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Os portugueses mais conhecidos de Esch. Jorge, o rei das bicicletas
Luxemburgo 6 min. 16.06.2022
Figuras

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Jorge, o rei das bicicletas

Jorge Francisco é proprietário da centenária loja de bicicletas Rasqui Cycles, na Rue du Brill, há 23 anos.
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Os portugueses mais conhecidos de Esch. Jorge, o rei das bicicletas

Jorge Francisco é proprietário da centenária loja de bicicletas Rasqui Cycles, na Rue du Brill, há 23 anos.
Foto: Claude Piscitelli
Luxemburgo 6 min. 16.06.2022
Figuras

Os portugueses mais conhecidos de Esch. Jorge, o rei das bicicletas

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. O Miro do talho, o Jorge das bicicletas e o Tun dos cabelos. As irmãs Soares da costura e o casal Lopes do restaurante. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço. Sem eles, o comércio no centro de Esch não seria o mesmo.

Ali na famosa Rue du Brill, cheiinha de comércio português, encontra-se uma loja histórica de Esch-sur-Alzette. A Rasqui Cycles tem qualquer coisa como 106 anos de existência. Quem lá entra sabe exatamente para o que vai. É o sítio certo para quem tem uma paixão por bicicletas. Como Jorge Francisco, 54 anos, o português que é hoje proprietário do espaço. Ali todos o conhecem como "Jorge das bicicletas".

Tudo o que há para saber sobre o velocípede é com ele. Seja para comprar, reparar ou construir. Ou simplesmente para ouvir algumas das suas histórias, como a do dia em que o Acácio da Silva foi à sua loja ou a da sua participação no Giro de Itália.

A vida de Jorge esteve sempre ligada às bicicletas. Nasceu em Torres Vedras, fazendo questão de lembrar que é da mesma terra do ciclista Joaquim Agostinho. Em 1969, quanto tinha apenas um ano, os pais emigraram para o Luxemburgo. O pai era soldador e a mãe empregada de limpeza. Moraram em Schifflange durante 26 anos. Jorge fez lá a sua escola luxemburguesa e a portuguesa fê-la na Escola do Brill, em Esch. Foi na adolescência que descobriu o gosto pelas bicicletas. "Sempre fui um bocadinho cheio. Então o meu pai dizia: ‘faz bicicleta, faz bicicleta’. Começamos a andar de bicicleta e eu gostei tanto que decidi tornar-me mecânico de bicicletas", conta a rir-se.

Foto: Claude Piscitelli

Houve uns anos em que fiz muitos quilómetros. O meu melhor ano foram 20 mil quilómetros de bicicleta, mas tinha 45 quilos a menos.

Foi assim que Jorge começou a trabalhar naquela loja centenária, há 36 anos. Rasqui era um ciclista luxemburguês que correu na Volta à França e decidiu abrir um espaço dedicado ao seu amor pelas bicicletas. "Não é uma loja que vem do nada, tem muita história. Ao início ainda era no tempo da guerra e até vendiam carvão. O Rasqui passou isto para o filho dele, com quem ainda trabalhei durante um mês, e depois o meu patrão ficou com a loja", recordou. Há 23 anos, o patrão reformou-se e passou o legado para Jorge. "Eu peguei, tentei a minha sorte e graças a Deus até ao dia de hoje ainda estou aqui".


Os portugueses mais conhecidos de Esch. Miro, o CR7 do talho
Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

Ele próprio foi ciclista, apesar de nunca ter sido profissional. "Houve uns anos em que fiz muitos quilómetros. As pessoas que me conhecem sabem bem o quanto andei. O meu melhor ano foram 20 mil quilómetros de bicicleta, mas tinha 45 quilos a menos. Hoje já não ando, como dá para ver", brincou, olhando para a barriga enquanto soltava uma gargalhada. Apesar de não ter corrido, Jorge até chegou a entrar no circuito. "Fui fazendo cursos com mecânicos da Volta à França e uma vez até fui mecânico do Giro de Itália. Mas foi só uma vez, porque era outro patamar e muito stress, era muito mais intenso. Já tenho uma certa idade e precisam de pessoas jovens e rápidas".

Depois de tantos anos com as bicicletas, deixou de pedalar e passou a dedicar-se apenas à loja. "Começou a ser cada vez mais trabalho. A única coisa que eu não fazia com uma bicicleta era dormir com a minha mulher", confessou, entre risos. Agora é na loja que passa os seus dias. "Chego aqui por volta das 8h45 e fico até às 19h. Como qualquer coisa aqui à volta, porque há muitos restaurantes portugueses bons".

