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Perigo na Gare
Luxemburgo 6 min. 17.11.2021
Capital

Perigo na Gare

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Perigo na Gare

Foto: António Pires
Luxemburgo 6 min. 17.11.2021
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Perigo na Gare

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Há queixas de mulheres vítimas de agressões sexuais nos transportes públicos da capital. Os assaltos violentos no bairro da Gare e Bonnevoie aumentam e com eles cresce o medo da população. É urgente tomar medidas, e ouvir os cidadãos, diz ao Contacto a conselheira comunal Ana Correia da Veiga.

A Gare é o bairro mais perigoso e com pior reputação do Luxemburgo. Sempre o foi, mas agora a situação está a tornar-se muito grave, e é altura de agir para que residentes e quem por lá passa diariamente se sinta mais seguro, defende Ana Correia da Veiga, a conselheira comunal do Déi Lénk.

Esta é a grande batalha da afro-lusodescendente de 38 anos, nascida no Luxemburgo, e que ocupa este cargo desde há um ano."Estamos a assistir a um aumento dos assaltos na via pública com violência e cada vez mais as pessoas se sentem inseguras e têm medo, sobretudo de sair à noite nos bairros da Gare e em Bonnevoie", frisa relembrando os resultados das duas sondagens realizadas em fevereiro sobre a segurança nestes dois locais da capital.

Foto: António Pires

Oito em cada 10 cidadãos considera que necessário agir para aumentar a segurança no bairro da Gare, e mais de 4 em 10 pessoas já passaram por situações concretas em que não se sentiram seguros, revela a sondagem da Quest encomendada pela câmara da capital. Também o inquérito da TNS-Ilres encomendado pelo Ministério do Interior revelou que 82% dos cidadãos interrogados temem pela sua segurança, neste bairro.

Somos contra o patrulhamento por agentes privados, além de que questionamos a legalidade destes contratos.

Ana Correia da Veiga, conselheira comunal na Cidade do Luxemburgo

Temores que levam 82% dos habitantes da Gare e 72% dos de Bonnevoie a evitar certos locais dos seus próprios bairros. Os boletins policiais mostram que é raro o dia em que não sucedem assaltos a transeuntes no centro da capital. Ainda este fim de semana, ocorreram dois roubos com violência, envolvendo grupos de assaltantes e armas brancas.


Gare. Jovem espancado por negar oferecer dinheiro e um cigarro
O agressor fugiu e ainda não foi encontrado, tendo sido aberto um inquérito.

Um aconteceu às 3h00 da manhã de domingo passado, quando um jovem se recusou a dar um cigarro e o dinheiro tendo o assaltante agredido a vítima na Gare, reportou a polícia. Sábado à tarde, em pleno dia, um grupo ameaçou seriamente a vítima com uma faca para lhe levar o telemóvel, na rua Semois. Nos dois casos, os ladrões fugiram.

Medidas contra o perigo

Para a conselheira comunal do Déi Léink é possível devolver o sentimento de segurança a quem vive, passa ou trabalha nestes bairros. As soluções são várias e têm de ser desencadeadas em conjunto."Mais policiamento nas ruas, com rondas a pé e de bicicleta pois são mais eficazes do que nas viaturas, mais iluminação e espaços abertos e visíveis" são duas das medidas mais imediatas que devem ser tomadas. Para Ana Correia da Veiga a situação piorou desde que encerraram a esquadra principal nesta zona e a mudaram para mais longe. "A saída da esquadra enfraqueceu a zona da Gare", defende a afro-lusodescendente.

Foto: António Pires

Outro ponto assente é que o patrulhamento tem de ser feito pela polícia Grã-ducal e não por empresas de segurança privadas. "Somos contra o patrulhamento por agentes privados, além de que questionamos a legalidade destes contratos", diz Ana Correia da Veiga que juntamente com Guy Foetz, o outro conselheiro do Déi Lénk, colocaram duas queixas no Tribunal Administrativo, uma contra o colégio da burgomestre e vereadores e outra contra a ministra do Interior, Taina Bofferding por ter permitido a realização destas contratações da câmara com empresas de segurança privadas. A data da audiência ainda não foi divulgada, embora a burgomestre Lydia Polfer já assumiu que quer ouvir a população sobre o assunto, antes de se decidir pela renovação dos contratos com segurança privada.

