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Pandemia fragiliza taxistas à espera de reforma que proteja mais o setor
Luxemburgo 9 min. 03.09.2020

Pandemia fragiliza taxistas à espera de reforma que proteja mais o setor

Pandemia fragiliza taxistas à espera de reforma que proteja mais o setor

Foto: Guy Jallay
Luxemburgo 9 min. 03.09.2020

Pandemia fragiliza taxistas à espera de reforma que proteja mais o setor

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Em plena agonia devido à crise sanitária, a classe queixa-se da falta de trabalho e de irregularidades que querem ver abolidas. Entre queixas e reivindicações, o presidente do setor acredita que o Governo vai ’afinar’ a lei e apresentar medidas que possam servir os interesses de todos.

"Não há trabalho. Estou aqui à espera de clientes, e nada. Isto está uma miséria... a pandemia veio dar cabo de tudo. Antes, sempre havia um serviço ou outro e lá íamos andando e ganhando a nossa vida, mas agora é o caos", queixa-se Francisco à porta do seu táxi junto do aeroporto do Findel.

"Os homens de negócios aparecem raramente e o teletrabalho veio complicar ainda mais as coisas porque muita gente fica em casa e já não precisa de sair", queixa-se o taxista, já veterano na profissão.

"Por vezes, apareciam clientes para levar até Metz ou outras localidades que dava para ganhar o dia, mas agora, nem os turistas querem apanhar um táxi...", lamenta. À conversa com Francisco na fila, também à espera de clientes, Filipe Santos, outro taxista, aumenta o rol de queixas e aponta o dedo à concorrência desleal.

"O trabalho diminuiu drasticamente e ainda por cima aparecem na nossa área taxistas de outras zonas a fazer trabalhos que poderiam ser nossos, o que ainda complica mais as coisas. São aderentes às centrais de outras empresas e recebem trabalhos por telefone em troca de uma compensação financeira mensal", repudia.


Reforma da lei do táxi está a caminho
O setor do táxi foi liberalizado há quatro anos, no Luxemburgo.

"O trabalho é escasso e as ajudas são poucas. Espero que a nova reforma da lei do nosso setor que está para sair em breve traga algo para melhorar a situação, caso contrário não sei onde vamos parar."

Abanando a cabeça afirmativamente, Francisco corrobora com o colega e alega que a distribuição de táxis no país está mal feita.

"A população está a aumentar, é um facto, mas para mim há táxis a mais no Grão-Ducado. E se aumentarem desproporcionalmente o número de viaturas, não haverá trabalho para todos. A distribuição dos táxis pelas zonas deverá ser reequacionada e equilibrada", reclama.

“Os grandes é que beneficiam”

Jorge é taxista no norte do país e está no ramo há cerca de uma década. Mostrou-se descontente com a atual lei em vigor e espera que a próxima reforma da mesma traga mudanças em vários domínios.

"Na minha opinião, neste momento, no norte, presta-se um mau serviço público no que diz respeito aos táxis. Existe em várias comunas um défice de unidades em relação ao sul e isso recente-se na forma de servir a população das diversas localidades", precisa.

"De Mersch para cima é outro mundo. Lá, em, Diekirch, Wiltz, Vianden ou Clervaux praticamente não se encontra um táxi. As praças existem, mas os veículos não estão lá. Passam-se dias inteiros que não aparecem porque vão para a capital trabalhar como aderentes, onde é bastante mais rentável", explica, revoltado.

"Por isso é que o preço das bandeiradas aumenta desmesuradamente e acaba por prejudicar o trabalho de muitos. É a lei da selva e do salve-se quem puder. Esta situação privilegia apenas as grandes empresas do setor e os ’lobbies’ e isto tem que mudar. Há interesses nisto e muitas pessoas com responsabilidades assobiam para o lado", acusa."

Este é um exemplo do preço da bandeirada que tem de estar exposto na parte de fora de cada táxi. O preço, neste caso, é calculado com base num trajeto de dez quilómetros e foi liberalizado desde 2016.
Este é um exemplo do preço da bandeirada que tem de estar exposto na parte de fora de cada táxi. O preço, neste caso, é calculado com base num trajeto de dez quilómetros e foi liberalizado desde 2016.
Foto: Álvaro Cruz

 "É importante reformar devidamente a lei. Por vezes, recebo telefonemas provenientes das zonas de Wiltz ou Clervaux para fazer trajetos de 5 ou 6 quilómetros e eu que me encontro a 30 e mais de distância não me vou deslocar até lá acima para ganhar 10 euros. Não dá."

"Entendo que nem sempre é rentável para alguns taxistas estarem no norte porque que no sul há mais trabalho. Então, há que resolver o problema com ajudas e outro tipo de soluções para que ninguém seja prejudicado. Por isso, talvez fosse melhor voltar à fórmula antiga quando as Comunas é que atribuíam as licenças e a bandeirada era igual para todos. Clervaux e Vianden são zonas turísticas por excelência e por vezes não há lá nenhum táxi. Isso é um bom serviço público?", vinca em tom de reprovação, lembrando ainda que alguns dos acidentes no norte também se devem à falta de táxis disponíveis.

"Há pessoas que depois de uma festa bebem uns copos e preferem ir para casa de táxi, mas como não encontram são obrigados a pegar no carro e conduzir num estado impróprio. O pior é que depois, em alguns casos, as coisas acabam mal...".

A distribuição dos carros elétricos, a segurança dos taxistas, a saúde e a pandemia foram outros dos temas abordados por Carlos Resende que se mostrou cético quanto à reforma da lei aguardada para breve.

