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“Os portugueses dizem que não são racistas, mas quantos deles vieram aqui protestar connosco?”
Luxemburgo 21 3 min. 11.01.2020

“Os portugueses dizem que não são racistas, mas quantos deles vieram aqui protestar connosco?”

“Os portugueses dizem que não são racistas, mas quantos deles vieram aqui protestar connosco?”

Sibila Lind
Luxemburgo 21 3 min. 11.01.2020

“Os portugueses dizem que não são racistas, mas quantos deles vieram aqui protestar connosco?”

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
A morte de Luís Giovani levou hoje 400 cabo-verdianos à porta da embaixada portuguesa no Luxemburgo. Traziam velas, rosas e muitas críticas às autoridades e meios de comunicação social de Lisboa. Muitos queixaram-se do “racismo estrutural” dos portugueses – inclusive no Grão-Ducado.

A marcha ainda só tinha saído há uns minutos do parque de estacionamento de Hollerich, mas Elisangela Fortes, que toda a gente trata por Lizzy, já fervia. "Como é que, 11 dias depois de o rapaz morrer, 21 dias depois de ser atacado, ainda ninguém foi preso? O ataque aconteceu num sítio público, a discoteca onde começou a discussão há de de ter câmaras. Não consigo perceber isto, ninguém consegue perceber isto. E é por isso que aqui estamos hoje". 

A morte de Luís Giovani Rodrigues, estudante cabo-verdiano espancado violentamente por um grupo de portugueses em Bragança, deixou a comunidade africana do Luxemburgo em choque. 

"Muita gente nos interpelou a pedir que fizéssemos qualquer coisa", diz Antónia Ganeto, porta-voz da Finca-Pé, associação que marcou a marcha deste sábado. "Decidimos fazer esta caminhada até à embaixada de Portugal, em homenagem ao Giovani mas também em protesto. A indiferença das autoridades portuguesas com um caso tão bárbaro de violência é chocante, sobretudo nos primeiros dias. Sentimos que, se não fosse a pressão diplomática de Cabo Verde, a investigação não teria sequer avançado". 

Sibila Lind

As críticas estendem-se à comunicação social de Lisboa. "Os meios portugueses ignoraram completamente este caso, até não poderem continuar a fazê-lo. Não deixa de ser sintomático que tenha sido o Contacto, um jornal do Luxemburgo, o primeiro a dar informações rigorosas sobre o que tinha acontecido". 

Horas mais tarde, a direção da Finca-Pé haveria de reunir-se com os embaixadores de Portugal e de Cabo Verde e receberia a confirmação de que a revolta e a indignação dos cabo-verdianos do Luxemburgo chegaria a Lisboa.

"Racismo? Com certeza"

O passeio em frente à embaixada tornar-se-ia pequeno para tanta gente e obrigaria a polícia a fechar uma das faixas de rodagem da Route de Longwy. Muita gente tinha trazido flores, sobretudo rosas brancas, em sinal de paz, que seriam depositadas numa espécie de memorial – decorado também com cartazes, velas e fotografias de Giovani. Fez-se um minuto de silêncio, houve discursos e canções.

Sibila Lind

Carlos Semedo, embaixador de Cabo Verde, serenava os ânimos: "Confiamos totalmente nas autoridades portuguesas e acreditamos que este caso, apesar de muito triste, foi excecional". António Gamito, embaixador português, dir-se-ia inclusivamente honrado por receber esta manifestação. "Estamos todos do mesmo lado e queremos todos que a justiça seja célere". Mas também admitiria o que muita gente já tinha reparado: "Gostava que estivessem aqui hoje mais portugueses". 

Antónia Ganeto, da Finca-Pé, diz esperar que o caso de Giovani não crie novas tensões entre as comunidades portuguesa e cabo-verdiana, mas diz que elas existem. "Há muitos estudos que confirmam o racismo estrutural dos portugueses. Apesar de haver um discurso oficial de que a colonização portuguesa foi branda, apesar de ter havido mestiçagem, os cabo-verdianos em Portugal são empurrados para guetos e condenados à invisibilidade social constante". E no Luxemburgo? "Bem, não convocámos só o povo cabo-verdiano para esta manifestação. Toda gente podia ver. Mas quantos vieram?".

Sibila Lind

Não eram mais de meia dúzia. Entre eles estava Maria Alcina Lopes e a sua opinião não deixava margem para dúvidas: "Este crime tem uma motivação racista e o racismo tem de ser punido exemplarmente. Não me interessa se o Giovani era branco ou preto. Tem a idade do meu filho, e isso é que me impressiona. Se eu mandar o meu filho estudar para Portugal, quero saber que ele está seguro". 

Gianni Filipe e Jenilson Modesto, 18 e 16 anos, ouvem a conversa e resolvem intervir: "Nós não dizemos que todos os portugueses são racistas, mas a verdade é que, aqui no Luxemburgo, são eles quem mais nos discrimina. Chamam-nos constantemente de macacos e pretos de merda".

Sibila Lind

Lizzy também tem uma coisa a dizer. Adora Portugal e tem tantos amigos portugueses que não se conforma que eles hoje tenham falhado a chamada. "Há sinais, sabe? Eu trabalho numa cantina, já fiz limpezas, e, mesmo que tenha mais experiência que uma portuguesa, sei que ela me vai dar o pior trabalho e o pior turno. E estas coisas moem, aleijam devagarinho. Se ao menos tivessem vindo hoje chorar connosco uma morte tão injusta, era um consolo que nos davam".


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