondagem realizada, com 53%, mas nada fazia prever os 78% de domingo. A campanha, que começou um mês antes do referendo, mudou tudo, defende o director do instituto de sondagens TNS Ilres, Charles Margue, recordando que no Luxemburgo a lei proíbe a divulgação de sondagens um mês antes do escrutínio.

“Perante a magnitude do ’Não’ ao voto dos estrangeiros, que é chocante, deveríamos todos colocar-nos questões, incluindo os não-luxemburgueses que vivem e trabalham há muitos anos neste país, porque estrangeiros e luxemburgueses não vivem juntos, mas apenas em coabitação”, disse ao CONTACTO. “Se houvesse mais inclusão, se as pessoas vivessem mais em conjunto, os resultados não teriam atingido esta magnitude”, sustenta.

Para o director do instituto de estat ísticas, “não há uma verdadeira política de integração há 30 ou 40 anos, nem uma política linguística para reduzir as crispações e facilitar a convivência diária”, o que leva muitos estrangeiros “a viverem à parte”, incluindo portugueses.

“Os não-luxemburgueses, a começar pela comunidade portuguesa, porque é a maior do país, têm as próprias estruturas culturais, sociais e económicas, e vivem muito dentro da sua própria comunidade”, o que assustou os luxemburgueses, “que têm medo de ser submergidos”, aponta.

“É preciso encontrar soluções para a convivência em sociedade, não só jurídicas, mas a todos os níveis”, defende.

REFERENDO “ABRIU BRECHAS NAS MENTALIDADES”

Apesar da vitória maciça do “Não”, há representantes da comunidade portuguesa que consideram “positiva” a realização do referendo, defendendo que representou “um passo em frente para a mudança de paradigma na sociedade luxemburguesa”.

“Houve brechas que se abriram na sociedade luxemburguesa e nas mentalidades, e as vitórias não se fizeram com uma só batalha”, defende Mirandolina Tasch Fernandes, que faz parte da CCPL.

Para a luso-descendente, que chegou ao país em 1967 e tem nacionalidade luxemburguesa desde 1975, a vitória do “Não” demonstra “a mentalidade conservadora do país, traumatizada com a ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial”, o que leva a “um sentimento enraízado de ocupação pelos estrangeiros, que são vistos como um perigo para a identidade nacional”.

A questão contemplava apenas o direito de votar e não de ser eleito, mas houve partidários do “não” que temiam a formação de partidos de estrangeiros e mesmo a eleição de um primeiro-ministro português.

Um dia antes do referendo, numa carta publicada no Luxemburger Wort, o maior jornal do país, uma eleitora luxemburguesa dizia mesmo “que não queria um dia vir a ter um chefe de Governo português”, lamentou Mirandolina Tasch.

Alguns partidários do “não” também receavam que o alargamento do direito de voto aos estrangeiros levasse a que “se passasse a falar português nas escolas”, uma das objecções invocadas durante um debate com o primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel.

O “Não” venceu nas três questões sobre as quais os luxemburgueses foram hoje chamados a pronunciar-se, com 78,02% no caso do voto dos estrangeiros, 69,9% para a proposta de limitação de mandatos ministeriais e 80,8% contra a abertura das eleições aos maiores de 16 anos.

O primeiro-ministro luxemburguês reconheceu a derrota do governo nas três questões. “A mensagem é clara e foi bem percebida“, disse Xavier Bettel numa breve alocução, prometendo que o Executivo vai respeitar os resultados.

Durante a campanha, que polarizou o país, Xavier Bettel defendeu que “nenhum país no mundo, excepto o Dubai, tem um défice democrático” tão grande como o Luxemburgo, por causa da exclusão dos estrangeiros das eleições nacionais.

Segundo uma sondagem divulgada no início de Maio, a maioria dos Luxemburgueses também reconhecia que há um problema no país pelo facto de 46% da população não poder votar em eleições nacionais. Apesar disso, o “Sim” recolheu apenas cerca de 22% dos votos, correspondentes a 44 mil eleitores dos cerca de 246 mil inscritos.

Paula Telo Alves


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