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Porque é preciso voltar à escola mesmo com a pandemia?
Luxemburgo 4 min. 17.09.2020

Porque é preciso voltar à escola mesmo com a pandemia?

Porque é preciso voltar à escola mesmo com a pandemia?

Foto: Guy Wolff
Luxemburgo 4 min. 17.09.2020

Porque é preciso voltar à escola mesmo com a pandemia?

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Autoridades, psicólogos e governos convergem na mesma resposta: não retomar as aulas presenciais é prejudicial para as crianças e pode ter impactos mais duradouros que a covid-19.

As aulas recomeçaram no Luxemburgo, mas este ano os efeitos da pandemia de covid-19 dominam o regresso dos alunos, com o medo de possíveis contágio a afetar sobretudo os pais.

Porém, os custos sociais de manter as escolas fechadas, como aconteceu durante o confinamento, sobrepõe-se ao risco de infeção e levam a que tanto autoridades políticas e de saúde concordem com a sua reabertura.

O Centro Europeu para Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) defende que o encerramento das escolas, devido à covid-19, deve ser “a última medida a adotar”, tanto pelo impacto na educação das crianças, como pelo facto de não haver evidências de que elas sejam lugares que propiciem maior contágio quando comparados com outros contextos."Tendo em conta os dados disponíveis, as crianças e as escolas não são as maiores fontes de propagação desta pandemia”, acrescentou o chefe-adjunto do programa de doenças do ECDC, Piotr Kramarz, numa entrevista à agência Lusa.

Por outro lado, o responsável considerou que é nos locais de trabalho que o risco de contágio tem tendência a aumentar, sugerindo a manutenção do teletrabalho. E é aqui que se revela fundamental para as crianças o regresso à escola e às creches, defende a psicóloga Maria Filomena Gaspar, que coordena a parte portuguesa de um estudo internacional sobre o impacto da pandemia no esgotamento dos pais (burnout parental). As primeiras conclusões do estudo apontaram para um agravamento desse estado em alguns progenitores, durante o confinamento, devido à acumulação do teletrabalho com o acompanhamento dos filhos, então permanentemente em casa.

"O regresso às escolas é um fator protetor para as crianças", diz ao Contacto a também investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Maria Filomena Gaspar, que se manifesta contrária aos encerramentos dos estabelecimentos de ensino, por conhecer o stress acrescido nos contextos familiares decorrentes desse fecho, e que trabalhou com uma amostra de pais altamente escolarizada, lembra que a proteção dos menores não depende apenas da sua situação socioeconómica. "São famílias onde achamos que as crianças estão altamente protegidas, e não estão. E não é porque os pais são maus, é porque há um conjunto de variáveis. Os pais nem percebem, muitas vezes, que, de facto, não poderia ser de outra maneira: estarem a trabalhar todo o dia, terem de ter refeições preparadas, de brincar, de ocupar... Como é que se faz isto a trabalhar?", questiona. A resposta está muitas vezes em "momentos de desregulação emocional enormes", como define, e que podem culminar em castigos físicos dos quais os pais se arrependem logo a seguir, mas que não conseguem evitar devido à sobrecarga de tarefas e ao stress acumulado. "A questão emocional é uma questão marcante dos confinamentos com teletrabalho incluído. E, portanto, a abertura das escolas e das creches é uma benesse para todos".Ainda que os pais manifestem receio com a possibilidade de os filhos serem contagiados, a psicóloga considera que é "preciso dizer-lhes qual é a fatura a pagar de não se correr esse risco e a fatura a pagar para os seus filhos, que é ter crianças afastadas de contextos de socialização importantíssimos". "As escolas foram criadas, não para ocupar as crianças ou para tomar conta delas enquanto os pais estão no trabalho, mas para lhes dar a possibilidade de desenvolver o seu potencial e transformá-las em cidadãos de qualidade."A par disso, nesta fase, podem ter um papel importante para criar uma maior consciência das próprias regras sanitárias, como afirmou esta semana a Ministra da Saúde, Paulette Lenert. 

Em entrevista ao Quotidien, a responsável disse esperar que a educação seja "vista como uma oportunidade de sensibilização". Maria Filomena Gaspar acrescenta que mesmo com a pandemia há que pesar os diferentes tipos de risco e tentar encontrar uma solução equilibrada, que não torne a prevenção e o cuidado numa obsessão nociva. "Os pais, às vezes, com a intenção de proteger os filhos, acham que eles não devem ir à escola [neste contexto]. E estarão com a melhor das intenções, mas também lhes tem de ser dito porque é que eles têm de ir: porque essas crianças têm de continuar a desenvolver competências, continuar a socializar", defende.

A psicóloga alerta ainda para o perigo de se estar a "criar outra vez a criar o mito de que a criança só precisa de uma boa família para crescer". Além da pressão que isso coloca sobre os pais, distorce a ideia do que é a sociedade e contribui para desigualdades. A investigadora lembra que os pais são uma parte, mas que há muitos outros grupos e atores sociais importantes. "Esses outros são a comunidade, que não é apenas a família."

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