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Os portugueses mais conhecidos de Esch. Maria e Christina, as manas da costura
Luxemburgo 5 min. 18.06.2022
Figuras

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Maria e Christina, as manas da costura

As irmãs Maria e Theresa Soares emigraram para o Luxemburgo e trabalharam sempre juntas numa loja de costura.
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Os portugueses mais conhecidos de Esch. Maria e Christina, as manas da costura

As irmãs Maria e Theresa Soares emigraram para o Luxemburgo e trabalharam sempre juntas numa loja de costura.
Foto: Claude Piscitelli
Luxemburgo 5 min. 18.06.2022
Figuras

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Maria e Christina, as manas da costura

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. O Miro do talho, o Jorge das bicicletas e o Tun dos cabelos. As irmãs Soares da costura e o casal Lopes do restaurante. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço. Sem eles, o comércio no centro de Esch não seria o mesmo.

Maria e Christina Soares têm um percurso de vida muito parecido. São irmãs e estiveram sempre juntas. Nasceram na pequena aldeia de Barbas Novas, no concelho de Pombal. Têm apenas dois anos de diferença. Maria é mais velha, com 54 anos, e Christina tem 52. Ao todo são cinco irmãos. Tiveram uma infância e adolescência pacatas na vida da aldeia. O pai emigrou para o Luxemburgo em 1970, para trabalhar na construção. A mãe não quis ir, mas as duas irmãs, assim que atingiram a maioridade, quiserem sair de Portugal.

A mais velha veio primeiro, com 19 anos. "Não tínhamos estudos, por isso viemos para trabalhar. Em Portugal não havia futuro para nós. Nas aldeias as pessoas só faziam a escola obrigatória. Aprendemos a fazer costura, mas não me fascinava. Ficávamos ali na aldeia, não saíamos, não conhecíamos nada. Eu queria descobrir o mundo. Sabia que mais tarde ou mais cedo teria que emigrar", contou Maria.

Tinha uma grande paixão por estudar. Foi uma pena não ter estudado mais. Gostava muito de desenho e apliquei a minha arte na costura. Foi a única coisa que sobrou do meu sonho.

Maria

A portuguesa confessa que gostaria de ter prosseguido os estudos. "Eu tinha uma grande paixão por estudar. Foi uma pena não ter estudado mais. Ainda hoje sinto isso. Talvez nunca tivesse emigrado. Mas nunca me arrependi de vir para cá. Eu gostava muito de desenho, por isso é que apliquei a minha arte na costura. Foi a única coisa que sobrou do meu sonho".

Foto: Claude Piscitelli

Gostava muito de jogar futebol, mas infelizmente não podia seguir naquela altura, era um tabu. Mais tarde tive uma recompensa: eu não fui futebolista, mas foi um filho meu.

Theresa

A irmã mais nova foi ter com Maria dois anos mais tarde. Também aos 19. E também deixando o seu sonho para trás. "A minha irmã ensinou-me a costura e acabei por ganhar gosto. Mas eu queria era o desporto. Gostava muito de jogar futebol, mas infelizmente não podia seguir naquela altura. Os rapazes tinham medo de jogar contra mim, batia-os a todos lá na aldeia", revelou, às gargalhadas. "Mas mais tarde tive uma recompensa: eu não fui futebolista, mas foi um filho meu, que joga no Jeunesse d’Esch. Tive muita pena de não ter seguido, mas naquela altura era um tabu".


Coiffure by TUN - António de Oliveira - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Tun, o transformador de cabelos
Chegou ao Grão-Ducado com apenas 15 dias de vida. A sua vida são os cabelos. Mais um português que toda a gente conhece em Esch.

Trabalharam juntas numa loja que Maria alugou. Ambas casaram com emigrantes portugueses que conheceram no Luxemburgo. Maria teve três filhos e Christina teve dois. Em 1995, a irmã mais velha decidiu comprar um espaço na Rue du Brill, em Esch, que até hoje continua a ser o local de trabalho das manas Soares. A loja Aiguille d’Or já tem 27 anos e é um dos estabelecimentos históricos do centro da cidade. Sobretudo entre a comunidade portuguesa. "Temos bastantes clientes portugueses. Mas há um pouco de tudo. Muitos cabo-verdianos, luxemburgueses, italianos, muitas nacionalidades", afirmou Maria.

