Escolha as suas informações

População revoltada com lixo radioativo belga às portas do Luxemburgo
Luxemburgo 7 min. 20.05.2020

População revoltada com lixo radioativo belga às portas do Luxemburgo

População revoltada com lixo radioativo belga às portas do Luxemburgo

Foto: AFP
Luxemburgo 7 min. 20.05.2020

População revoltada com lixo radioativo belga às portas do Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O governo do Grão-Ducado foi apanhado de surpresa e a ministra do ambiente apela à população para se manifestar contra. Governo, autarcas e Greenpeace mostram a sua revolta ao Contacto e apontam riscos sérios.

O Luxemburgo foi confrontado com a má surpresa, na semana passada, de que a Bélgica está a ponderar o armazenamento geológico de resíduos radioativos muito próximo da fronteira. A notícia foi dada pela ministra do Ambiente, Carole Dieschbourg, que convocou uma conferência de imprensa, dia 12, para manifestar ao país a sua indignação pelo facto do Governo do Luxemburgo não ter sido consultado, nem avisado, deste plano belga e que tudo iria fazer para que não fosse avante.

Esta atitude "pouco transparente" da Bélgica, como considerou Carole Dieschbourg, veio causar um mal-estar entre os governos dos dois países, com a Bélgica a defender-se e a acusar o Luxemburgo de estar a provocar um "incidente diplomático grave".

"Para o Luxemburgo não se trata de um incidente diplomático", garante ao Contacto o ministério do Ambiente, anunciando que as ministras do Ambiente do Luxemburgo e da Bélgica "estão já em contacto, trocando opiniões e pontos de vista" sobre este assunto tão sensível e com impacto no ambiente e saúde da população do Grão-Ducado. O próximo passo "será a troca de posições escritas sob a forma de carta", diz o ministério de Carole Dieschbourg.

Carole Dieschbourg, ministra do Ambiente do Grão-Ducado, considerou a atitude belga "pouco transparente" mas assegura que "para o Luxemburgo não se trata de um incidente diplomático".
Carole Dieschbourg, ministra do Ambiente do Grão-Ducado, considerou a atitude belga "pouco transparente" mas assegura que "para o Luxemburgo não se trata de um incidente diplomático".
Foto: SIP

Apesar de já estar em conversações com a homóloga belga, a ministra do ambiente do Grão-Ducado continua a defender que, nesta fase, é necessário a "realização de um estudo transfronteiriço da avaliação do impacto da eliminação geológica de grandes quantidades de resíduos nucleares" nos locais escolhidos pela Bélgica e apresentados na consulta pública. Avaliação essa que "ainda não foi efetuada".

Ao Contacto, o ministério recordou o perigo deste projeto belga com localizações tão próximas da fronteira: "O Luxemburgo partilha certas camadas geológicas com a Bélgica, pelo que um acidente poderia ter também um impacto potencial no Luxemburgo. Uma parte considerável das fontes de água potável do Luxemburgo provém da Bélgica. O risco transfronteiriço precisa, portanto, de ser estudado".

Até porque, como realça este ministério "os trabalhadores fronteiriços belgas que se deslocam entre a Bélgica e o estrangeiro estão tão preocupados com esta falta de transparência como os residentes dos dois países que vivem na região".

Mais uma vez, fonte do ministério reafirma que esta não é uma "guerra diplomática" com a Bégica: "O Estado luxemburguês é obrigado a informar os seus cidadãos, na devida forma, dos riscos potenciais à escala nacional. Não temos qualquer intenção de perturbar as relações de boa vizinhança com a Bélgica". Porém, o verniz já estalou e a prova foram as declarações da ministra da Energia e do Ambiente belga, Marie Christine Marghem, em resposta à conferência de Carole Dieschbourg. Para o Governo do Grão-Ducado, “ainda estamos longe” de pensar levar o caso a tribunal.

Todos contra o projeto

A verdade é que no Luxemburgo todos estão contra o projeto belga. Ninguém quer vir a sofrer os impactos do armazenamento nas camadas geológicas de resíduos radioativos de alta atividade às portas do Luxemburgo.

O plano belga saiu à luz do dia sob a forma de consulta pública transfronteiriça, realizada pela Ondraf, organismo nacional belga de resíduos radioativos. Este é um procedimento obrigatório em projetos desta natureza, tendo os cidadãos belgas, luxemburgueses e alemães, pois um dos locais fica também junto à fronteira da Alemanha, sido convidados a dar o seu parecer até dia 13 de junho.

