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Petição a favor do multilinguismo diz que português devia ser mais valorizado
Luxemburgo 5 min. 02.11.2016 Do nosso arquivo online

Petição a favor do multilinguismo diz que português devia ser mais valorizado

A língua luxemburguesa deu origem a uma guerra de petições

Petição a favor do multilinguismo diz que português devia ser mais valorizado

A língua luxemburguesa deu origem a uma guerra de petições
Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 5 min. 02.11.2016 Do nosso arquivo online

Petição a favor do multilinguismo diz que português devia ser mais valorizado

A língua luxemburguesa despoletou uma guerra de petições. Uma nova petição apresentada no Parlamento reclama a preservação do multilinguismo e defende que o português também "devia ser mais estudado na escola".

Não. É essa a resposta que o autor da petição n° 725 quer que os deputados deem à petição n° 698, que exige que o luxemburguês passe a ser a primeira língua administrativa no país, à frente do alemão e do francês. Um ataque ao multilinguismo e aos estrangeiros, acusa o autor da nova petição, aberta a assinaturas desde 25 de outubro.

Para Joseph Schloesser, que assina a proposta, o multilinguismo é necessário para atrair empresas e trabalhadores estrangeiros. "O nosso país sempre teve e sempre terá uma grande necessidade de mão de obra estrangeira", afirma, frisando que os trabalhadores fronteiriços e os residentes estrangeiros representam “quase 72% da população ativa, contra 28% dos luxemburgueses”. "É do nosso interesse acolher estas pessoas nas melhores condições", defende. Para isso, "é essencial" usar "uma linguagem compreensível por todos".

Schloesser denuncia ainda a petição rival por fomentar o nacionalismo e a xenofobia, e diz que "é preciso que este tipo de comportamento não alastre".

A petição n° 698, apresentada em meados de setembro, reacendeu o debate sobre as línguas e a identidade nacional, reavivando as tensões que surgiram durante o referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, em 2015.

A polémica levou mesmo o ministro da Educação a intervir, considerando que a petição representa um ataque à língua francesa. Para acalmar os ânimos entre os que defendem que o luxemburguês está em perigo, Claude Meisch propõe que o idioma venha a ser língua oficial na UE (uma proposta que ainda não foi feita a Bruxelas). O ministro também anunciou que no futuro o luxemburguês vai passar a ser obrigatório nos estabelecimentos de ensino privado no país, incluindo na Escola Europeia. O anúncio foi feito a 24 de outubro, em resposta a uma questão parlamentar do ADR, conhecido pelas posições nacionalistas.

Mas o autor da nova petição acha que não há razão para alarme e que o luxemburguês não está em perigo. Em vez disso, Schloesser teme que o reforço do idioma nas escolas se faça "em detrimento das outras línguas" oficiais, e defende mesmo a valorização da língua portuguesa. " O português merecia, igualmente, ser mais estudado na escola. É a sexta língua mais falada no mundo, com mais de 270 milhões de falantes, e há mais de 93 mil portugueses (16,3%) que vivem entre nós", afirma Schloesser.

O português merecia, igualmente, ser mais estudado na escola. É a sexta língua mais falada no mundo, com mais de 270 milhões de falantes, e há mais de 93 mil portugueses (16,3%) que vivem entre nós.

"Traição"

A iniciativa já lhe valeu acusações de traição. Num comentário à petição, no fórum do portal da Câmara dos Deputados, o nacionalista Pierre Peters – condenado pelos tribunais por distribuir folhetos que tinham por alvo os estrangeiros, incluindo portugueses – diz que "o Luxemburgo sempre teve traidores e colaboracionistas".

Mas a proposta também já recolheu o apoio de algumas personalidades no país. É o caso de Alain de Muyser, antigo embaixador do Luxemburgo em Lisboa, que partilhou a petição na rede social Facebook para defender a "multiculturalidade linguística".

A petição n° 725 recolheu até agora cerca de 1.600 assinaturas, mas ainda está longe da petição rival, que conseguiu mais de 14 mil. A proposta tem de conseguir 4.500 assinaturas até 6 de dezembro para ser discutida no Parlamento.

Paula Telo Alves

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O que diz a petição n° 725

"'Não' à língua luxemburguesa como primeira língua oficial em matéria administrativa e judicial"

"Devemos, tal como sempre fizemos, continuar abertos aos outros, em vez de nos fecharmos. O nosso país sempre teve e sempre terá uma grande necessidade de mão de obra estrangeira. Estes trabalhadores residentes e fronteiriços representam atualmente quase 72% da população ativa, contra 28% de luxemburgueses. Devemos, e é no nosso interesse, acolher estas pessoas nas melhores condições. É essencial que o contacto se faça numa língua compreensível por todos e que os formulários administrativos e outros documentos oficiais sejam redigidos numa das três línguas obrigatórias ensinadas na escola."

"É verdade que os trabalhadores estrangeiros precisam de nós, mas não é menos verdade que nós precisamos deles."

"É preciso condenar, de forma muito firme, as declarações populistas, nacionalistas e, em alguns casos, xenófobas, que alguns indivíduos infelizes fizeram aos media. São apenas alguns, mas já são demasiados, e é preciso que este tipo de comportamento não alastre."

"Foi graças ao nosso multilinguismo que os nossos governantes conseguiram manter o nosso país numa prosperidade que é ainda recente. O futuro não se anunciava prometedor quando o último dos altos-fornos em Esch-Belval foi fechado em 1993. Felizmente empresas como a Good-Year e mais de uma centena de bancos foram, entre outros, seduzidos pelo nosso multilinguismo e instalaram-se aqui."

"Aprender o luxemburguês na escola, mas onde irão os alunos arranjar tempo? Será em detrimento de uma das outras três línguas obrigatórias? Até porque a língua luxemburguesa será claramente mais difícil de estudar, ensinar e memorizar."

"O português merecia, igualmente, ser mais estudado na escola. É a sexta língua mais falada no mundo, com mais de 270 milhões de falantes, e há mais de 93.000 portugueses (16,3%) que vivem entre nós."

"O luxemburguês que era falado há 150 anos não é comparável ao que falamos hoje em dia. Entretanto ganhou tantas palavras estrangeiras que os nossos antepassados não perceberiam grande coisa. E é muito provável que a língua dos nossos compatriotas, dentro de 150 anos, venha a ser incompreensível para nós. Uma língua vive enquanto for falada. Quem pode, por isso, acreditar que a língua luxemburguesa está 'condenada' a desaparecer? A nossa língua evolui e metamorfoseia-se. Só desaparecerá [quando desaparecer] o último luxemburguês, e isso não está para breve. Então, porquê este alarmismo?"


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