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Passaram cinco meses das cheias e Olívia ainda não pode passar o Natal em casa
Luxemburgo 8 min. 24.12.2021 Do nosso arquivo online
Echternach

Passaram cinco meses das cheias e Olívia ainda não pode passar o Natal em casa

Olívia Moutinho sofre de esclerose múltipla e vive no Parque de Campismo de Echternach desde que ficou desalojada nas cheias de julho.
Echternach

Passaram cinco meses das cheias e Olívia ainda não pode passar o Natal em casa

Olívia Moutinho sofre de esclerose múltipla e vive no Parque de Campismo de Echternach desde que ficou desalojada nas cheias de julho.
Foto: Ricardo J. Rodrigues
Luxemburgo 8 min. 24.12.2021 Do nosso arquivo online
Echternach

Passaram cinco meses das cheias e Olívia ainda não pode passar o Natal em casa

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
As inundações de julho ainda não são assunto resolvido. Olívia Monteiro vive doente e isolada num parque de campismo, à espera do regresso à normalidade que nunca mais chega. As vítimas das cheias saíram da agenda mediática. Então é altura de regressar a Echternach, a cidade luxemburguesa mais afetada pela subida das águas.

Três vezes por semana, Olívia Monteiro, 47 anos, tem de ir a uma consulta. São duas sessões de fisioterapia em Junglinster e uma visita à médica em Echternach, e isto quando não tem de ir também ao médico ao hospital de Strassen ou aviar uma receita na clínica de Kirchberg. Para chegar onde quer que seja, tem de cumprir quase um quilómetro de caminho a pé até à estação de autocarro mais próxima. 

Custa-me descer, custa-me subir, trazer as compras para cima é um pesadelo. Mas o pior é este medo que sinto por estar aqui isolada. Eu só queria voltar paraaminha casa.

Olívia Monteiro

Vive, desde o final de julho, num bungalow do Parque de Campismo de Echternach. “Não quero parecer ingrata, estou muito agradecida de me terem dado um teto depois das cheias. Mas tenho muitas dificuldades de locomoção e daqui até à estrada há uma inclinação de 200 metros. Custa-me descer, custa-me subir, trazer as compras para cima é um pesadelo. Mas o pior é este medo que sinto por estar aqui isolada. Eu só queria voltar para a minha casa.”

Foi uma das 250 pessoas evacuadas de Echternach a 15 de julho de 2021, o dia em que se registaram “as piores inundações da história do Luxemburgo” – palavras de Taina Bofferding, ministra do Interior. 

Uma foto que tirou no dia das cheias. Ao regressar do hospital em Kirchberg, não havia ambulância para trazê-la a casa. Voltou de chinelos no autocarro.
Uma foto que tirou no dia das cheias. Ao regressar do hospital em Kirchberg, não havia ambulância para trazê-la a casa. Voltou de chinelos no autocarro.
Foto: Ricardo J. Rodrigues

Desde essa altura, está alojada ali. “No início não custou tanto, porque havia turistas, gente a chegar e a partir. Era verão, apesar do esforço físico que tinha de fazer para vir para casa tinha luz e presença humana. Mas agora estou só eu. Há noites em que vêm para aqui grupos de jovens beber uns copos, fumar as coisas deles, ou então passa um carro. E eu acordo e até fico um bocado mais descansada, porque pelo menos não são animais selvagens. Se me acontecer qualquer coisa, pronto, sempre posso pedir ajuda a alguém.”

Olívia tem uma vida dura. Há 15 anos foi diagnosticada com esclerose múltipla e não são raras as vezes em que a doença se expressa em ataques que a paralisam por completo. “É esquisito, porque sinto um formigueiro que me faz dormente, mas ao mesmo tempo tenho umas dores enormes nas articulações. Às vezes tenho ataques muito fortes e não me consigo mexer.” 

Há cinco anos as coisas pioraram: foi diagnosticada com cancro da mama. “É por isso que tenho de ir tantas vezes ao médico. Mas o meu receio é dar-me uma daquelas travadinhas quando estou a caminho da consulta. Aqui nem sempre há rede. Como é que eu chamo os bombeiros?”

Ainda a água

O marido de Olívia, Alfredo, está desde novembro em Portugal em tratamentos médicos. Conheceram-se em Murça há 20 anos, casaram e ela trouxe-o para Echternach. No Luxemburgo o homem fez-se condutor de ambulâncias, até ter um acidente há 13. Deixou de poder trabalhar e têm ambos 100% de invalidade, certificados pelos serviços sociais e por uma junta médica. “Eu sempre ia fazendo uns trabalhitos para completar o subsídio”, conta ele, ao telefone. “Até que veio a água e já não aguentei mais.”

Quando Olívia foi diagnosticada com esclerose, há década e meia, o homem agiu de imediato: “Vivíamos num terceiro andar, mas quando ela tinha uma crise eu tinha de levá-la às costas para casa. Depois deixei de poder, por causa do meu acidente. Então decidimos comprar a nossa casita.” Um rés do chão no centro de Echternach, com um bom quarto, casa de banho e um salão com kitchenette.

Alfredo, diga-se a verdade, reformulou a casa toda. Pintou as paredes de bege, os tetos de branco, edificou um mural de pedra no hall de entrada. Mas nunca se esquece de como pedir um empréstimo no banco foi uma guerra. 

Recusavam-lhes avanço por causa das condições de saúde, até abrirem o coração a um agente imobiliário que teve pena deles. “O banco lá aceitou, mas nenhuma seguradora aceitou fazer-nos seguro de vida”, conta ele. “Quando negociámos a proteção da casa, tivemos de ir pelo mínimo possível. Só que o mínimo possível não contemplava inundações” – a mulher, quando conta a mesma história, desata num prato.


