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"Os portugueses mudaram e o Contacto mudou. Há 50 anos era tudo diferente"
Luxemburgo 8 min. 15.01.2020

"Os portugueses mudaram e o Contacto mudou. Há 50 anos era tudo diferente"

Uma festa do 10 de Junho nos anos 1980.

"Os portugueses mudaram e o Contacto mudou. Há 50 anos era tudo diferente"

Uma festa do 10 de Junho nos anos 1980.
Foto: Le Sibenaler/Phototheque de la Ville du Luxembourg
Luxemburgo 8 min. 15.01.2020

"Os portugueses mudaram e o Contacto mudou. Há 50 anos era tudo diferente"

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
O Contacto, jornal luxemburguês em língua portuguesa, comemora este ano meio século de história. E isso é uma bela desculpa para viajar até 1970, ano da fundação, e perceber como milhares de imigrantes portugueses se uniram em torno de umas páginas de papel.

 “O meu marido chamava-se Carlos Alberto Ferreira de Pina. Em 1970, a comunidade portuguesa era ainda pequena e, mesmo que algumas pessoas soubessem ler, pouca gente sabia escrever para um jornal”, conta Heroína de Pina, 83 anos, viúva do homem que fundou o Contacto há 50 anos. “Então ele assinava uns artigos como Carlos de Pina, outros como Alberto Ferreira, outros como Carlos Ferreira e outros como Aberto Ferreira Pina. Jogava com os nomes para parecer que havia mais gente a escrever, mas durante muito tempo foi só ele.”

Os Pina chegaram ao Luxemburgo em 1964 e cedo perceberam a falta de informação e apoio a que os portugueses estavam votados. “Nessa altura não havia sequer consulado, muito menos embaixada, mas vivam cá dois mil portugueses e o número crescia exponencialmente”, conta José Luís Correia, chefe de redação do jornal entre 1996 e 2017. “O Contacto desempenharia um papel fundamental na assistência e esclarecimento destas pessoas. E essa foi uma componente que o jornal nunca perdeu.”

Manuela Geraldes, que nos anos 1980 escrevia, editava e compunha as páginas do jornal, confirma isso mesmo. “Mesmo hoje, que trabalho na receção do Grupo Saint-Paul [a que pertencem jornais como o Contacto, o Luxemburger Wort e o Luxembourg Times e a Rádio Latina], chegam aqui portugueses que procuram soluções. Ou porque precisam de encontrar trabalho, ou porque precisam de saber o que fazer para receber as reformas, ou simplesmente porque precisam de esclarecer alguma burocracia. As pessoas habituaram-se a ver no Contacto um meio de resolverem a vida.”

Assim que se mudou para o Grão-Ducado, Carlos de Pina começou a organizar coisas para os portugueses. “A primeira coisa que fez foi uma festa no dia de Camões, a 10 de junho de 1965”, conta Heroína de Pina. Houve missa na cripta da catedral de Notre-Dame e almoço no antigo restaurante Carrefour, no Boulevard Royal, onde passaram filmes sobre Portugal. Um artigo do Luxemburger Wort da época dá conta de que a adesão surpreendeu toda a gente – em vez da centena de pessoas que Pina esperava, apareceram 500.

A capa do primeiro Contacto, publicada em janeiro de 1970.
A capa do primeiro Contacto, publicada em janeiro de 1970.
Foto: Guy Wolff

Essa mobilização fez Carlos de Pina cimentar a ideia de que era realmente necessário unir a comunidade. Em Portugal tinha passado anos na Ação Católica e, ao perceber que havia um santuário de Fátima em Wiltz, começou a montar a estrutura para uma peregrinação lusófona. A primeira aconteceria em 1968 e mobilizaria centenas de pessoas. A partir de então, cresceria todos os anos – atualmente, reúne entre 20 a 30 mil pessoas. Nestes eventos, os portugueses começavam finalmente a ter pontos de encontro. Passo a passo, a comunidade unia-se.

O pontapé definitivo dar-se-ia em 1969, quando Carlos de Pina e Lucien Huss, homem forte da igreja católica no país, decidem fundar a Amitié Portugal Luxembourg (a APL, que em 2019 mudaria de nome para Amitié Plurielle Luxembourg). “A lei na altura dizia que, para constituir uma associação, eram necessárias cinco pessoas – e três delas tinham de ser luxemburguesas”, conta Heroína de Pina. Então entrou também Charles Kraus, professor de luxemburguês ligado à comunidade portuguesa, o sindicalista da LCGB Marcel Glesener, Gustave Glodt, ligado à igreja luxemburguesa, e o padre português Manuel Pereira. Angariavam para além de tudo grande apoio de Marcel Barnich, responsável pelo serviço social do Grão-Ducado à imigração.

A fundação do Contacto, em janeiro de 1970, seria liderada por Pina e Huss. No primeiro número percebe-se bem a linha editorial do jornal. A primeira página apresenta uma oração sobre o Natal dos emigrantes, uma rúbrica para explicar a história e hábitos da vida luxemburguesa aos portugueses e um editorial onde o jornal assumia a sua missão de “servir de ajuda aos emigrantes portugueses, através de uma informação útil para a sua vida quotidiana, profissional e social”, “desenvolver os contactos humanos e culturais entre portugueses e luxemburgueses” e “promover os contactos dos portugueses entre si”.