"Distribuem 20 carros elétricos anualmente, mas aqui não chega nenhum e isso não é justo. A lei de 2016 beneficia só alguns”, protesta. “Também era bom que houvesse um sistema de segurança nos táxis através do qual pudéssemos acionar um botão que estivesse conectado com a polícia e esta pudesse intervir em casos de necessidade. Às vezes, transportamos pessoas agressivas que não respeitam ninguém", diz, sugerindo que os taxistas deviam fazer regularmente testes à covid-19 como medida de segurança.

"Infelizmente, esta pandemia veio prejudicar imenso a nossa atividade. No período de quarentena deixei os meus empregados em casa e eu andava por aí a fazer o que conseguia. As perdas foram consideráveis. Espero que a nova reforma da lei possa contemplar esta e outras situações para o bem de todos."

"Faltam afinações à lei de 2016 para as coisas entrarem no eixos"

Paulo Leitão, presidente da Federação dos Táxis no Luxemburgo, compreende as queixas, reivindicações e ansiedades dos membros de um setor em dificuldade, sobretudo após a pandemia. Eleito há um ano, garante que está atento aos vários problemas e empenhado, juntamente com a sua equipa, em melhorar as condições de trabalho da classe.

"Alguns reclamam da lei de 2016, mas ela veio melhorar muitas coisas em relação ao passado, sobretudo no que toca a um certo número de ilegalidades que eram recorrentes."

Paulo Leitão, presidente da Federação dos Táxis do Luxemburgo
Paulo Leitão, presidente da Federação dos Táxis do Luxemburgo
Foto: Paulo Leitão

Sobre a reforma da lei esperada ainda neste mês de setembro, diz desconhecer quais os conteúdos no que respeita a possíveis mudanças, mas garante que as reuniões com o ministério da Mobilidade e dos Transportes Públicos têm sido bastante produtivas.

"O Governo tem estado atento aos problemas do setor e mostra-se interessado em melhorar as coisas. Tem ouvido as nossas sugestões, das várias empresas e até de clientes para aferir o trabalho que tem sido feito. Apesar de não terem ainda apontado qualquer data para a reforma, acredito que não demore muito e traga inovações que possam satisfazer toda a gente."

Sobre as principais preocupações dos taxistas, o presidente classifica a crise sanitária como um problema "grave" que afetou toda a gente, mas reconhece que há outros à espera de resolução.

"Durante a quarentena foi um caos porque não havia praticamente trabalho para ninguém. Agora, as coisas melhoraram um pouco, mas a frota de táxis estará a funcionar à volta dos 15-20% porque as coisas ainda estão complicadas", lamenta.

Sobre as queixas de concorrência ilegal, o presidente dos taxistas garante que "as autoridades têm feito um controlo apertado", sobretudo no que respeita a taxistas de outras zonas que vêm trabalhar na capital.

"Efetivamente, muita gente fala disso, mas desde que eles respeitem a lei, que passa por não estacionarem indevidamente nas praças da zona 1 (capital e zonas limítrofes), esperarem por clientes na via pública ou junto a hotéis, podem circular. A lei permite, também, que se um cliente quiser chamar um taxista de outra zona o pode fazer, desde que haja um comprovativo", esclarece.

Ainda sobre a vinda de táxis de outras zonas para a cidade do Luxemburgo, Paulo Leitão lembrou que "todos têm a preocupação de ganhar dinheiro e rentabilizar os seus investimentos", reforçando que "desde que seja feito dentro do que a lei exige", não vê problemas nisso.

"Admito que nem tudo é perfeito, mas vários taxistas e empresas já foram punidos severamente pelas autoridades por terem cometido infrações", precisa. "Acho que faltam algumas 'afinações' à lei de 2016 para que as certas coisas entrem definitivamente nos eixos."

Sobre o preço liberalizado das bandeiradas e a escolha do táxi em que o cliente quer viajar, independentemente do lugar onde se encontre na fila, foi perentório: "É verdade que praticamos preços dos mais caros em todo o mundo, mas importa lembrar que estamos no Luxemburgo e o mesmo fenómeno verifica-se na habitação, alimentação e serviços, entre outros. Quando vamos a um restaurante podemos escolher onde queremos ir comer, da mesma forma com o vinho que queremos beber. A preocupação do ministério ao elaborar a lei de 2016 foi beneficiar os clientes e as suas escolhas que são legitimas e nas quais não podemos interferir", esclarece.

"Compreendo que se numa fila de táxis estiver um Renault Zoe à frente, seguido de um Opel Corsa e mais atrás se encontre um Mercedes ou um Tesla, a escolha do cliente recaia num destes dois últimos. Mas, felizmente, há clientes para todos os gostos. Uns que preferem os preços mais baratos e apelativos a que muitos patrões estão a aderir, outros que privilegiam a comodidade, o luxo. É uma questão de gosto e de poder económico. Também há clientes que preferem discutir os preços de certos trajetos com os taxistas que muitas vezes baixam os valores praticados por tabela."

Outra das queixas frequentes entre os taxistas são os caros de aluguer com motorista (voitures de location avec chauffeur) que não têm taxímetro e que muito provavelmente vão ser legalizados. Os preços são acordados entre motorista e cliente, mas o trajeto tem de ser, no mínimo, de uma hora.

"Vai ser mais um concorrente no mercado como já outros, que vai servir uma parte da clientela que prefere este meio de transporte." Sobre a distribuição das 20 viaturas anuais no país, garante que não há favores: "Tudo é feito com rigor e transparência. As autorizações são dadas mediante concurso público e ordem de chegada. Não beneficiamos ninguém", esclarece.

"Estamos atentos às coisas que necessitam de reajustamentos e esperamos, com a ajuda do Governo, que possam ser postas em prática o mais rapidamente possível para benefício de todos", vincou Paulo Leitão que ao terminar fez votos para que o volume de trabalho "aumente rapidamente e todos possam sair a ganhar desta crise." 

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