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Na noite antes das cheias lhe entrarem casa dentro, pouco antes do sol se por, Olívia pensou nas pessoas que tinham habitações à beira do rio e disse a Alfredo para ir lá ver se alguém precisava de ajuda. “Aquilo que eu pensei foi que, se alguém precisasse de dormir aqui, pelo menos tínhamos um sofá para lhes acudir”, conta. 

Na manhã seguinte tinham viagem marcada para Portugal. “Tínhamos o voo à uma da tarde, planeámos sair às dez e meia. Mas às dez da manhã a água começou a entrar pela porta e dez minutos depois já me chegava à cintura. Foi um assombro.”

A vizinha do primeiro andar disse-lhe que viesse para cima e se refugiasse ali. Alfredo ficou no meio do charco a tentar salvar o recheio, pelo menos até a água lhe chegar ao pescoço. Depois vieram os bombeiros evacuá-los, a eles e a mais 250. “Caí a descer das escadas e levaram-me de ambulância para o hospital no Kirchberg”, lembra Olívia. 

Quando teve alta, não havia transporte para levá-la de volta. “Um taxista queria cobrar-me cem euros, então eu pedi-lhe para deixar-me na paragem do autocarro da LuxExpo. Estava de chinelos e roupão e foi assim que voltei a casa. As pessoas olhavam para mim como se fosse uma maluquinha que saiu do manicómio. Até tirei uma fotografia para nunca mais me esquecer.”

Ela e Alfredo ficaram as primeiras duas semanas alojados num hotel perto da cidade, depois a comuna percebeu que era preciso garantir uma solução mais permanente. “Propuseram-nos ir para um lar de idosos onde não aceitavam cães, e eu nunca deixaria a minha Pipoca. Depois houve a hipótese de irmos para uma casa abrigo que tinha a casa de banho no terceiro andar, mas eu não consigo subir escadas.”


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Veio a solução possível, no Parque de Campismo de Echternach. É lá que os Monteiro vivem desde 1 de agosto. “Repito que estou muito agradecida por me terem dado um teto quando perdemos o nosso. Mas também sinto que nos arrumaram aqui e nos deixaram à nossa sorte. Eu não quero que as pessoas tenham pena de mim”, e Olívia bate com um punho na mesa. “Só quero ter a minha dignidade. O tempo vai passando e eu sinto-me cada vez mais pequenina. Tenho de pedir ajuda para tudo, agradecer de cada vez que alguém me facilita a vida. Estou doente, é verdade, mas não estou morta. E às vezes sinto que, por causa das cheias, eu já não sou uma pessoa. Sou só uma vítima. Não quero, não posso sentir-me mais assim.”

O que falta tratar

Ricardo Marques é vereador na cidade e preside à Comissão de Gestão de Inundações de Echternach e Rosport, duas das comunas mais afetadas pelas cheias de 15 de julho. “A grande maioria da população já conseguiu arranjar maneira de voltar a casa. Mas temos alguns casos mais problemáticos, e esta família é sem sombra de dúvida um deles. A ajuda chegará, isso eu garanto. Mas não é imediata e eu sei que isso cria uma ansiedade imensa. Sobretudo nesta altura do Natal.”

dr
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Famílias que continuam por alojar restam duas. “No total, houve 500 pessoas que sofreram danos. Muitas delas já receberam algum dinheiro dos seguros, ou investiram as suas poupanças na recuperação dos imóveis. Mas ainda não tiveram os apoios todos que lhes foram prometidos”, explica Marques. 

Há três níveis de apoio: o das seguradoras, o do ministério da família e o da comuna. “Eu sei que as pessoas estão fartas e desmotivadas, que é difícil pedir-lhes mais um papel, mais uma avaliação. Mas temos de ver o que já receberam de um lado e de outro para poder complementar o bolo inteiro.” 

Os Moutinho, por exemplo, não tiveram direito a nada da seguradora. Esta semana receberam uma carta do Estado a prometer ajuda rápida, sem valores especificados. “Só depois a comuna poderá intervir e complementar o que falta.”

Sei que as pessoas estão fartas e desmotivadas Mas temos de ver o que já receberam de um lado e de outro para poder complementar o bolo inteiro.

Ricardo Marques

Para este caso, Ricardo Marques promete uma segunda solução. “Por ser uma família com problemas de saúde, consideramos atribuir-lhes um dos cinco apartamentos de habitação social que acabámos de construir no centro da cidade. Teremos de ver.” Mas, para Olívia Moutinho, a única coisa que continua certa é a incerteza. Todas as respostas lhe parecem por enquanto vagas.

O vereador admite que não vê uma solução para breve. “Claro que o mais importante são as pessoas, e estão em primeiro lugar. Vamos ajudar toda a gente independentemente da sua classe social. Mas nem sequer podemos pensar que as coisas estarão normalizadas antes de 2023. E sei que, para muita gente, isso é demasiado tempo.”


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Isso é particularmente verdade para o comércio local. Dos 50 estabelecimentos afetados, 19 eram lojas, 16 eram vendas de comida. Seis lojas não tornarão a abrir, nem dois cafés e restaurantes. 

“Temos os miúdos apertados nas escolas porque os pisos inferiores foram inundados, então agora comprámos contentores para que eles tenham aulas em melhores condições. O parque desportivo ficou todo destruído e temos um novo planeado, mas nunca será erguido antes de 2026. Então precisamos de um parque provisório, só que ele custa oito milhões de euros”, diz o vereador. “As cheias não duraram assim tantas horas, mas o impacto que deixaram ainda se faz sentir. Aqui ninguém as esqueceu.”

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