A saída da esquadra enfraqueceu a zona da Gare.

"Sempre lutámos para que a população seja ouvida sobre a segurança na via pública, saber porque têm medo e o que é preciso fazer para que possam usufruir com tranquilidade o seu bairro", lembra a lusodescendente esclarecendo que é preciso ir à raiz do problema e redesenhar a cidade para a devolver aos cidadãos.


Os destaques do Contacto desta semana
A violência no bairro mais movimentado do Luxemburgo. A crise dos contentores que poderá por em risco o Natal. O 'regresso' das Doce e outras histórias que contamos esta semana no Contacto.

"Não podemos ter ruas só com lojas e escritórios que fecham às 18 horas e ficam a partir daí desertas, ou ruas com passeios estreitos limitados pelas paredes e viaturas estacionadas, propensos a assaltos ou agressões", critica a conselheira para quem o Bairro da Gare tem de voltar a ter habitantes, casas de habitação. E justifica: "No inverno, às 7h00 da manhã ainda é noite, mas as pessoas não têm receio de andar na rua porque há muita gente na zona da Gare. É quando esta zona fica vazia e as pessoas vão para casa que o medo aumenta".

Agressões sexuais nos transportes

A solução para Ana Correia da Veiga é criar nos bairros da Gare e Bonnevoie "espaços públicos de ponto de encontro para os residentes amplos e iluminados, um convite ao convívio, onde haja circulação de gente".

Foto: António Pires

Embora a insegurança nestes bairros seja um sentimento comum a homens e mulheres, há fatores que aumentam o medo feminino. Ao cair da noite, a Gare torna-se um bairro sobretudo masculino e muito por culpa "dos diversos bares de striptease que ali se encontram". "Não somos contra estes bares, mas defendemos que eles têm de sair dali para que as mulheres possam se sentir mais seguras e não considerarem que são vistas como objetos", defende Ana Correia da Veiga. No seu entender, o Luxemburgo poderia seguir o exemplo de outras cidades, como Bristol, Inglaterra, "onde os bares de striptease e outros do género foram deslocados para zonas industriais afastadas dos centros da cidade".


As manifestantes da marcha feminista “Take Back The Night” realizada pela Plataforma JIF na passada noite de Halloween.
Luxemburgo. "As mulheres não devem ter medo de andar à noite na rua"
Para Jessica Lopes, ativista da plataforma feminista JIF, a segurança noturna na cidade não passa por agentes privados, mas sim por mais iluminação e visibilidade no espaço público. Há que derrubar a “política do medo incutido nas mulheres”.

A conselheira comunal reivindica ainda a realização de campanhas de sensibilização e formação dos trabalhadores públicos para atuar em casos de agressões sexuais contra as mulheres. "Há queixas de mulheres sobre a masturbação de homens nos transportes públicos da capital, seja no autocarro ou nos comboios, sobretudo à noite e com os transportes vazios", afirma. E dá um exemplo concreto: "Numa destas vezes uma mulher foi ter com o motorista do autocarro dizendo que estava um homem a masturbar-se e o motorista declarou apenas: '-mais um homem bizarro'!

É quando esta zona fica vazia que o medo aumenta.

A mulher desceu do autocarro e o motorista arrancou com o homem ainda lá dentro. Nem sequer o mandou sair. Nem nos transportes as mulheres já se sentem seguras. "Isto não pode acontecer!". Estes trabalhadores públicos, diz Ana Correia da Veiga, "têm de ter formação e agir em conformidade’". As mulheres nestas situações têm de saber que podem pedir ajuda e serem ouvidas. "Trata-se de agressões sexuais".

Nas mudanças necessárias para aumentar a segurança dos cidadãos esta política, de 38 anos, deixa mais um conselho: "Tal como são ensinados os primeiros socorros às pessoas em caso de acidente, também deve haver formação de defesa pessoal para os cidadãos, para que saibam como atuar em caso de perigo, o que lhe dará maior segurança para andarem na via pública, e na vida em geral, como nos casos de mobbing ou de parceiros violentos". Ana Correia da Veiga garante que não vai deixar de lutar por estas mudanças no centro da capital para devolver a tranquilidade aos seus cidadãos.

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