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Palestina. “Sem o barulho das explosões podemos finalmente conversar a sério”

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Palestina. “Sem o barulho das explosões podemos finalmente conversar a sério”

Palestina. “Sem o barulho das explosões podemos finalmente conversar a sério”

Palestina. “Sem o barulho das explosões podemos finalmente conversar a sério”


por Ricardo J. Rodrigues/ 28.05.2021

Fotos: António Pires

No dia em que Israel e Palestina firmaram um acordo de cessar-fogo em Gaza, centenas de pessoas concentraram-se em Kirchberg para apelar à paz no Médio Oriente. No sábado, há nova manifestação marcada para o centro da capital. Mergulho nos protestos – para ouvir as vozes que se levantam quando as bombas se calam.

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Sinfonia pelo Médio Oriente
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Estava uma ventania danada na última sexta feira, e uma rapariga que se juntara aos protestos deixou escapar das mãos uma bandeira palestiniana. O tecido voou pela escadaria da Philharmonie e avançou para o alcatrão da avenida JFK. A miúda, com as cores do seu país pintadas no rosto, bem tentou correr atrás do pano, mas o trânsito era intenso no final de tarde. 

Foi um agente da polícia a salvar a honra do convento. Meteu-se no meio dos carros, parou alguns, e lá recolheu do chão um país inteiro e entregou-o ao pai da adolescente. Minutos mais tarde, Mohammed Hamdi, um dos organizadores do encontro, haveria de dizer que “só a pressão externa pode convencer Israel a mudar o estado das coisas”. Então aquele agente serve de metáfora ao caminho a seguir. “A Europa, o resto do mundo”, continuava Mohammed, “tem de nos ajudar.”

Segundo a polícia no local, a manifestação juntou 400 pessoas. Fora convocada pelo Comité para Uma Paz Justa no Próximo Oriente (CPJPO), uma ONG luxemburguesa fundada em 2002. Aconteceu pouco depois de ser anunciado um cessar-fogo em Gaza. 

“Mas isso não muda nada. A ocupação está lá, a colonização está lá, o apartheid está lá. Tivemos nos últimos setenta anos muitos cessares-fogos que apenas suspenderam a violência, mas não a resolveram”, dizia Hamdi, coordenador da CPJPO. “Mas é verdade que sem o barulho das explosões podemos finalmente conversar a sério. As manifestações dos últimos dias no mundo todo mostram que Israel está mais apertado do que nunca. Não nos podemos calar agora.” No próximo sábado, 29, a associação volta à carga com um encontro às 14h00 no Glacis, em Limpertsberg.

Mohammed Hamdi, coordenador do CPJPO.
Mohammed Hamdi, coordenador do CPJPO.

Entre as pessoas que compareceram na Philharmonie havia palestinianos, muitos, mas também sírios e franceses, jordanos e luxemburgueses, alguns americanos, belgas, franceses. “Quero ensinar aos meus filhos que eles se devem levantar pelo que acham justo”, dizia Hammad Kabir, que trouxe com ele Arreba, de 15 anos, Ariefa, de 12, e Hadi, de 6. “Eles participam nas marchas pelo clima e quiseram vir aqui também porque acham que é injusto o que se passa no Médio Oriente. Não tem nada a ver com sermos ou não muçulmanos. Tem a ver com direitos humanos.”

Hajradin Husové, 75 anos, bósnio.
Hajradin Husové, 75 anos, bósnio.

Hajradin Husové, 75 anos, agitava uma enorme bandeira da Palestina no topo da escadaria enquanto repetia o nome do país. Bósnio, conhece bem os horrores da guerra. “Eu não gosto do que Israel faz, e também não gosto do que o Hamas faz, e enquanto eles não se entenderem há um povo que continua a sofrer. Mas se eles não querem saber nós havemos de gritar bem alto. O mundo há de gritar todo que até Israel terá de ouvir”, explicava. Atrás dele, uma coluna debitava canções de resistência em língua árabe. Os discursos ocuparam uma boa parte do final da tarde, mesmo em frente à grande sala de concertos da capital – é afinal ali que se localiza a Praça da Europa. 

