Personalidade 2018 do Luxemburgo: O filho do senhor Braz
O ecologista de 52 anos, filho de imigrantes portugueses que chegaram ao Luxemburgo nos anos 1960, tem sido o primeiro lusodescendente em todos os cargos políticos que exerceu. Foi o primeiro vereador e o primeiro deputado – e até hoje o único – de origem portuguesa no país. Foi eleito pela primeira vez para a Câmara dos Deputados em 2004, com 38 anos. Em dezembro de 2013, tornou-se também no primeiro lusodescendente a assumir o cargo de ministro no Luxemburgo, para mais com a pasta da Justiça, um dos setores em que foram feitas mais reformas no último mandato, a começar pela lei da nacionalidade.
Félix Braz é um político pragmático, e essa capacidade de fazer consensos e reformas foi premiada nas eleições pelos luxemburgueses. Assume esse pragmatismo sem complexos: “Há partidos que estão à espera dos amanhãs que cantam e das revoluções. Mas os Verdes são um partido democrático que quer fazer as reformas conquistando a maioria das pessoas. A participação num governo de coligação não muda em nada as nossas convicções. Não há nenhuma razão para não o fazer. Somos um partido democrático mas altamente pragmático."
"O que nos interessa é fazer o máximo de coisas. Fazer compromissos de governação não muda em nada as nossas convicções. E quando fazemos compromissos, os nossos parceiros também o fazem. Fazem as mesmas cedências que nós fazemos para nos ter a governar com eles. Fazer compromissos é algo de digno, desde que faça avançar as coisas", disse numa entrevista antes das eleições ao Contacto.
Acresce, a essa capacidade, o facto de ser um lusodescendente que tem uma forte relação afetiva com a comunidade portuguesa desde sempre, até por questões de família. Isso nota-se quando lembra os seus pais: “A vida inteira do meu pai cá teve alguma coisa a ver com conduzir: foi ’chófer’ de autocarro, foi aliás o primeiro que fez uma viagem de autocarro Luxemburgo-Portugal. Não digo o nome da companhia, que ainda existe, mas na altura o patrão aproveitou a presença de um português com carta de condução de autocarros para ter essa ideia: ’E se fizéssemos uma viagem Luxemburgo-Portugal?’.
Foi motorista de camião numa empresa de cimento, em Esch, e motorista de entregas numa empresa que vendia bebidas. E, finalmente, foi instrutor numa escola de condução, e ajudou milhares de portugueses a tirar a carta. Ainda hoje, quando vou a Esch – ainda hoje fui, com o meu ’chófer’, também de origem portuguesa, costumamos ir uma ou duas vezes por semana almoçar a um restaurante português –, e quando lá vou, essa geração que já cá está há mais tempo, quando falam de mim, não dizem ’o ministro’, dizem ’o filho do Braz’. A referência para eles continua a ser o meu pai. Ele é que ajudava as pessoas a tirar a carta, e esses ainda hoje dizem ’o filho do Braz’. E a minha mãe, enquanto trabalhou, era costureira numa loja que fazia cortinas, em Esch”, contou numa entrevista ao contacto, após tomar posse como vice-primeiro-ministro.