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PISA. Luxemburgo continua a ser mau aluno e tem pior nota de sempre
Luxemburgo 7 min. 04.12.2019

PISA. Luxemburgo continua a ser mau aluno e tem pior nota de sempre

PISA. Luxemburgo continua a ser mau aluno e tem pior nota de sempre

Photo: Shutterstock
Luxemburgo 7 min. 04.12.2019

PISA. Luxemburgo continua a ser mau aluno e tem pior nota de sempre

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
Governo continua a dizer que o estudo da OCDE não reflete a realidade do sistema de ensino do país, mas reconhece os desafios. Mudar a via preparatória, aumentar a oferta linguística nas escolas e melhorar a orientação escolar são algumas das soluções que serão colocadas em marcha.

O Grão-Ducado voltou a desiludir nos testes PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos – que põem à prova estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. Significa que o Luxemburgo ficou abaixo da média da OCDE em todas aquelas matérias. Além de ficar abaixo da média, há outro fator alarmante: tratam-se dos piores resultados do Luxemburgo desde que os testes começaram a ser feitos, em 2000. Nunca as pontuações foram tão baixas. O Governo explicou,ontem, os resultados em conferência de imprensa. A heterogeneidade de nacionalidades no país e o multilinguismo explicam os resultados. Para o Executivo mantém-se a intenção de participar em menos estudos PISA.

O estudo divulgado, esta terça-feira, é feito de três em três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). A edição de 2018 avaliou cerca de 600 mil alunos de 15 anos de 79 países. O relatório deste ano centrou-se sobretudo na leitura, mas a matemática e ciências também foram avaliados. Concretamente, no Luxemburgo participaram 5.230 alunos de 44 escolas.

No que à leitura diz respeito, o Luxemburgo conseguiu 470 pontos, abaixo da média de 487 pontos da OCDE e abaixo da pontuação de quase todos os países europeus. Em ciências, o cenário repete-se: 477 pontos para os alunos do Grão-Ducado, menos do que os 487 da OCDE e um dos mais baixos entre os europeus. A matemática, os estudantes no Luxemburgo conseguiram 483 pontos, também abaixo dos 489 da média dos 79 países que entraram no estudo.

Os resultados de 2018 foram mesmo os piores de sempre e ficam também abaixo dos conseguidos por Portugal e pelos países de fronteira, Alemanha, Bélgica e França. A Bélgica destaca-se na matemática, com uma pontuação de 508 e a Alemanha, nas ciências, com 503 pontos.

Alunos com background imigrante são a maioria

O relatório PISA faz também a ligação entre a performance dos estudantes e o seu background socioeconómico e migrante. Conclui-se que, em geral, os alunos com um contexto socioeconómico menos vantajoso têm mais dificuldades na escola. O mesmo é verdade para os estudantes com background imigrante, embora esta relação seja menos forte.

No ano passado, 55% dos estudantes de 15 anos tinha um background imigrante, uma subida muito significativa face aos 40% registados em 2009. Este foi o maior aumento verificado entre os países que participaram no PISA. Só no Canadá, Qatar, Sérvia, Suíça e Reino Unido é que a percentagem de alunos imigrantes subiu mais de 10 pontos percentuais entre 2009 e 2018.

No Luxemburgo, entre aqueles 55% de alunos imigrantes, três em oito tinham dificuldades socioeconómicas, valor que está dentro da média da OCDE. Aqueles alunos têm mais dificuldades no desempenho na escola do que os não-imigrantes. É o que acontece na leitura, em que há uma diferença de 35 pontos a favor dos não-imigrantes. Ainda assim, a diferença fica abaixo dos 44 pontos da média da OCDE. O estudo conclui ainda que os imigrantes de primeira-geração têm um desempenho mais elevado do que os de segunda geração (na leitura). Os primeiros conseguiram 461 pontos e os segundos ficaram-se pelos 450. Já os não-imigrantes obtiveram uma classificação de 491 pontos. No entanto, apesar da diferença, o desempenho dos estudantes imigrantes melhorou entre 2009 e 2018.

O estudo perguntou ainda se os estudantes se sentiam bem com a sua vida. A maioria – 68% – afirmou sentir-se bem (contra 67% da média da OCDE). No entanto, o relatório conclui que os alunos imigrantes tinham menos probabilidade de dizer que estão satisfeitos com a sua vida quando comparados com os colegas não-imigrantes (65% e 74%, respetivamente).