Na conferência de imprensa, a ministra do Ambiente, Carole Dieschbourg, apelou aos "habitantes do Luxemburgo, associações, ONG e outras organizações" para se revelarem contra nessa consulta pública belga.

A governante defende que os belgas avançaram com o projeto "sem realizar estudos de impacto ambiental", o que é obrigatório e que um dos locais escolhidos fica muito próximo das "reservas de água potável do Luxemburgo". Se houver um acidente estas reservas irão ficar poluídas durante séculos.

A ministra belga Marie Christine Marghem defende-se declarando que "nenhum local de armazenamento para estes resíduos está ainda escolhido". Por seu turno, a ministra luxemburguesa criticou a forma como o projeto é apresentado, escolhendo-se os locais "sem se terem realizado estudos de impacto ambiental", o que vai contra as regras europeias.

Dos sete locais para armazenamento geológico, no subsolo, existem dois muito próximos da fronteira com o Luxemburgo e um num maciço que atravessa os dois países. A camada geológica de Gaume dista a apenas 5 km do Luxemburgo, os maciços de Stavelot, situam-se a 15 km e a camada geológica da sinclinal de Neufchâteau atravessa o Grão-Ducado. "São camadas geológicas que estão sob os nossos pés", como alertou a ministra luxemburguesa.

População de Wiltz preocupada

Franz Arndt, burgomestre da comuna de Wiltz declara ao Contacto que tal como ele a população que representa está "contra" o plano belga. "A nossa população fala sobre isso e têm-me manifestado essa sua posição", diz. Questionado sobre a hipótese da ministra do Ambiente o convidar a apoiá-la nesta luta contra o enterro de lixo radioativo nos locais eleitos pela Bélgica, o burgomestre de Wiltz disse logo que "aceitaria o convite".

Franz Arndt recordou que o Luxemburgo é um pequeno país com 82 km de comprimento norte-sul e 57 km de largura este-oeste. "Pequeno demais para estar rodeado de centrais nucleares e agora com armazenamento de depósitos radioativos à porta", frisou. "Os luxemburgueses são contra a energia nuclear. Somos contra o projeto belga que representa um risco para as nossas reservas de água potável, para o nosso meio ambiente e para a nossa saúde. É inaceitável", vinca este burgomestre.

Por isso, a solução para o caso passa pela Bélgica armazenar o lixo nuclear longe das fronteiras. "Porque não o fazem em Bruxelas?", questiona. E lembra que a "Alemanha também está contra. Também não quer estes resíduos no subsolo junto à sua fronteira", aliás, "todo o mundo está contra". "Se eu no meu jardim decidir colocar algo perigoso junto à cerca dos meus vizinhos como acha que eles vão reagir e como ficam as nossas relações?". Franz Arndt deixa a pergunta no ar.

Os riscos do armazenamento radioativo

"Existem muitos riscos e incertezas associados à eliminação geológica dos resíduos nucleares", alerta ao Contacto Roger Spautz, Nuclear Campaigner do Greenpeace França & Luxemburgo. "Os resíduos radioativos de alto nível e de longa vida (HLLW) devem ser armazenados, controlados e vigiados durante centenas ou mesmo milhares de anos. Alguns radioelementos têm uma semivida de vários milhares de anos. O plutónio-239, por exemplo, tem uma semivida de 24.110 anos", explica este ambientalista.

Como seria de esperar a Greepeace é totalmente contra o "projeto de eliminação geológica dos resíduos nucleares proposto pela Bélgica" e vai manifestar a sua posição na consulta pública, garante Roger Spautz. Contudo, este ambientalista considera esta consulta pública "uma farsa": "Os municípios belgas e os países vizinhos que podem ser afetados por este projeto não foram informados antes do lançamento da consulta". Nesta matéria, a Greenpeace Luxemburgo "está de acordo com a ministra Carole Dieschbourg", apela também para que "os municípios e os cidadãos se oponham a este projeto".

Desde 2016, ao abrigo de um contrato assinado com a Bélgica, que os resíduos radioativos do Luxemburgo, principalmente hospitalares são processados neste país vizinho. Tal facto já foi realçado por Benoît Piedbouef, deputado belga e burgomestre de Tintigny, que defende o plano do governo do armazenamento geológico do lixo desta natureza.

Para Roger Spautz, não existe comparação. "Os resíduos radioativos do Luxemburgo que são tratados e armazenados na Bélgica são resíduos de baixo nível e de vida curta. As quantidades são mínimas". Com a tomada de posição do país "vamos ver se a Bélgica vai rescindir contrato com o Luxemburgo". Esta é uma polémica que ainda vai dar muito que falar.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas