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Pode uma fotografia trazer o vento do Alentejo para o Luxemburgo?

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Pode uma fotografia trazer o vento do Alentejo para o Luxemburgo?

Pode uma fotografia trazer o vento do Alentejo para o Luxemburgo?

Pode uma fotografia trazer o vento do Alentejo para o Luxemburgo?


por Ricardo J. Rodrigues/ 11.02.2021

O fotógrafo luso-luxemburguês Daniel Fragoso passou o inverno a fotografar a costa alentejana. A sul, nos dias frios, encontrou uma absoluta sinceridade na paisagem e nas gentes. O seu olhar sobre o território mereceu destaque na imprensa portuguesa esta semana e estará, no próximo mês, em exposição no castelo de Bourglinster.

Quando voltou ao Luxemburgo em meados de janeiro, Daniel Fragoso decidiu tatuar nas costas da mão esquerda a palavra vento. Tinha passado as semanas anteriores no Alentejo e, se aquela tatuagem era uma ideia antiga, agora ela parecia fazer mais sentido do que nunca. “O vento é um elemento criador, que desarranja. E a costa alentejana tem uma força muito especial – é aquela solidão, é aquele silêncio. Aqui, mais do que falar de beleza, a conversa é sobre honestidade.”

Há vários anos que o fotógrafo de 35 anos anda a galgar os caminhos de terra batida do sul de Portugal. Mas, entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, descobriu uma outra versão de um território que se habituara a pensar como seu. “O inverno torna tudo diferente. Então eu quis olhar para as estranhas formas de vida que circulam nas dunas nesta altura do ano, para o cheiro específico que se sente quando se faz uma caminhada num dia frio, para aquele cenário bruto que está ali à espera de ser colhido.”

Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea

Na semana passada, a edição portuguesa da revista GQ deu destaque ao olhar de Daniel sobre o Alentejo, publicando-lhe um portfolio. E, no final de março, algumas destas imagens estarão também em exposição no castelo de Bourglinster.

“Em outubro do ano passado, eu e alguns amigos ganhámos um concurso público do governo luxemburguês para gerirmos um espaço cultural em Bourglinster”, explica. O Les Annexes, situado nas antigas cavalariças do castelo, acolherá residências artísticas, espetáculos de dança, exibições de artes plásticas, teatro. “E um dos primeiros eventos será uma exposição de fotografia chamada Entre ombre et lumière (Entre a sombra e a luz), que reunirá o trabalho de três artistas diferentes.

Christian Kieffer, um polícia de Bourglinster que pratica fotografia amadora é um deles. Outro é Luís Ayala, um colombiano de Medellin que é referência na street photzography. E depois Daniel, que assina os seus trabalhos com o cognome Black Magic Tea.

Este seu Alentejo, assegura ele, também estará pendurado nas paredes.

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Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea

Daniel nasceu em Niederkorn em 1985, e foi aqui que passou toda a sua vida. O pai fugiu a salto de Leiria quando tinha 18 anos, mais tarde juntou-se-lhe a mãe. “Sou fruto da típica primeira geração de emigrantes portugueses”, conta agora no seu estúdio em Differdange. “O meu pai trabalhou na construção civil e depois foi mecânico, a minha mãe foi mulher de limpeza e os dois esforçaram-se seriamente para dar aos filhos oportunidades melhores do que aquelas que eles tinham tido.”

Quando era miúdo, gostava de andar atrás do pai, que andava sempre de câmara de filmar na mão a documentar as festas na associação portuguesa local. “Agora à distância penso que isso pode ter tido alguma influência no caminho que escolhi”, diz Daniel. Mas também tem de admitir que os seus interesses não eram exclusivamente fotográficos. “Eu gostava de tudo o que eram artes. Lembro-me de ficar horas a olhar para as fotos que faziam capas dos CDs, sobretudo aquelas que tinham mais grão, que não mostravam, antes induziam. Penso que é isso que gosto de fazer hoje no meu trabalho.”

Foto: Daniel Fragoso/Black Magic Tea

Os Velvet Underground, os Pink Floyd ou os The Gift apresentavam nos álbuns imagens de luz trabalhada, que mexiam com ele. Quando chegou ao liceu, optou pela área de artes, e começou a fotografar mais regularmente. Era esse o caminho que gostava de ter seguido. “O meu professor no liceu queria recomendar-me para o Royal College, em Londres, mas era demasiado caro ir estudar para fora. Ainda pensei ir para a Bélgica, porque era mais acessível, mas não havia a oferta específica para aquilo que eu queria.” Arranjou emprego num escritório de advogados e especializou-se na área de direito financeiro, como paralegal (assistente de advogado). “Fiquei 12 anos nessa vida, mas havia qualquer coisa que nõ me deixava satisfeito”, conta.

Ao fim de cinco anos, começou a pegar na câmara, tirar fotos e o seu objeto de eleição era a sua cadela, Zola. “Um dia mandei uma foto dela para um concurso que a Nikkon do Benelux estava a promover e ganhei o prémio de uma das melhores fotos do ano. Isso deixou-me a pensar que era a fotografia que me fazia feliz. E, um dia, tomei a minha decisão.”

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Foi também em 2015 que conheceu Adriana, com quem haveria de se casar. Uma alentejana de Sines que no ano seguinte o levou a conhecer um território novo. “A minha família é da zona da praia de Vieira de Leiria. Sempre gostei de Portugal, mas as viagens serviam sobretudo para visitar a família, estar com primos que também tinham emigrado, e na verdade não tinha muitos amigos que vivessem ali.”

No verão de 2016 aterrou em Sines e foi direto ao Festival de Músicas do Mundo. Apaixonou-se imediatamente pela terra, pela energia, pelas pessoas do litoral alentejano. “A minha avó era uma fadista amadora e, quando era miúdo, ela levava-me às matanças do porco, aos lavadouros públicos onde as mulheres ficavam horas à conversa, a um Portugal autêntico que eu julgava estar perdido. E no entanto ali estava ele outra vez, na terra da mulher que amava.

Em 2018 decidiu largar tudo e entregar-se definitivamente à sua paixão fotográfica. Tem trabalhos corporativos, outros na área da moda, alguns de linguagem mais artística. E um Alentejo inteiro onde há de sempre voltar.

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