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Peste de água. O terror dos banhistas continua sem fiscalização no Luxemburgo
Luxemburgo 1 6 min. 17.08.2018 Do nosso arquivo online

Peste de água. O terror dos banhistas continua sem fiscalização no Luxemburgo

Um dos mergulhadores do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança, coberto de "wasserpest", a planta que infesta o lago de Remerschen. A foto foi tirada em 29 de julho, durante o resgate do corpo de um búlgaro de 53 anos do lago onde um mês antes morreu o rapper português Puto G.

Peste de água. O terror dos banhistas continua sem fiscalização no Luxemburgo

Um dos mergulhadores do Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança, coberto de "wasserpest", a planta que infesta o lago de Remerschen. A foto foi tirada em 29 de julho, durante o resgate do corpo de um búlgaro de 53 anos do lago onde um mês antes morreu o rapper português Puto G.
Foto cedida ao contacto pelo Corpo Grão-Ducal de Incêndio e Segurança (CGDIS)
Luxemburgo 1 6 min. 17.08.2018 Do nosso arquivo online

Peste de água. O terror dos banhistas continua sem fiscalização no Luxemburgo

A "wasserpest" (literalmente, peste de água), uma planta aquática que chegou à Europa em 1836 e se espalhou em lagos e rios, é um risco conhecido para os banhistas, prejudicando também os desportos aquáticos e a pesca. Em Portugal, a sua propagação na natureza dá direito a multa. No Luxemburgo não está classificada como espécie invasora, e o Governo não tem um plano para impedir a sua propagação no lago de Remerschen e prevenir os riscos de afogamento.

Veio do Canadá no séc. XIX e espalhou-se como uma praga. A "Elodea Canadensis", conhecida na Alemanha por "wasserpest" (literalmente, "peste de água"), chegou à Irlanda em 1836. Em 1859, tomou Berlim: cultivada em jardins botânicos, espalhou-se rapidamente às águas circundantes. "De lá, os canais fluviais do Havel e do Oder foram rapidamente atingidos", segundo a Agência Federal Alemã para a Conservação da Natureza.

A rápida expansão da "praga de água" levou o poeta e ecologista alemão Hermann Lons a lançar o alerta, logo em 1910. Publicado no jornal Hannoversche Tageblatt, o aviso assume contornos de profecia bíblica, parafraseando o Apocalipse: "E ouviu-se terrível choro e ranger de dentes, porque não parecia longe o dia em que todas as águas interiores da Europa estivessem cheias de ervas. Não mais seria possível conduzir barcos, nem as pessoas poderiam banhar-se, nem os patos, e mais nenhum peixe poderia nadar".

Desde então, a "Elodea Canadensis" espalhou-se por vários cursos de água doce por toda a Europa, levando alguns países a definir medidas para controlar a sua proliferação. Teve uma fase de declínio, mas continua a ser uma espécie controlada em vários países. Em Portugal, o Decreto-lei n. 565/99, de 21 de Dezembro (que proíbe de forma genérica a introdução de espécies invasoras não indígenas na natureza) classifica a "Elodea Canadensis" como invasora e estabelece multas para quem contribua para a sua propagação. O diploma, que está atualmente a ser revisto, segundo o site do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas,  considera que a medida é necessária para lutar contra a predação de espécies nativas, e inclui a "Elodea Canadensis" nas plantas que podem ter "consequências a nível económico e de saúde pública, com prejuízos irreversíveis e de difícil contabilização". O decreto-lei também prevê "um plano nacional" de controlo ou "erradicação" que abrange a planta, designada também em Portugal por "estrume-de-água", sendo responsáveis o Ministério do Ambiente, Agricultura e Pescas.

