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“Para já não é possível prever o efeito da vacina sobre a nova variante”
Luxemburgo 5 min. 08.01.2021

“Para já não é possível prever o efeito da vacina sobre a nova variante”

“Para já não é possível prever o efeito da vacina sobre a nova variante”

Foto: DR
Luxemburgo 5 min. 08.01.2021

“Para já não é possível prever o efeito da vacina sobre a nova variante”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
No Luxemburgo já foram detetados três casos da nova variante inglesa, mais contagiosa que o vírus original. A descoberta foi feita pela equipa de Tamir Abdelrahman, chefe do departamento de Microbiologia do Laboratório Nacional de Saúde (LNS).

Como se desenvolveu a nova variante inglesa que está a circular na Europa e já chegou ao Luxemburgo?

O SRA-CoV-2 é um vírus RNA que está sujeito a mutação contínua, a uma taxa de 2,5 nucleótidos por mês. Quando um vírus adquire várias mutações ao longo do tempo que alteram a sua estrutura e características, passa a ser atribuído como uma nova variante, mas não como um vírus diferente, é apenas uma nova versão do mesmo vírus.

Como foi descoberta a nova estirpe?

Os cientistas monitorizam constantemente a evolução do vírus. Estes estudos, incluindo análises genéticas do vírus, ajudam-nos a compreender como as alterações no vírus podem afetar a sua propagação e o que acontece às pessoas infetadas. No Reino Unido surgiu esta nova variante (Voc 202012/01) [ou B.1.1.7] com um número invulgarmente elevado de mutações. Esta variante parece reproduzir-se mais fácil e rapidamente do que outras variantes. Esta variante foi detetada na sequenciação do genoma do vírus com base nas amostras positivas, tal como nós fazemos no LNS.

Esse processo de produção de novas varientes também ocorreu no Luxemburgo ?

Por vezes aparecem e desaparecem novas variantes como vimos desde o aparecimento da covid-19 em fevereiro no Luxemburgo. As variantes atualmente em circulação no Luxemburgo são diferentes das que tínhamos em março e abril. Outras vezes, surgem novas variantes que começam a infetar pessoas com uma taxa de transmissibilidade diferente. Por exemplo, 13 variantes da SRA-CoV-2 circularam no Luxemburgo, em dezembro, entre todas, apenas três são as principais, as restantes circulam com baixa prevalência.

A nova variante inglesa pode ser 70% mais transmissível do que a versão original?

A nova variante está correlacionada com um rápido aumento da incidência da covid-19. Este aumento tem sido relatado no sudeste de Inglaterra. A análise dos dados da sequenciação do genoma viral identificou uma grande proporção (>50%) de casos pertencentes a uma nova linhagem única. De salientar, que em geral, são sequenciados no Reino Unido entre 5-10% de todos os casos covid-19.

Ela poderá conduzir a formas mais graves da doença?

Não existem ainda relatórios clínicos sobre a virulência das novas variantes. Realizámos um estudo sobre a variante D614G em circulação no Luxemburgo que apresenta uma vantagem seletiva através do aumento da infecciosidade celular. O estudo demonstrou que não há qualquer efeito identificável sobre a gravidade ou resultado da infeção no Luxemburgo, onde 99% das variantes circulantes transportam esta mutação. Também a virulência da nova variante inglesa deve ser monitorizada.

O que se sabe até agora?

No Reino Unido, os dados preliminares sobre a nova variante, através da análise de acompanhamento dos casos de infeção, indicam que parece não haver um aumento significativo de hospitalizações e óbitos. No entanto, como já referi é necessário acompanhar muito atentamente esta nova variante.

Quantos casos já foram detetados no Luxemburgo?

A nossa vigilância genómica nacional tem vindo a expandir-se nos últimos meses e cobre atualmente 10% das variantes em circulação. Temos um sistema muito eficiente no rastreio de qualquer introdução de variantes no país. Na semana passada, detetámos três casos portadores da nova variante B.1.1.7 no Luxemburgo. As autoridades sanitárias estão a realizar o rastreio de contactos e a LNS continuará a investigação em colaboração com a Inspeção Sanitária para acompanhar a evolução desta variante no Luxemburgo.

Como se pode conter a sua propagação?

Há vários esforços a ser feitos para conter a propagação da nova variante, nomeadamente a deteção dos casos de infeção e o rastreio dos contactos dos infetados, isso é muito importante e estamos já a implementar esta deteção com as autoridades sanitárias e os laboratórios parceiros.

As vacinas que existem atualmente são eficazes sobre a nova variante?

Até à data não existem dados fenotípicos [como morfologia ou comportamento] disponíveis sobre a nova variante, pelo que para já não é possível prever o efeito da vacina atual sobre esta nova variante. São necessários mais estudos sobre as características antigénicas das vacinas para saber se atuam também nesta variante.

Considera que as vacinas são a única solução para travar a pandemia?

A imunização é uma ferramenta bem conhecida para a prevenção de doenças infeciosas, continua a ser uma ferramenta muito preciosa, mas são necessários vários fatores para atingir o seu objetivo. Atualmente ainda temos muitas incertezas, pelo que não podemos prever o seu efeito. Por exemplo, qual é a sua aceitação pela população, qual é a taxa de eficácia da vacina, quanto tempo durará a imunidade conferida. São tantas questões em aberto para se poder declarar a vacina como solução. O que podemos aconselhar é mantermo-nos fiéis às medidas sanitárias e inscrevermo-nos no programa de vacinação, no Luxemburgo e por todo o mundo.

Em 2021 poderemos ganhar a batalha contra a pandemia?

Como virologista, sei que os vírus não são previsíveis, especialmente os vírus respiratórios com a sua capacidade de sofrer mutações e evoluir ao longo do tempo. A nova variante britânica mostrou-nos isso mesmo que, de repente, podemos enfrentar um desafio diferente, com um aumento da transmissibilidade embora sem um aumento da mortalidade, e esse aumento acrescenta um pesado fardo aos sistemas de saúde. Portanto, espero que tenhamos um 2021 mais brilhante na nossa luta contra a covid-19.

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