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Os portugueses mais conhecidos de Esch. Tun, o transformador de cabelos
Luxemburgo 5 min. 17.06.2022
Figuras

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Tun, o transformador de cabelos

Mais conhecido por Tun, António de Oliveira é proprietário de um salão de cabeleireiro na Rue de l’Alzette.
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Os portugueses mais conhecidos de Esch. Tun, o transformador de cabelos

Mais conhecido por Tun, António de Oliveira é proprietário de um salão de cabeleireiro na Rue de l’Alzette.
Foto: Claude Piscitelli
Luxemburgo 5 min. 17.06.2022
Figuras

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Tun, o transformador de cabelos

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. O Miro do talho, o Jorge das bicicletas e o Tun dos cabelos. As irmãs Soares da costura e o casal Lopes do restaurante. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço. Sem eles, o comércio no centro de Esch não seria o mesmo.

Na Rue de l’Alzette, a maior rua pedonal do Luxemburgo, com mais de 900 metros, e a mais importante via comercial de Esch, há um cabeleireiro chamado Coiffeur Créateur byTun. O Tun é o Toni, alcunha de António de Oliveira, 47 anos, que é o dono do espaço. Toda a gente o conhece por "Tun", porque quando começou a trabalhar como cabeleireiro, o patrão disse-lhe que António era muito grande para pronunciar. "Tun é o equivalente a Toni em luxemburguês. Todos me chamam Tun. Se me chamarem António eu já nem reajo", contou o português.

Na verdade, António é mais luxemburguês do que português. Chegou ao Grão-Ducado com apenas 15 dias de vida. "É como se tivesse nascido aqui. Tenho mais recordações em Esch do que na aldeia onde nasci". Os pais emigraram de Amares, Braga, em 1975. Primeiro o pai, para trabalhar na construção, e uns meses mais tarde a mãe, logo depois de dar à luz, para trabalhar como empregada de limpeza. Os dois irmãos, um é quatro anos mais novo e o outro tem menos 18 anos, já nasceram no Luxemburgo. Tal como António, que vive com o seu companheiro, todos ficaram em Esch.

Foto: Claude Piscitelli

Gostei sempre de cortar cabelo. Tinha ciúmes das raparigas, porque tinham bonecas e eu não. A primeira boneca que recebi foi aos 16 anos quando comecei a cortar cabelo.

Tun teve uma infância muito luxemburguesa, porque naquela altura ainda não havia muitos portugueses. Ele era o único português da sua turma na Escola do Brill. "Desde criança que falava luxemburguês com as vizinhas, ou as ‘tias’, como eu lhes chamava. Para mim é mais difícil falar português do que o francês, o alemão ou o luxemburguês. Só falava português com a minha mãe", explicou, num sotaque denunciado, ainda misturando algumas palavras em francês e luxemburguês no meio do português. "Nunca pratiquei muito o português. O pouco que escrevo não sei se é ‘juste’", disse, pedindo à colega Maria, que também é portuguesa, para o ajudar a traduzir aquela palavra para ‘correto’.


Rasqui Cycles - Jorge Francisco  - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Jorge, o rei das bicicletas
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

A paixão pelos cabelos surgiu muito cedo. "Gostei sempre de cortar cabelo. Sempre fui ‘jalous’… Maria, como se diz ‘jalous’ em português? Ciumento! Sempre tive ciúmes das raparigas, porque tinham todas bonecas e eu não. A primeira boneca que eu recebi foi aos 16 anos quando comecei a cortar cabelo", recordou. 

O cabelo sempre o "passioné", sempre o apaixonou. Com aquela idade, deixou a escola e foi estagiar num cabeleireiro. E sempre que passava na Rue de l’Alzette e via aquela loja, imaginava-se um dia a trabalhar lá. "Via todos a trabalhar vestidos de branco e queria estar ali. Disse a uma senhora que queria trabalhar no salão e comecei lá com 21 anos. Mais tarde decidi comprar o espaço. Estou aqui há 18 anos e comprei há nove".