Fazemos reparações e construções de todo o tipo de bicicletas. Mesmo para crianças com deficiência arranjamos uma bicicleta especial. Personalizamos tudo.


Restaurant Welcome - M et Mme Lopes - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Casal Lopes, o legado português
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Jorge tem dois jovens a trabalhar com ele, um português e outro brasileiro, mais um senhor luxemburguês que vai ajudando de vez em quando. E a cadela da raça pastor-alemão que carinhosamente apelidou de "Ti Amo" e que vai recebendo os clientes.

A maior parte da clientela é portuguesa, mas também há muitos luxemburgueses. "Todos os dias falo português, mas também falo luxemburguês, francês, alemão, italiano e um pouco de inglês", revelou. Na loja fazem um pouco de tudo. "Fazemos reparações e construções de todo o tipo de bicicletas. Vendemos tudo o que são acessórios e peças. Mesmo para crianças com deficiência arranjamos uma bicicleta especial. Também fazemos bicicletas com um só travão para as pessoas que só têm uma mão. Personalizamos tudo", assegurou o português.

Foto: Claude Piscitelli

Até tenho ex-ciclistas profissionais que vêm à minha loja, como o português Acácio da Silva ou o luxemburguês Benoît Joachim. Fico muito contente.

Além dos clientes habituais, a Rasqui Cycles também já recebeu alguns ilustres conhecidos do desporto. "Com muito prazer até tenho ex-profissionais que vêm aqui à minha loja, como o Acácio da Silva. Tenho fotografias com ele, a andar com a minha roupa. Também tive aqui o Benoît Joachim, um ex-ciclista luxemburguês e antigo ajudante do Lance Armstrong. Fico muito contente com esta clientela", admitiu Jorge, garantindo que não pensa só no negócio. "Não vejo a minha loja como só para venda. E isso faz vender. Estou aqui para ajudar as pessoas. Há muitos portugueses que vêm aqui à loja para me pedir ajuda, às vezes até para preencher papéis".


Coiffure by TUN - António de Oliveira - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
Os portugueses mais conhecidos de Esch. Tun, o transformador de cabelos
Chegou ao Grão-Ducado com apenas 15 dias de vida. A sua vida são os cabelos. Mais um português que toda a gente conhece em Esch.

Hoje, Jorge vive em Belvaux com a mulher, que é luxemburguesa, e os dois filhos. A filha tem 26 anos e está na universidade e o filho tem 21 e quer ser instrutor de condução. A Esch vai mais para trabalhar. "E também para as saídas à noite. Já não é como antigamente, nos anos 80, mas ainda há algumas saídas à noite e aos restaurantes", revelou, divertido.

Para o português, há algo de especial em Esch. "É uma cidade com muita cultura. Se procurar um sítio que tenha mais nacionalidades, é aqui. É muito interessante, porque num dia podemos estar a falar sobre Cabo Verde com um cabo-verdiano, noutro dia com um italiano sobre Itália e noutro com um sueco sobre a Suécia. Há este multiculturalismo".

Foto: Claude Piscitelli

Vou ficar aqui a viver, porque os meus amigos todos estão cá e tenho a amizade com os clientes. Viver em Portugal nunca mais. Só por um mês ou para passar férias.


Aiguille d'Or Maria & Christina Soares  - Esch/Alzette -  - 09/06/2022 - photo: claude piscitelli
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Em Esch-sur-Alzette, toda a gente sabe quem são. Os portugueses que ao longo dos anos se tornaram autênticos monumentos da cidade. Como se diz na gíria popular, são mais conhecidos que o tremoço.

Sobre aquela cidade, não tem nada de mal a dizer. "Esch deu-me a vida que tenho aos dias de hoje. Uma pessoa nunca pode falar mal da cidade que nos ajudou". Jorge também gosta muito de Portugal e adora ir de férias a Torres Vedras, para ver o irmão. Mas não pensa em voltar para lá definitivamente. "É como o ‘tá aqui, tá lá’. Quero ir para lá e quero vir para cá. Vou ficar aqui a viver, porque os meus amigos todos estão cá e tenho a amizade com os clientes. Viver em Portugal nunca mais. Só por um mês ou para passar férias. Quando estiver bom tempo vou para lá".

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