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“Os portugueses podem fazer festas em Portugal, mas com poucas pessoas, e tomando as devidas precauções”
Luxemburgo 8 min. 09.07.2020

“Os portugueses podem fazer festas em Portugal, mas com poucas pessoas, e tomando as devidas precauções”

“Os portugueses podem fazer festas em Portugal, mas com poucas pessoas, e tomando as devidas precauções”

Foto: Pierre Matgé
Luxemburgo 8 min. 09.07.2020

“Os portugueses podem fazer festas em Portugal, mas com poucas pessoas, e tomando as devidas precauções”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Esta é a recomendação do Diretor da Saúde do Luxemburgo, Jean-Claude Schmit aos imigrantes que vão de férias para o país natal. Em entrevista ao Contacto este responsável explica como se faz o rastreamento no Grão-Ducado e como poderá ser a segunda vaga, se ela chegar.

O Diretor da Saúde do Luxemburgo Jean-Claude Schmit assume que a comunidade portuguesa radicada no país queira ir passar as suas férias de verão à terra natal, como é tradição. Por isso, deixa recomendações aos imigrantes portugueses nas suas férias em Portugal, em tempo de epidemia. Nesta longa entrevista ao Contacto, este alto responsável pela saúde no Grão-Ducado explica ainda como é feito o rastreamento dos contactos no país, as previsões sobre uma “segunda vaga” da epidemia e a justificação para as turmas escolares em quarentena.

Qual a mensagem que deseja transmitir aos portugueses perante o aumento de novos casos de covid-19 aqui no Luxemburgo?

A mensagem principal é a mesma para os portugueses como para todos os habitantes do Luxemburgo: O vírus continua presente e a circular entre a população do país. Por isso, devemos todos respeitar as regras de precaução, como as medidas de higiene e o distanciamento social. Onde este distanciamento não for possível deve ser usada a máscara de proteção. Mesmo que não seja obrigatório por lei é sempre recomendável. Mesmo em situações em que não haja punição temos a responsabilidade social de nos proteger e proteger os outros.

Para quem for de férias para Portugal qual a sua recomendação?

Para as férias a mensagem principal é a mesma. Respeitar as medidas de prevenção.

Em seu entender, podem os portugueses viajar para Portugal nestas férias, ou prefere que eles fiquem no Luxemburgo?

Penso que podem ir para Portugal sob a condição de tomar precauções, as mesmas que tomam aqui, como já citei.

Portugal também se debate neste momento com o problema das festas e ajuntamentos de grande dimensão tendo algumas se tornado focos de infeção, como aqui. E o verão é tempo de festas.

Os portugueses podem fazer a festa em Portugal, mas com poucas pessoas, e tomando as devidas precauções. Recomendo que, como aqui, não façam se reúnam muitas pessoas e respeitarem sempre as regras de distanciamento social, no país natal como no Luxemburgo. Se respeitarem as medidas de prevenção em Portugal, provavelmente o risco de infeção será o mesmo do que aqui no Luxemburgo.

No final das férias, quando regressarem irão ser testados à chegada ao Luxemburgo?

Não existe uma obrigação, mas sim uma recomendação para realizar os testes de despistagem à chegada. Quem viajar de avião, quando aterrar no aeroporto [do Findel] poderá realizar o teste de despistagem gratuitamente.

E quem regressa ao Grão-Ducado de automóvel?

Como já disse não há uma obrigação para realizar os testes. Quem desejar, quando chegar ao Luxemburgo pode pedir uma prescrição ao seu médico para realizar o teste e este será gratuito. Todos os que sentirem algum dos sintomas da doença deverão mesmo fazê-lo.

O rastreamento de contactos é também fundamental para a progressão da epidemia. Como é que se realiza este processo de rastreamento?

O rastreamento é uma medida muito importante para controlar a epidemia. Sempre que uma pessoa testa positivo, o laboratório que analisa o teste avisa-nos dessa nova infeção. Os nossos serviços contactam então esse cidadão, por telefone, perguntando tudo o que fez, com quem esteve e onde esteve, nas 48 horas antes da infeção testada, sendo-lhe pedido todos os contactos das pessoas com quem esteve. Depois, telefonamos a cada uma dessas pessoas, e se eles se confirmarem o contacto pedimos para ficarem de quarentena. Em cinco dias, uma semana, essas pessoas realizam o teste de despistagem. Se der negativo podem sair da quarentena ao sétimo dia. Se testarem positivo, devem ficar em isolamento.

Se a taxa de novas infeções continuar a aumentar no Luxemburgo, os serviços da Direção da Saúde irão ter capacidade para continuar a realizar todos os contactos de forma manual, ou seja, telefonando a cada uma das pessoas?

Há pessoas que testam positivo e têm poucos contactos, agora há outros casos em que uma pessoa pode ter tido mais de 100 contactos. Com os 40 ou 50 novos casos diários de infeção, os serviços têm essa capacidade, mas se o número continuar a crescer, iremos ter dificuldade e aí vamos ter pessoal suplementar para integrar as equipas de rastreio de contactos, de modo a garantir o contacto de todas as pessoas, os que testaram positivo e os seus contactos. Vamo-nos manter pelo contacto manual.

