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"Poderemos ter que fechar todas as escolas, numa determinada região"
Luxemburgo 10 min. 16.09.2020

"Poderemos ter que fechar todas as escolas, numa determinada região"

"Poderemos ter que fechar todas as escolas, numa determinada região"

Foto:Lex Kleren
Luxemburgo 10 min. 16.09.2020

"Poderemos ter que fechar todas as escolas, numa determinada região"

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Mas só "em casos excecionais" e se todas as outras atividades em que os jovens se podem encontrar forem encerradas, diz o ministro da Educação, Claude Meisch em entrevista ao Contacto.

Como é que vai concretizar esse objetivo de “o máximo de oportunidades para a educação, o mínimo de oportunidades para o vírus” este ano letivo?

Construímos um plano de regresso às aulas, baseado na experiência que tivemos antes do verão. Em primeiro lugar, durante a fase do confinamento em que os alunos estiveram em casa, o que nos permitiu ter uma grande experiência com a aprendizagem à distância, com as ferramentas e os conteúdos digitais. Claro que não podemos dizer que, em regra, tudo funcionou bem, mas com base nessa experiência, neste momento, podemos prever a fórmula de aprendizagem à distância que poderá ser utilizada. Estamos preparados para proteger os alunos e os efetivos e queremos evitar que haja muitas crianças nas salas de aula. Em segundo lugar, fizemos uma experiência, sobretudo, nas últimas semanas, antes das férias escolares, em que todos os alunos voltaram às escolas e analisámos a evolução da covid-19 nos estabelecimentos de ensino e estruturas de acolhimento. É muito claro que, quando há um certo número de infeções na população, encontramos também infeções no meio escolar. Mas a maioria das infeções acontece em casa. Analisando todas as informações chegámos à conclusão que só cerca de 11% dos contágios têm origem na escola e cerca de 40% acontecem em casa.

Assim, a escola não é o local privilegiado para a contaminação com o vírus. O que resulta de todas as restrições e todas as medidas sanitárias que tomámos e que conseguiram minimizar o risco de infeção nas escolas.

Que medidas serão tomadas?

O risco de transmissão é muito mais baixo para os adolescentes e temos muito mais alunos por turma nos liceus do que na escolas primárias. Por isso tomámos medidas suplementares para os liceus. Por exemplo, introduzir a obrigação de uso da máscara. Agora damos a possibilidade de impor o uso da máscara também durante as aulas, se a escola assim o decidir. Se tivermos infeções detetadas nessa escola será imposto o uso da máscara, de acordo com um entendimento entre as autoridades de saúde e o Ministério da Educação. Existe uma segunda via: para os alunos adolescentes das classes do liceu, a partir da “quatriéme”, existe a possibilidade de reduzir o número de alunos por turma para garantir um distanciamento social na sala de aula. E o grupo de alunos que ficará em casa, vai acompanhar as mesmas aulas, através de um “streaming” da aula transmitido em direto.

E os alunos que não tiverem computadores?

Temos todas as instalações técnicas e os equipamentos, e encomendamos “tablets” e “laptops” suplementares para os casos em que haja jovens que não dispõem dos meios para seguir as aulas. Esses equipamentos informáticos serão disponibilizados pelo ministério da Educação.

Também temos uma certa experiência porque em muitos locais o sistema funcionou desta forma: muitos alunos vulneráveis que ficaram em casa e seguiram as aulas.

Podemos dizer que as escolas são lugares seguros?

Pusemos a questão: “Será que haverá um momento em que estaremos novamente numa situação de fechar a escolas, ou fechar parcialmente a escola, ou fazer com que os alunos passem a ter semanas alternadas em casa?” Atualmente podemos dizer que, se todas as outras atividades estão abertas – o comércio, os restaurantes, os locais público onde os jovens se podem encontrar, os locais em que fazem desporto, porque constatámos que as escolas são mais seguras e menos expostos ao covid-19 – não faz sentido fechar os estabelecimentos de ensino.