No Grão-Ducado, a planta infesta o lago de Remerschen, aponta um relatório do Ministério do Ambiente de 2011, que considera no entanto que as medidas de controlo adoptadas pela autarquia são adequadas. Apesar disso, elas crescem e são "um risco conhecido de afogamento". As plantas aquáticas dificultaram mesmo o avanço do barco salva-vidas da proteção civil, no caso do resgate da vítima com nacionalidade búlgara, um mês depois da morte de Puto G no mesmo local. Num caso e noutro, obrigaram os mergulhadores a mudar a forma habitual das buscas. "Normalmente pomos uma bóia no local em que a pessoa foi vista e começamos a procurar em círculos em torno dela, prolongando os círculos a cada passagem. Mas com estas plantas aquáticas, não conseguimos passar, as cordas prendem-se nas plantas", explicou ao Contacto o chefe dos mergulhadores da proteção civil, numa reportagem publicada em 2 de agosto. A solução foi mudar de estratégia. "Agora temos outra tática: usamos uma barra que é arrastada pelos bombeiros ou por um barco", explicou Roland Disisvicour. O responsável apontou também que, quer no caso do rapper português Puto G, quer no caso do búlgaro, os corpos foram descobertos envolvidos em algas, sublinhando no entanto que o fundo do lago está coberto por estas plantas e que não é possível determinar se foram estas que provocaram os acidentes, cujas causas não são ainda conhecidas.

Aos amigos do 'rapper português' também terá sido dito que as plantas poderiam ter estado na origem da morte do músico, tal como o Contacto noticiou em 16 de agosto.

O Luxemburgo só adotou legislação sobre estas espécies não indígenas em junho deste ano, para transpor uma diretiva europeia. Olaf Munichsdorfer, responsável de gabinete no Ministério do Ambiente do Luxemburgo, disse no entanto ao Contacto que "a lista europeia não definiu a espécie 'Elodea Canadensis' como invasora" e que "os Estados-membros não são obrigados a adotar medidas contra esta planta". Mas podem fazê-lo: a diretiva prevê a possibilidade de os países criarem uma "lista suplementar" que inclua outras espécies. Segundo a mesma fonte, esta lista ainda não existe, nem se sabe se virá a incluir a 'wasserpest'. A lista "está a ser elaborada com base nos critérios de 'perigo ecológico, económico e de saúde'", explicou ao Contacto. "O critério da segurança não entra pois em jogo", acrescentou, até porque, diz o Ministério do Ambiente luxemburguês, "a planta não é tóxica em si".

É verdade que a planta "não é tóxica em si", mas a sua perigosidade para os humanos depende, como é óbvio, do local em que cresce e da sua concentração. Se num lago que não é usado como zona de banhos a planta pode ser até benéfica, purificando a água, em zonas balneares já provocou afogamentos, parou motores de barcos de recreio e tornou impossível a prática de desportos aquáticos. Tanto a 'Elodea Canadensis' como a sua irmã mais nova, 'Elodea Nuttallii', fazem "jus ao nome 'praga de água': desenvolvem-se rapidamente e formam verdadeiras 'florestas debaixo de água'", podendo crescer até três metros, apontam vários estudos consultados pelo Contacto.

Os vídeos 360 não têm suporte aqui. Ver o vídeo na aplicação Youtube.

O Ministério do Ambiente deixou no entanto um aviso à autarquia de Schengen, responsabilizando-a pelos danos provocados pela incúria no controlo destas plantas: "Recordo que a autarquia deve assegurar a segurança no acesso à piscina [sic] de Remerschen".

Quando o Contacto questionou o vereador responsável pelo lago, Tom Weber, sobre os perigos de afogamento em locais infestados com a 'wasserpest', após a segunda morte no espaço de um mês, o edil não reconheceu o seu nome popular e negou que o lago tivesse essa planta. "Não temos isso, temos algas". Mas também não soube dizer qual é o nome científico das algas que infestam o lago, limitando-se a repetir que a autarquia usa um barco-cortador "todos os dias" para controlar a sua propagação. O problema é que o corte promove a sua proliferação, segundo os especialistas - a planta multiplica-se por dispersão dos caules -, e só é feito a metro e meio de profundidade. Abaixo desse nível, e nos locais em que o barco-cortador não passa, é uma selva.

É pouco provável que a autarquia venha a tomar medidas para controlar a praga de forma a garantir a segurança dos banhistas, como sugere o Ministério do Ambiente, já que os responsáveis não parecem saber nada sobre a espécie. No Biodiversum, o centro de acolhimento da reserva natural onde fica situado o lago de Remerschen, também não foi possível encontrar um biólogo que conhecesse a planta, tendo o centro informado o jornal que os biólogos que estudam aquela zona "se dedicam sobretudo ao estudo da fauna local".

Paula Telo Alves