A Ministra da Saúde Paulette Lenert assumiu numa entrevista há três dias, que 50 novos casos diários no país “é inquietante”. Está o país a caminhar para uma “segunda vaga” da epidemia?

Como se lembra, já conseguimos controlar as infeções no país, chegámos a ter muito poucas por dia, mas agora aumentaram. No início da epidemia, na “primeira vaga”, se assim quiser chamar, assistimos a um crescimento exponencial de infeções, mas por agora penso que estamos a estabilizar entre 40 a 50 novos casos por dia. A impressão que temos é que não deverá haverá um aumento maior. No início, na primeira vaga cresciam mais e mais rápido, atualmente penso que os novos casos estabilizaram, além de que não temos óbitos [desde o dia 24 de maio], por isso vamos observar o que se irá passar nos próximos dias.

Se houver uma “segunda vaga” como será a evolução da doença?

Mesmo se entrarmos numa “segunda vaga” penso que será mais fraca, mas mais longa no tempo. Ou seja, haverá menos casos e mais espaçados no tempo.

Voltando às festas que têm sucedido pelo país, pensa que com a campanha ‘Stop The Party’ e as restrições agora impostas, haverá maior sensibilização para evitar estes eventos que são um risco de focos de infeção?

A nossa preocupação com estas festas tem a ver, mais uma vez com o desrespeito pelas medidas de prevenção. Por isso, foi imposto o limite de pessoas, até 20 no máximo. E as regras têm de ser respeitadas. Ainda no fim-de-semana passado as autoridades policiais realizaram diversas ações de fiscalização.

A polícia interrompeu uma festa de 100 pessoas num estabelecimento situado em Kockelscheuer.

Sim, precisamente. Uma outra festa que decorreu há mais tempo, também com cerca de 100 pessoas foi responsável por 24 novas infeções no país. E houve outras que também causaram novos casos.

Estas festas e reuniões são, neste momento, a principal causa das novas infeções?

É uma das causas de novas infeções, sim, não é uma percentagem grande mas são responsáveis por mais casos. Há também as festas de famílias mais pequenas. Sempre que as pessoas se juntam há riscos de infeção, por isso, há que tomar sempre precauções para evitar contágios.

É importante também falar dos estudantes, das turmas que têm sido colocadas em quarentena nas escolas fundamentais e secundárias do país. A situação na comunidade escolar está controlada?

Até agora não temos provas de que o contágio dessas infeções aconteça nas escolas, é no ambiente exterior que os estudantes foram infetados, alguns na família. Em geral, felizmente, as crianças infetadas não ficam gravemente doentes. Porém, sempre que acontece um destes casos, mesmo no exterior, colocamos a classe desse estudante infetado em casa, de quarentena e realizamos testes para ver se há entre os outros colegas, alunos casos positivos.

Falta uma semana para terminar o ano escolar. Pensa que o Ministro da Educação ainda pode fechar as escolas por causa do risco de infeções.

Penso que não.

No entanto, já estão a ser realizados estudos e simulações para perceber como será a situação da epidemia em setembro, quando se iniciar o novo ano letivo.

Exatamente. O nosso desejo é que as escolas possam abrir normalmente, sem restrições, mas isso depende da situação da doença na altura. Faltam dois meses para o novo ano escolar, temos que ver como a situação evolui. Por agora não sabemos como será.

Uma última questão. No domingo passado, dia 6, o Luxemburgo era o segundo país com maior número de novos casos diários, na União Europeia. Como sabe, o rácio é feito por novos casos/100 mil habitantes. Nesse dia, a Suécia liderava, seguindo-se o Luxemburgo e depois Portugal. Como olha para estes números?

Olhamos muito seriamente, por isso, temos esta grande campanha de informação a decorrer, para todos os habitantes e também para o público lusófono, é importante que a mensagem também seja passada na língua portuguesa. Contudo, é preciso compreender esta elevada taxa de infeção do Luxemburgo. No nosso país, os números altos de casos positivos têm também a ver com a quantidade de testes que realizamos entre a população. O Luxemburgo é um país que testa muito, muito, pelo que, encontramos mais infeções que noutros países que realizam menos testes. Não é a única explicação, mas contribui muito para o número elevado de casos positivos.

Há outros fatores?

A população de trabalhadores transfronteiriços também tem de ser tida em conta. Os casos de infeção entre estes trabalhadores representam cerca de 25% do total de infeções no Luxemburgo. Estes trabalhadores moram nos países vizinhos, Alemanha, França e Bélgica, mas trabalham cá, passam cá o dia, e são testados cá também. Eles fazem parte da população luxemburguesa e os casos de infeção são também incluídos nos números totais do país. Como referi, há que compreender o que os números querem dizer.

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