E, no fim disso, começaram a desenrolar-se várias tarjas sobre a escadaria. Fundo negro com letras brancas e esta frase. “”Um conflito sem solução? Fim à ocupação. Fim à colonização. Fim ao apartheid.” Vários carros passavam e abrandavam para ver o que se passava. Alguns condutores buzinavam, outros abriam as janelas e gritavam: “Viva a Palestina, viva a Palestina.”

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Uma lição nos preparativos
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Na quarta e na quinta feira, um grupo de gente juntou-se no Centro Cultural Altrimentri, na avenida Marie-Thérése, para preparar os cartazes. Havia ativistas do CPJPO, refugiados palestinianos, imigrantes do Magreb. Pegavam em grandes folhas de papel branco e, projetando as letras na parede, desenhavam-nas. Depois transportavam tudo para a rua, estendiam um tapete com o alfabeto, e recortavam, uma a uma, as letras – 108 no total - para compor a tarja.

Aurélien Guimard é francês, tem 30 anos. Passou umas boas horas agachado de x-ato na mão a recortar letras A e nunca se queixou. “Entrei para a organização há um ano, depois de visitar a Palestina. Percebi nessa altura que é uma minoria que cria o problema, não a maioria”, diz. Acredita que a pressão internacional é capaz de dar a volta ao problema, e é por isso que que as manifestações destes dias são importantes. “Nesse aspeto o Luxemburgo é um bom aliado para a resolução desta injustiça. Porque, apesar de ser um país pequeno, tem acesso rápido aos maiores atores da política mundial. Além de acolher muitos estrangeiros. É um bom país a partir de onde se pode explicar ao mundo como podemos viver juntos.”

Aurélien Guimard é francês, tem 30 anos. Passou umas boas horas agachado de x-ato na mão a recortar letras A e nunca se queixou.
Aurélien Guimard é francês, tem 30 anos. Passou umas boas horas agachado de x-ato na mão a recortar letras A e nunca se queixou.

Lá atrás anda numa roda viva Nashaat Darwish, 47 anos. Palestiniano, viveu toda a sua vida em Gaza – até há dois anos e três meses, quando conseguiu o estatuto de asilo político para se mudar para o Luxemburgo. “Consegui organizar o reagrupamento familiar, então no início deste ano a minha mulher e os meus filhos juntaram-se a mim. Não é possível explicar a alegria e o alívio que eu sinto.” Nos últimos dez anos, perdeu cinco familiares no território – tios e primos. “Quando mandas os teus filhos de manhã para a escola nunca tens a certeza se eles vão voltar. Viver assim é uma angústia terrível.”

Mas na luta pelo seu povo continua a arregaçar as mangas. “Ainda tenho muitos familiares em Gaza. É difícil falar com eles porque só há quatro horas de eletricidade por dia, mas aquilo de que mais se queixam neste momento nem são as bombas, é a falta de água potável.” Ombros encolhidos pela dor que a submissão lhe causa. “Não tenho nada contra os israelitas. Não tenho nada contra os judeus. O que eu queria era que vivessemos todos em paz.”

Martine Pinzi, fundadora do CPJPO.
Martine Pinzi, fundadora do CPJPO.

Martine Pinzi é uma das fundadoras do CPJPO. Também se juntou aos trabalhos na semana passada, porque ao fim de 20 anos diz não ter motivos para cessar a revolta. “Para mim é urgente que a sociedade civil se levante e apoie o movimento de revolta palestiniana em Jerusalém Oriental, nos territórios ocupados e dentro de Israel, onde as manifestações pacíficas são brutalmente reprimidas. Devemos também dar voz às acções e posições dos pacifistas de Israel, que são cada vez mais.” Se a sua voz não é ouvida, repete, então ela gritará por eles.

Critica severamente os dirigentes políticos: “Como a comunidade internacional, os EUA e a Europa não têm a coragem de forçar Israel a parar a ocupação e fazer cumprir o direito internacional é dever da sociedade civil denunciar as violações dos direitos humanos contra o povo palestiniano”, defende. E aponta o dedo aos líderes europeus: “Temos de acabar com o financiamento militar a Israel. Estamos a ser completamente incoerentes. Por um lado condenamos publicamente as ações de Israel nos territórios palestinianos, por outro financiamos os seus projectos militares e de investigação. Isto tem de parar. Não vai haver paz enquanto não formos responsáveis.”