Estamos disponíveis para regressar a um sistema, em que o modelo de aprendizagem seja de semanas em alternância para reduzir os efetivos e o número de estudantes que circulam nas escolas e reduzir o risco de infeção. Mas isso só faz sentido se houver um “lockdown” parcial de outras atividades sociais e económicas do país. Não faz sentido deixar os restaurantes abertos e fechar as escolas. Deixar as associações desportivas receber jovens e fechar as escolas.

Poderá acontecer no Luxemburgo o que sucedeu em França em que dezenas de escolas foram encerradas, dias depois do arranque do ano letivo?

Claro que haverá casos positivos e que serão acompanhados diariamente. Temos definido com as instâncias sanitárias, a inspeção sanitária e a direção-geral da saúde, três cenários diferentes. O primeiro é o caso de uma infeção isolada: se um aluno é o único positivo da sua turma, do seu grupo de amigos e da sua escola. Neste caso se tivermos fortes indícios que a infeção foi contraída fora da escola, em casa, não faremos quarentena. Mas vamos isolar a classe, ou o grupo de alunos no interior da escola para evitar que haja uma transmissão desse grupo para outros alunos. Neste casos todos os alunos devem usar a máscara e serão testados. Se testarem negativo tudo voltará à normalidade.

Se os resultados forem positivos e passarmos a uma situação em que há vários casos na turma e se não soubermos, ainda, se a infeção se produziu no interior da escola – mas constatarmos que há vários casos num grupo de alunos que frequentam regularmente, à mesma hora, a cantina escolar ou que se encontram na biblioteca – nesse caso, a turma em causa será colocada em quarentena e os alunos serão testados. Em caso de resultado negativo poderão regressar à escola.

O terceiro cenário aplica-se quando houver uma suspeição forte que a infeção se produziu na escola. Nesse caso, é evidente que parte das turmas e, nesse caso,eventualmente uma parte da escola será colocada em quarentena.

E poderá ser colocada a totalidade da escola em quarentena?

Sim. Mas só em casos extremos a quarentena se aplicará a toda a escola. Se houver um círculo em volta de um caso positivo, seja aluno, seja professor, que esteja em contacto com toda a escola. Nesse caso todo o estabelecimento será colocada em quarentena. Não o podemos excluir, mas a regra geral é que, apenas uma ou parte das turmas sejam colocadas em quarentena e testadas. Todos os que tiverem resultado negativo poderão regressar à escola. Mas neste terceiro cenário decidiremos medidas suplementares.

Se tivermos a certeza que a infeção aconteceu no interior da escola ou estrutura de acolhimento, o caso será analisado uma comissão mista sanitária e educativa. Diariamente, todas as noites, será feita a análise dos estabelecimentos em que forem detetados casos positivos.

Que medidas suplementares poderão ser tomadas?

Poderemos impor o uso de máscara a todos os alunos na sala de aula. E quando tivermos uma suspeição que a infeção se deu na escola e informações sobre como aconteceu, por exemplo se soubermos que os alunos comiam juntos na cantina da escola esse espaço deverá ser encerrada. Ou impomos outras medidas sanitárias mais rigorosas. Se tivermos a certeza que a infeção aconteceu durante a prática de desporto, agiremos nessa direção. Se os casos se verificarem apenas numa turma, que têm um número de estudantes muito elevado (em regra geral temos um número máximo de 29 alunos por turma) podemos colocar uma parte dos alunos a acompanhar as aulas à distância. São medidas possíveis mas que serão aplicadas de uma forma ajustada. Essa é a grande mudança de paradigma relativamente à estratégia anterior aplicada antes das férias escolares. Porque nessa altura eram adotadas medidas idênticas para todas as situações. Constatámos que há uma repartição geográfica diferente dos vírus no país. E encontramos a mesma repartição geográfica nas escolas. É claro que na cidade do Luxemburgo e nas aglomerações urbanas, no sul do país, em que há muito mais casos positivos há mais contágios nas escolas do que noutras regiões mais rurais.