Outra das conclusões do relatório PISA diz respeito à ligação entre o contexto socioeconómico e os resultados. A relação é mais forte no Luxemburgo do que em qualquer outro país: estudantes de meios mais favorecidos ultrapassaram os mais desfavorecidos. Na leitura, a diferença chegou mesmo aos 122 pontos. A tendência também é visível nos outros países estudados, mas a diferença é menor, de 89 pontos. Além disso, no Grão-Ducado, apenas 8% dos estudantes em desvantagem conseguem resultados acima da média. Só na Bulgária, Perú e Emirados Árabes Unidos havia uma proporção tão baixa dos chamados alunos academicamente resilientes.

São também os alunos com um contexto socioeconómico mais desfavorecido que revelam ter menores ambições do que o esperado face aos seus resultados escolares. No Luxemburgo, um em cada três alunos desfavorecidos com bons resultados escolares não espera terminar a universidade. A proporção é de um em sete alunos com um bom contexto socioeconómico e com bons resultados escolares.

Os resultados vistos pelo Governo e as soluções para o problema

O Executivo explicou ontem em conferência de imprensa os resultados dos testes e questiona a mais-valia das avaliações no caso concreto do Luxemburgo. À margem da conferência, o conselheiro do Governo, Lex Folscheid, afirmou que o estudo não tem em conta o sistema de ensino luxemburguês, a heterogeneidade do país, nem o multilinguismo. Apesar disso, o Grão-Ducado foi o único país que pode escolher a língua dos testes, isto é, os alunos puderam optar entre o francês e o alemão, o que não aconteceu com outros países. No entanto, para Folscheid mantém-se o problema, uma vez que o teste não permite passar de uma língua para a outra consoante as matérias avaliadas. “Temos aí uma desvantagem”, afirmou.

Questionado pelo Contacto sobre o facto de os resultados serem os piores de sempre, Lex Folscheid, preferiu notar o caráter estável dos mesmos desde 2009, referindo-se ao facto de a população de alunos com background migratório ter aumentado de 40%, para 55%. Na nota entregue aos jornalistas pode ler-se que “o PISA não tem em conta o impacto desta mutação rápida do contexto sociodemográfico e torna difícil a interpretação da evolução real das competências [dos alunos]. A mais-valia do estudo PISA é, por isso, limitada para o Luxemburgo”. Isto apesar de, no início da mesma nota, se reconhecer que “o estudo fornece informações preciosas sobre a eficácia dos diferentes sistemas educativos”.

Contudo, o Executivo admite que o estudo PISA confirma os desafios do ensino luxemburguês como a dificuldade em gerir a heterogeneidade social e cultural dos alunos. O conselheiro governamental, Lex Folscheid, explicou que as diferenças na performance dos alunos não aparecem aos 15 anos, surgem mais cedo, logo aos nove anos, pelo que as mudanças do sistema de ensino têm de ser introduzidas mais cedo.

Entre outras soluções, Folscheid sublinhou a necessidade de alterar a via preparatória – o nível de ensino que acolhe os alunos com maiores dificuldades. Em 2020-2021, o Ministério da Educação vai lançar um plano de ação para oferecer aos alunos um ensino mais personalizado. O objetivo é que mais alunos deste nível de ensino se juntem a turmas mais exigentes. Por outro lado, pretende-se aumentar as secções linguísticas na escola pública luxemburguesa e o acolhimento dos alunos recém-chegados será revisto. O responsável frisou ainda a necessidade de melhorar a orientação escolar, para que seja personalizada consoante as capacidades específicas de cada aluno.

Estereótipos nos bancos da escola

O PISA aborda ainda as diferenças entre as expectativas entre rapazes e raparigas. A escola luxemburguesa é ainda palco de estereótipos de género. O relatório concluiu que as ambições de carreira refletem alguns preconceitos, apesar de as raparigas ultrapassarem os rapazes em termos de avaliação. Por exemplo, um em cada quatro alunos do sexo masculino espera trabalhar como engenheiro ou na área das ciências quando tiver 30 anos, enquanto o mesmo é válido apenas para uma em cada sete raparigas. Da mesma forma, entre os melhores alunos, uma em cada quatro raparigas pretende trabalhar na área da saúde; a proporção cai nos rapazes, com um em cada dez. E só 8% dos estudantes do sexo masculino e 1% do sexo feminino esperam trabalhar em tecnologias da informação.

Menos PISA

A decisão já não é nova e já tinha sido anunciada pelo ministro da Educação, Claude Meisch. O Luxemburgo vai passar a participar menos nos testes PISA da OCDE. De acordo com a nota do Ministério da Educação, “uma vez que a mais-valia dos estudos nacionais permite um retorno mais direcionado do que o PISA, não é necessário participar em cada ciclo do PISA”. Assim, para o Governo será mais adequado participar de seis em seis anos e não de três em três. Dado o novo prazo, a próxima participação do Grão-Ducado será em 2024.


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