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Para uma enfermeira com covid-19 o pior não foi o vírus
Luxemburgo 6 min. 21.05.2020

Para uma enfermeira com covid-19 o pior não foi o vírus

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Para uma enfermeira com covid-19 o pior não foi o vírus

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Foto: AC
Luxemburgo 6 min. 21.05.2020

Para uma enfermeira com covid-19 o pior não foi o vírus

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Uma enfermeira residente no Luxemburgo apanhou a covid-19. Venceu a luta contra o vírus em duas semanas. No entanto, a quarentena impediu-a de se despedir do pai que entretanto faleceu em Portugal, poucos dias antes de ter terminado o isolamento.

O mês de abril deste ano foi dos mais difíceis da vida de Carla Santos (nome fictício). No dia 8, a portuguesa que reside no Luxemburgo há cinco anos recebeu em casa o resultado do teste que fizera dias antes à covid-19 e que acusou positivo. Com o pai internado no hospital de Braga, em fase terminal de uma doença do foro oncológico, Carla foi impedida de se despedir dele [que entretanto faleceu no dia 19] por se encontrar a cumprir o período obrigatório de quarentena.

Uma marca para toda a vida

“Nunca mais irei esquecer este vírus que marcou negativamente a minha vida para sempre. Além de ter sido infetada, impediu-me de viajar até Portugal para me despedir pessoalmente do meu pai que faleceu enquanto eu estava de quarentena, fechada no meu quarto, em desespero”, lamenta, em lágrimas, a enfermeira de 32 anos, que desde o início tem estado na linha da frente na luta contra a pandemia no Luxemburgo.

Esteve infetada pelo vírus, acabou por venceu a batalha pela [sua] vida, mas a dor pela morte do pai ainda lhe preenche a alma.

“Foi muito duro não me ter despido do meu pai. Queria muito vê-lo pela última vez, mas o vírus não deixou. Era uma pessoa com saúde, alegre, sempre bem disposto e deixou-nos de um momento para o outro”, lamenta.

“Os meus dois irmãos que também estão no Luxemburgo ainda conseguiram meter-se no carro e ir vê-lo lá abaixo. Eu apenas falava com ele por telefone e pelo ’messenger’, no Facebook, enquanto estava lúcido. E era curiosamente ele que estava já em fase terminal que me animava e dizia para eu me curar e ir vê-lo. Vem depressa, mas não me tragas o vírus, repetia-me com um sorriso quando falávamos, transmitindo-me sempre muito ânimo e carinho durante o meu período de isolamento.”.

Carla é natural de Braga, trabalha no hospital de Niederkorn e acredita que foi lá que foi infetada.

“No primeiro fim de semana de abril não trabalhei. Mas como tinha tido contacto com colegas e pacientes que tinham sido infetados fui fazer o teste, mas fiquei duplamente preocupada porque o meu pai também já estava doente. Inicialmente, o teste deu negativo, mas como já há alguns dias me sentia mal e com algumas sintomas estranhos quis voltar a fazê-lo.”

“No entanto, só pensava no estado de saúde do meu pai e para a eventualidade de não o poder ir ver, caso estivesse infetada. E isso doia-me mais porque eu é que deveria estar lá para cuidar dele. Ainda preparei a mala para poder viajar, mas quando voltei a fazer o teste pela segunda vez, no dia 8 de abril, acusou positivo. Foi como o chão me fugisse debaixo dos pés. Entrei em quarentena, mas o meu pai foi piorando de dia para dia e acabou por falecer no dia 19 de abril, sem que eu estivesse com ele. Foi horrível...”

“No início tive medo de morrer”

Entre as quatro paredes do quarto a luta contra o vírus foi difícil, mas Carla aguentou e sobreviveu.

“No início, confesso que tive bastante medo. A febre era sempre alta e deixava-me quase sem forças. Provocava-me fortes dores de cabeça e tremores pelo corpo todo. Também tive diarreira e períodos de fraqueza, mas fui resistindo e as coisas acabaram por melhorar.”

“O meu namorado levava-me a comida e desinfetava a casa de banho quando eu a utilizava e tudo por onde eu passava. Foram dias horríveis de muito sofrimento pelos quais não quero voltar a passar.”

Depois da quarentena voltou a fazer testes que atestaram a cura em relação ao vírus. Como tinha marcado férias, no dia 23 foi com o namorado a Portugal ver os familiares.

“Apesar de tudo, tinha que fazer o meu luto. Fui de carro com o meu namorado para estar com a minha mãe e o resto da família. Levei os atestados que me permitiram passar nas fronteiras e felizmente não tive problemas. Ter ido a Portugal fez-me bem, muito bem, mesmo. Tinha que voltar a encontrar a paz que me faltava e estar com as pessoas que me são tão queridas para minimizar a perda do meu pai”, diz emocionada.

Carla Santos regressou ao Luxemburgo no dia 10 de maio e no dia 11 foi trabalhar depois de repetir o teste que voltou a dar negativo.

“Até ser encontrada uma vacina, a pandemia vai continuar a matar”

Continua a exercer a profissão de enfermeira no hospital de Niederkorn e sobre a pandemia prefere jogar à defesa.

“Ninguém esperava uma coisa assim. Tenho acompanhado a situação de perto e garanto que não é fácil. O facto de ter sido infetada deu-me, provavelmente, uma visão muito particular das coisas. Ainda sou nova e apesar das dificuldades, sofri bastante, mas consegui resistir ao vírus. No entanto, penso muitas vezes nas pessoas de risco e nas dificuldades que têm perante o vírus. Tenho a minha mãe que está sozinha em Portugal e a minha tia que são pessoas de risco. Muitas vezes dou comigo a pensar naquilo que lhes poderá acontecer. Nunca estou descansada...”

“Felizmente que as coisas em Portugal estão controladas. A situação tem vindo a acalmar progressivamente e as medidas tomadas por parte do governo foram eficazes e bem aceites pela população. Oxalá que continue assim.”

Mostrou-se mais segura sobre o evoluir da pandemia no Luxemburgo, mas teme uma segunda vaga do vírus.

“O Luxemburgo é pequeno e mais facilmente controlável. As condições do nosso serviço de saúde são melhores do que na maioria dos outros países, onde infelizmente o número de mortes tem sido assustador. No entanto, acho que até ser encontrada uma vacina, a pandemia vai continuar a matar por todo o mundo. As coisas parecem estar a acalmar de uma forma geral, mas é fundamental que as pessoas não facilitem nas medidas de precaução para não colocar a sua saúde e a dos outros em jogo. O perigo de um novo surto do coronavírus é mesmo real e temos que nos precaver contra isso”, insiste.

Carla Soares diz que se sente bem no país que lhe abriu as portas a uma carreira que lhe foi negada em Portugal.

“Quando terminei o meu curso, comecei a trabalhar num laboratório e fiz, também, voluntariado na Cruz Vermelha. Não conseguia arranjar emprego como enfermeira porque as vagas eram muito poucas. Entretanto, concorri a lugares em Inglaterra e no Luxemburgo. Como o Governo aqui me deu luz verde, aceitei e vim logo. Tenho um irmão e uma irmã que já viviam no Grão-Ducado, o que acabou por facilitar bastante a minha integração no país.”

Sobre a vida no Luxemburgo, mostra-se bastante satisfeita. Continua na linha da frente, empenhada no combate à pandemia, enquanto vai amenizando a dor, dizendo que o pai que continuará sempre presente na sua vida.

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