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Caminhos para a paz
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Martine é judia, Mohamad é muçulmano. Nenhum deles acha que o problema palestiniano seja religioso.
Martine é judia, Mohamad é muçulmano. Nenhum deles acha que o problema palestiniano seja religioso.

“Não em meu nome”, diz Martine Kleinberg, judia luxemburguesa que defende a causa palestiniana – e também ela membro do CPJPO. “Israel define-se como pátria dos judeus mas não o é para mim. Se querem falar em meu nome então eu tenho de levantar a voz para contestar aquilo com que não concordo. E não posso concordar com o que acontece há décadas na Palestina.”

As raízes familiares são francesas e luxemburguesas. “Eu nasci em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. A minha bisavó foi deportada do Luxemburgo para um campo de trabalho e desconfiamos que morreu em Auschwitz. O meu pai aguentou o Holocausto escondido numa cozinha e a minha mãe nasceu em Telavive nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Então, apesar de viver longe e não me considerar israelita, pertenci ao Movimento Juvenil Judeu e tive sempre Israel no meu radar.”

Na adolescência viajou várias vezes para o Médio Oriente, e não tem memória de ver qualquer conflito. “O que mais me lembro era de ver gente com metralhadoras. Uma vez, teria uns dez anos, assisti a uma homenagem aos soldados israelitas mortos no Muro das Lamentações. Lembro-me do peso todo que a cerimónia carregava e hoje vejo a força de uma política que promovia a oposição. Ainda hoje penso que nunca haverá paz enquanto as duas partes não se convencerem que ela tem de existir.”

Hoje trabalha num gabinete de comunicação do estado, mas grande parte da sua vida foi passada como mediadora de conflitos. Esteve aliás em Israel a participar em workshops de mediação para a paz entre israelitas e palestinianos. “Foi na Europa que me apercebi que tinha de fazer alguma coisa. Juntei-me primeiro aos movimentos pela paz em França, depois aqui, quando me mudei para o Luxemburgo.” Agora prepara a criação de uma nova organização no Grão-Ducado, chamada Jewish Call For Peace – Luxembourg, e tentando reunir judeus como ela para fazerem pressão política em nome da paz no Médio Oriente.

Ao seu lado está Mohamad Zahar, 40, que a ouve atentamente anuindo com a cabeça. “Não tenho nada contra os israelitas”, diz o homem, “o que mais quero é que consigamos todos viver juntos, tolerarmo-nos e partilhar a terra com igualdade.” O pai abandonou a Palestina ainda criança, ele já nasceu nos Emirados Árabes Unidos, mas o seu sonho é voltar às raízes – e acredita que um dia conseguirá.

Traz consigo o caderno da escola do filho, onde o miúdo desenhou uma bandeira da Palestina quando a professora lhes deu tema livre. “Ainda temos a chave da nossa casa na Cisjordânia, e é lá que queremos voltar.” Não acredita que a violência seja o caminho para resolver o conflito, mas também não compreende como o mundo pode continuar calado perante tamanha injustiça. “Aqui no Luxemburgo encontrei algum consenso entre muçulmanos, cristtãos e judeus. Toda a gente parece perceber que este isolamento não pode continuar a acontecer. Então eu penso que esta guerra não tem nada a ver com religião, como muita gente diz. Tem simplesmente a ver com poder.”

Há ali um momento da conversa em que Mohamad e Martine se abraçam, e depois explicam que esse abraço é o que o povo afinal quer, dos dois lados da barricada. “Israel só vai compreender que este regime não funciona quando o grito do mundo for tão alto, tão alto, que até as pedras do deserto continuem a ecoar o som da revolta.” Então ele promete nunca se calar. E sábado, de certezinha absoluta, há de levantar os punhos pela paz na sua terra, mesmo que esteja longe, no Luxemburgo.

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