O que queremos é reduzir o funcionamento normal da educação, apenas onde haja de facto um problema.

O encerramento das escolas teve uma grande repercussão negativa nos alunos?

Nas semanas em que as escolas fecharam, houve estudantes que se adaptaram e trabalharam bem em casa, mas houve casos de alunos que perderam completamente o contacto com a escola. Por isso não queremos voltar a esse cenário em que deixamos os alunos trabalhar em autonomia, em casa. Queremos que estejam muito próximos da situação normal das aulas, no caso em que os alunos tenham que voltar a estar em casa. Para isso, com a ajuda das ferramentas digitais faremos uma transmissão da aula para casa dos alunos. E vamos permitir a esses alunos que participem através da plataforma “teams” e a plataforma de comunicação. Cada aluno terá direito à licença de utilização dessa ferramenta informática que poderá descarregar para o seu computador.

Todas as escolas têm os meios técnicos para o fazer?

Todas as escolas têm os meios técnicos para assegurar essas ferramentas. Neste caso, da transmissão das aulas em direto, falamos para os estudantes do liceu. Porque não vamos deixar os alunos do ensino fundamental em casa, com a idade de 8 a 10 anos, porque estes alunos mais novos não estão preparados para trabalhar em autonomia e à distância. Já um aluno, a partir dos 13 anos e até aos 18 anos, está bem preparado para trabalhar um determinado período de tempo em casa, em semanas alternadas. Nas semanas em que ficará em casa poderá seguir as aulas em direto. Porque não queremos que ele perca o contacto e o hábito das aulas. Perdemos muito no período do confinamento.

Neste momento, estamos noutra situação porque começamos um novo ano escolar. Não sabemos, ainda, se vamos garantir que possam trabalhar nas mesmas condições até ao fim do ano escolar. Mas não podemos regressar a uma situaação em que durante muitas semanas não há escolas e os alunos não frequentam as aulas.

Ter uma parte das aulas em casa é uma forma de aprofundar as desigualdades sociais...

Temos em conta todos esses problema. Se num período normal, sem restrições sanitárias, já temos essa desigualdade. Mas esta desigualdade que foi muito reforçada, durante o período do confinamento, em que muitos dos alunos que ficaram em casa, não tinham apoio das famílias. Por isso dizemos: mesmo que haja um aluno que deva ficar em casa, para reduzir os efetivos na escolas, ele estará presente durante as aulas à distância. Poderá ver o seu professor e pode colocar questões e ser questionado pelo professor. O docente pode conferir se ele está presente, participa e compreende o que diz o professor.

Não se pode garantir a mesma qualidade que estando presente na sala de aula. Mas com este sistema estamos muito próximos da realidade escolar normal. Assim, queremos garantir a mesma oportunidade de educação a todos os alunos, independentemente da sua origem familiar.

Foi definida alguma percentagem de casos nas escolas para fazer um “lockdown” total do sistema educativo?

Não excluímos um “lockdown” total ou parcial. Por exemplo poderemos ter que fechar todas as escolas, numa determinada região. Mas só quando todas as outras atividade também encerrarem. Não faz sentido fechar as escolas, se os alunos podem juntar-se no café. Não faz qualquer sentido fechar as escolas primárias, por exemplo, e os jovens poderem continuar a jogar futebol. Porque, temos a certeza que na escola temos regras e medidas sanitárias rigorosas e temos uma autoridade que controla se essas regras são, ou não, respeitadas e que pode mesmo sancionar os alunos que não as cumprirem. E isso não existe nas associações desportivas ou noutros espaços públicos em que os jovens se encontram. Por isso dizemos que o risco de uma infeção entre os alunos na escola é muito menor que anteriormente.

Um “lockdown” das escolas, encerramento parcial ou total das escolas poderá ser reaquacionado, mas só numa situação em que as outras atividades que juntam jovens sejam encerradas. Caso contrário será contra-producente. 

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