A trabalhar na loja já chegaram a estar cinco costureiras, mas a equipa foi diminuindo nos últimos anos e agora são só três. Um reflexo dos tempos difíceis para o comércio. "Temos uma belga a trabalhar connosco há 25 anos, mas também vai embora. Não temos possibilidades económicas para pagar. O nosso salário é muito baixo. É complicado, porque já somos quase uma família", admitiu a irmã mais velha.

Trabalhamos sempre juntas. Quando chegarmos à reforma, vamos fechar a loja. Para poder descansar, porque trabalhamos muito durante estes anos.

Maria

Agora vão ficar só as duas na loja, até chegarem à idade da reforma. Para Maria são mais seis anos e para Christina mais oito. "Depois queremos fechar a loja, para poder descansar, porque trabalhamos muito durante estes anos. A costura leva muitas horas, às vezes fechamos a porta e continuamos a trabalhar”, explicou Maria.


Rasqui Cycles - Jorge Francisco  - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Jorge, o rei das bicicletas
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

As irmãs nunca se separaram. "Trabalhamos sempre juntas, mesmo em Portugal fazíamos as duas a costura em casa", lembram. Elas reconhecem que já tiveram tempos bons no negócio, mas que agora está complicado, sobretudo depois da pandemia e da recente crise e da inflação.

Trabalham de segunda a sábado e só folgam aos domingos e às segundas de manhã. Começam sempre às 8h30 e só fecham às 18h, apesar de muitas vezes continuarem na loja por mais umas horas. "É uma vida de muitas horas de trabalho. Por isso é que hoje já não há jovens que queiram substituir. Um dia quando fecharmos a loja já sei que não vou ter ninguém que queira pegar nisto", lamentou Maria.

Foto: Claude Piscitelli

Quero viver no Luxemburgo sem trabalhar. Eu nunca pude aproveitar para conhecer o país. A costura já não nos dá muito agora. Já deu, mas agora não.

Maria

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Miro, o CR7 do talho
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

Na loja fazem um pouco de tudo. "Muitos clientes pedem para apertar os fatos ou as calças. Querem fazer dobras ou ajustar, para ficar mais apertadinho. Recebemos muitos casacos e os vestidos para cerimónias também", descreveram. A grande dificuldade do negócio é que, por não haver marcação, a afluência varia muito. "Há dias em que recebemos muita gente e há dias que há muito pouco. As pessoas vêm quando querem. O preço também não pode ser muito alto, porque a mão de obra está baixa. Depois temos de trabalhar à noite para compensar".

Maria e Theresa vivem em Esch e gostam da cidade. "Tem tudo o que a gente precisa. Às vezes passo meses sem ir à capital. A nível cultural, evoluiu muito nos últimos anos. Também há a universidade e facilidade de transportes. A nível de saúde também tem tudo", apontou a mais velha. Quando chegarem à idade da reforma, as irmãs querem ficar no Grão-Ducado. "Nós passamos uma vida inteira a trabalhar. Nunca tive tempo para dar aos meus filhos o que eles precisavam. Quero compensá-los quando tiver a pensão, não me quero ausentar. Se eles tiverem filhos eu também os quero ver", justificou.


Restaurant Welcome - M et Mme Lopes - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Casal Lopes, o legado português
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

Voltar ao país de origem só nas férias, garantem. "Não estamos muito agarradas a Portugal. Não nos deu nada. Tivemos de sair de lá à procura de uma vida melhor. Portugal é muito bonito, mas não me deu o que eu queria. Quero ir lá de férias, porque gosto muito. Mas não me quero afastar dos filhos", afirmou Maria, que quer aproveitar a reforma para conhecer melhor o país que a acolheu. "Quero viver no Luxemburgo sem trabalhar. Aproveitar o país sem estar a trabalhar. Eu nunca pude aproveitar para conhecer. A costura já não nos dá muito agora. Já deu, mas agora não".

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