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Por cima dos cafés a vida está a tornar-se uma prisão solitária
Luxemburgo 3 min. 25.03.2020

Por cima dos cafés a vida está a tornar-se uma prisão solitária

Por cima dos cafés a vida está a tornar-se uma prisão solitária

Foto: Pixabay
Luxemburgo 3 min. 25.03.2020

Por cima dos cafés a vida está a tornar-se uma prisão solitária

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
A poucos meses de se reformar, o corona vírus trocou as voltas à vida de José Marques. O alastrar da pandemia no país obrigou ao encerramento das obras na construção civil e agora está votado ao isolamento num quarto de café, com colegas de trabalho, a ver a situação deteriorar-se dia a pós dia sem solução à vista.

“Nunca imaginei passar por uma situação destas”, desabafa José Marques, visivelmente abatido. “Estou sem trabalho e vivo a maioria dos dias trancado entre as quatro paredes do meu quarto, porque o vírus anda aí e todo o cuidado é pouco”, precisa o português de 59 anos, trabalhador de uma empresa de construção nos subúrbios da capital.

“Somos vários a viver por cima deste café. O Governo obrigou a restauração a fechar as portas, mas os operários da construção também foram para casa porque o trabalho nas obras foi interrompido. Desde segunda-feira que vivemos aqui fechados, cada qual no seu quarto. Até parece o Big Brother”, diz com alguma ironia.

O isolamento forçado a que a pandemia obriga está a desgastar José e muitos outros trabalhadores portugueses que vivem em condições semelhantes. “A situação está a ficar cada vez mais complicada. O número de infetados não pára de subir e há gente a morrer todos os dias, um pouco por todo o lado. Não sei onde isto vai parar.”

Com o café fechado, fica entregue a si próprio no que respeita à alimentação. “Sem receber e com os restaurantes fechados, temos que nos desenrascar. Felizmente podemos utilizar um fogão de quatro bicos na cozinha para fazermos o comer. Tem de ser à vez. Vêm dois ou três, depois mais outros dois, para evitarmos o contacto”, explica.

“Só saio para fazer algumas compras e depois volto e fecho-me no quarto. Gostava de acompanhar mais de perto toda esta tragédia, mas não tenho televisão. A minha sorte é ter internet no telemóvel que me permite acompanhar as notícias pelo Contacto e Rádio Latina, em português.”

Passar o tempo é um quebra-cabeças para José Marques e os companheiros. As horas são longas e não há grande coisa para se entreterem. “Apesar de nos conhecermos, aqui é cada um para si. Lá contamos de vez em quando uma anedotazita para animar e na maior parte do tempo, nos quartos a dois, jogamos às cartas e dormimos… não há muito mais para fazer. Felizmente o meu quarto tem uma varanda pequena que dá para fumar um cigarrito de vez enquando e descontrair. Mas praticamente não se vê ninguém nas ruas. Tem alturas que a cidade parece um deserto”, lamenta.

Não tem televisão, mas o telemóvel permite-lhe chegar à família que é numerosa e dispersa por vários países. É o contacto com a família e alguns amigos que o mantém de pé. “Vou falando com o meu filho que está na Bélgica, também a viver uma situação complicada, e com os meus irmãos que estão espalhados por vários países. É importante falarmos uns com os outros para saber as novidades. Somos muitos, mas bastante unidos", vinca.

Com a mulher e o resto da família que está em Portugal, José também fala sempre que pode porque “a saudade nestes casos parece que aumenta e o que me conforta é ouvir a voz deles.”

Também já foi imigrante na Alemanha. Com vários anos de Luxemburgo e mais alguns a trabalhar em Portugal, falta-lhe agora pouco tempo para se reformar. A atividade foi temporariamente suspensa por três meses pelo Governo, tempo que espera possa vir a ser reduzido.

“A interrupção está prevista inicialmente por três meses, mas espero que possamos começar mais cedo. Era importante em todos os aspetos. Para as empresas e a economia em geral, para o bem-estar dos trabalhadores que também regressavam à sua atividade e, no meu caso concreto, porque fui contratado por uma empresa de trabalho temporário. Numa situação destas, o caso é mais delicado. Eu ainda não sei, mas na maioria das vezes o nosso contrato é rescindido e não temos direito a subsídio de desemprego porque não chegamos a trabalhar os seis meses consecutivos necessários. O problema fica nas mãos da ADEM e às vezes leva mais tempo a resolver.”

 “Já enviei o formulário digital para acelerar os procedimentos do desemprego parcial, agora vamos ver como se resolve a situação nos próximos dias. Espero que tudo isto corra pelo melhor porque a situação está acomplicar-se em todos os aspetos e normalmente quem sai a perder são sempre os elos mais fracos do sistema", diz, encolhendo os ombros. "Haja saúde e que esta crise sanitária se resolva o mais depressa possível”, concluiu.

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