Nesse ano, os governos de Lisboa e do Grão-Ducado assinariam um acordo para contratar mão de obra portuguesa – e os números explodem. Se em 1969 havia 2.757 portugueses no país, de acordo com o Consulado, em 1970 o número ultrapassaria 11 mil. Em 1973, os portugueses seriam 24.437. “Até essa altura a comunidade portuguesa vivia essencialmente no sul do país. Tinham vindo das regiões vinícolas do Dão, da Bairrada e do Vinho Verde trabalhar para as vinhas da Mosele”, conta Manuela Geraldes. “Mas agora as circunstâncias mudavam.”

Os portugueses, sobretudo homens jovens, espalham-se por todo o país. Muitos empregam-se nas fábricas de siderurgia do sul, outros trabalham na construção civil, as mulheres vão chegando nos anos seguintes e empregam-se nas limpezas Na capital, as famílias ocupam sobretudo a zona baixa. Vivem no Grund, Clausen e Pfafenthal em habitações espartanas. “A maioria não tinha sequer casa de banho”, continua Manuela, “não faltavam ruas sem esgotos onde os despejos eram feitos na rua.” Em dezembro de 1970, o jornal faz uma reportagem denunciando as condições de vida dos trabalhadores solteiros que viviam por cima dos cafés. Meses depois, o Contacto começa a pressionar as autoridades luxemburguesas para facilitarem os reagrupamentos familiares. Nos anos seguintes, o jornal passa a incluir um suplemento chamado O Trabalho, onde se esclarecem os direitos laborais da comunidade.

Carlos de Pina escrevia quase tudo, como já se viu. “O jornal era impresso numa gráfica em Gouveia e lembro-me de ver o meu marido com tesoura e cola a compor as maquetes, que depois mandava para Portugal”, conta Heroína. “Os jornais voltavam de avião mas, como havia pouquíssimos voos, não podia haver atrasos. Quando acontecia, podiam passar-se meses sem que a comunidade recebesse notícias.” Em casa, toda a família colaborava a dobrar as folhas em três. Depois, os jornais eram entregues porta a porta – em casa dos assinantes e nos cafés e coletividades onde os portugueses se reuniam. Com a abertura de delegações da APL por todo o país, o jornal rapidamente se espalhava pelo Grão-Ducado.

Há um artigo de 1972 que faz um bom perfil da comunidade portuguesa da altura. “Somos 16 mil portugueses. Existe apenas um padre. Temos uma única assistente social, paga pelo governo português. Para 700 crianças existem apenas duas professoras primárias. Para 1.300 em idade pré-escolar não temos uma única creche. Na segurança social sentimo-nos desprotegidos pela parte portuguesa. Continuamos com a nossa emigração desorganizada com todos os prejuízos que daí advêm.”

O tom crítico do jornal era constante. Nesse mesmo número, uma reportagem visitou uma casa onde viviam 28 rapazes. Os contratos que os patrões luxemburgueses celebravam com os portugueses incluíam normalmente um bilhete de avião e alojamento, descontado ao salário cada final de mês. Naquela casa do Grund, os portugueses viviam em colchões encostados uns aos outros, no chão. Não tinham casas de banho, a roupa de cama nunca fora lavada, aquecimento não havia. “Os patrões não recebem subsídio de alojamento para os operários? Quem fiscaliza o seu emprego”, perguntava o jornal.

Em 1997, o Contacto passou a quinzenal. Hoje é semanário.
Em 1997, o Contacto passou a quinzenal. Hoje é semanário.
Foto: Teddy Jaans

Estes homens e estas mulheres tinham afinal vindo de Portugal reconstruir uma Europa destruída pela Guerra. Foram deles os braços que levantaram as ruínas e limparam as cinzas da paisagem luxemburguesa. Um pequeno jornal tentou dar-lhes as armas e o esclarecimento para lutarem pela sua própria dignidade. Lembrou-lhes que a sua condição não era inferior a ninguém. E mostrou-lhes que, em certa medida, eram verdadeiros heróis.

Uma enorme transição

Em 1987, um ano depois da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia, a APL cede o Contacto ao Grupo Saint-Paul, que fazia o Luxemburger Wort, o diário mais antigo do país. O padre Belmiro Narino escrevia os editoriais, Manuela Geraldes escrevia praticamente toda a edição e, nos dez anos seguintes, vários correspondentes começam a juntar-se à redação. Em 1996 começa a preparar-se a passagem do Contacto a quinzenal – e as coisas correram tão bem que, em 1999, o jornal torna-se semanal. Até hoje.

“Isto obrigou a um enorme esforço de profissionalização”, conta José Luís Correia, chefe de redação de 1996 a 2017. “Quando eu pego no jornal, já temos segundas e terceiras gerações de portugueses no Grão-Ducado e estes leitores tinham necessidades diferentes.” Abrem secções de internacional, notícias sobre os acontecimentos em Portugal, as notícias do Luxemburgo expandem-se da comunidade portuguesa a a uma audiência lusófona. “A política e a economia do país também passam a entrar nas notícias, tal como a cultura. Tínhamos de fazer um jornal que servisse simultaneamente o operário da construção civil e o funcionário de topo das instituições europeias.”

Ao comemorar 50 anos, o Contacto aposta num novo modelo gráfico que o diretor de arte do Grupo Saint-Paul, Eberhard Wolf, quer ver “premiado como o melhor semanário da Europa”. De resto, a essência mantem-se: dar à comunidade lusófona do Luxemburgo a informação de que precisam para tomar as suas próprias decisões esclarecidas.


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