É a matéria cabelo que me apaixona. A forma como se pode mudar alguém. Não digo que uma pessoa entra feia e sai bonita, mas sai com um cabelo diferente.


Restaurant Welcome - M et Mme Lopes - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Casal Lopes, o legado português
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

Agora também trabalha vestido de branco, de calças e camisa em padrões que jogam com o preto, a mesma cor dos seus óculos que fazem a imagem de marca. Todos os dias, pelas 6h30, está no salão. O estabelecimento só abre às 7h, mas Tun precisa da sua meia hora para beber o café. Apesar de ser o proprietário do espaço, ainda corta cabelos. Trabalha sempre até às 19h, exceto aos domingos e segundas-feiras. Mas mesmo nas folgas continua a dedicar-se à sua paixão. "Sou diretor artístico da Intercoiffure Luxembourg e tenho semanas em que recebo formação e outras em que dou formação. Estou sempre a procurar novidades para o cabelo e para a cosmética".

O que realmente o fascina no trabalho é a "transformação do cabelo", conta. "Gosto muito de trabalhar com os cabelos compridos. Um cabelo liso que se transforma em caracóis ou um cabelo curto que torno grande. É a matéria cabelo que me apaixona. A forma como se pode mudar alguém. Não digo que uma pessoa entra feia e sai bonita, mas sai com um cabelo diferente".

Foto: Claude Piscitelli

O salão é muito conhecido entre a comunidade portuguesa. Sou um rapaz de Esch, a maior parte das pessoas conhece-me.

Além de Tun, trabalham mais 14 pessoas naquele salão, 13 mulheres e um homem. Duas cabeleireiras são portuguesas, mas a maior parte das clientes são luxemburguesas. "Tenho poucas clientes portuguesas. Quase não falo português no salão, mas é muito conhecido entre a comunidade portuguesa. Sou um rapaz de Esch, a maior parte das pessoas conhece-me".


Os portugueses mais conhecidos de Esch. Miro, o CR7 do talho
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

Como passa grande parte do seu tempo a trabalhar, Tun acaba por se dar mais com os luxemburgueses. "Os poucos amigos portugueses que tenho não vivem no Luxemburgo. Não tenho amigos portugueses aqui", confessou. A Portugal também raramente vai. "Fui duas ou três vezes quando era criança. Lembro-me de ver a minha mãe a lavar a roupa no tanque. Depois crescemos e já não queríamos ir para Portugal, perdemos um pouco essa ligação. Como adulto só fui para dar formações e uma vez fui de férias. Senti-me como turista. Fiquei chocado porque no Algarve falei mais inglês do que português", recordou.

Foto: Claude Piscitelli

É uma honra ter o meu salão no centro da cidade. O meu sonho foi realizado. Mas é um desafio de todos os dias. Não é só cortar cabelo.


Aiguille d'Or Maria & Christina Soares  - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Maria e Christina, as manas da costura
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

O português gosta de estar no Luxemburgo e não quer deixar a cidade onde sempre viveu. "Eu nasci em Esch e vou morrer em Esch. É uma vila em que se pode falar em 20 minutos português, espanhol, italiano, inglês, chinês, árabe… cresci sempre com outras culturas. Esch tem um ‘stempel’, um carimbo de diversidade", descreveu Tun, garantindo que a cidade pode crescer ainda mais. "Quanto mais uma cidade crescer e mais pessoas tiver, mais culturas e línguas vão aparecer. É isso que me fascina em Esch. Daqui a 20 ou 30 anos, seja em Esch, Paris ou Londres, vai haver diversidade de culturas. Encontro mais culturas aqui do que na capital".

António também tem muito orgulho em poder trabalhar na Rue de l’Alzette, a maior rua comercial do país. "É uma rua que tem sempre vida, seja de dia ou de noite. Nunca se está sozinho nesta rua. É ‘un honneur’... uma honra, poder ter o meu salão no centro da cidade. É um prazer. Disse sempre que queria ter este salão. O meu 'rêve', o meu sonho, foi realizado. Mas não é só abrir o salão, também é preciso dar e procurar novidades, para ter novos clientes. É um desafio de todos os dias. Não é só cortar cabelo".

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