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Os portugueses de Clervaux. Sandra da Comuna
Luxemburgo 4 min. 17.11.2022
Figuras

Os portugueses de Clervaux. Sandra da Comuna

Sandra Viegas trabalha na Comuna de Clervaux há 17 anos.
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Os portugueses de Clervaux. Sandra da Comuna

Sandra Viegas trabalha na Comuna de Clervaux há 17 anos.
Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 4 min. 17.11.2022
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Os portugueses de Clervaux. Sandra da Comuna

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
A Liliana dos chocolates, a Sandra que trabalha na Comuna, o casal de dentistas, a Maria da mercearia e a Lurdes da loja de roupa. Estes são os portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. E dali ninguém os tira.

Sandra Viegas chegou ao Luxemburgo há 35 anos. Veio da aldeia do Vale, em Barreiro de Besteiros, concelho de Tondela. Naquela altura, conta, as hipóteses para uma jovem de 15 anos eram estudar ou trabalhar na aldeia. Ou emigrar. Uma vizinha que vivia no Grão-Ducado perguntou-lhe se queria ir trabalhar com ela num restaurante. “Visto que não queria estudar nem ficar numa pequena aldeia, não tinha problemas em conhecer um novo país”, recorda. Veio com um grupo de amigas, quatro ou cinco raparigas da mesma idade, que cresceram juntas e ainda hoje mantêm a amizade.

As jovens instalaram-se em Clervaux e de lá não saíram. Continuam a falar e a ver-se depois de tantos anos. Quando Sandra chegou, a ideia era fazer apenas seis meses de trabalho no restaurante, mas acabou por ficar. “Trabalhei uns cinco anos naquele restaurante, como empregada de mesa. Depois tive outros trabalhos, nas limpezas na polícia e na proteção civil”. Mais tarde, recebeu uma proposta irrecusável. “Havia um lugar disponível na Comuna de Clervaux e perguntaram-me se eu queria. Eu não hesitei, disse logo que sim”, conta, com um sorriso.

Hoje Sandra tem 51 anos e já trabalha na Comuna há 17. É a única portuguesa entre os trabalhadores e funcionários da autarquia. Todos os outros são luxemburgueses. No início trabalhava apenas em Clervaux, mas desde a fusão com as Comunas de Heinerscheid e Munshausen, em 2009, passou também a cobrir estas áreas. De manhã, entre as 8 e as 12 horas, faz a limpeza de vários espaços dessas duas cidades e, à tarde, entre as 14 e as 18 horas, está sempre no Castelo de Clervaux, onde se encontram também os escritórios da Comuna.

Foto: Anouk Antony

São duas trabalhadoras de manhã e duas à tarde, com a camioneta da autarquia. Sandra trabalha sempre as oito horas, portanto faz os dois turnos com pessoas diferentes. Isso criou algumas dificuldades ao nível da comunicação. Ao princípio, trabalhava sozinha e podia falar francês com os funcionários da Comuna, mas, depois da fusão, viu-se obrigada a aprender o luxemburguês. “Foi um pouco complicado no início. Não conhecia os outros trabalhadores e tive que me integrar. Já sabia um pouco, mas tive de aprender mais, porque no dia a dia falamos luxemburguês”, confessa.

Embora seja um trabalho praticamente igual todos os dias, acaba por ser diferente, porque vemos muitas pessoas.


Liliana Sousa é a proprietária da histórica chocolataria Au Chocolat há quase dois anos.
Os portugueses de Clervaux. Liliana dos chocolates
O primeiro retrato dos portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. E dali ninguém os tira.

Agora já consegue falar quase fluentemente. “Falo luxemburguês no trabalho, português em casa e francês quando vou a outro lado”, brinca. O facto de saber falar várias línguas também lhe facilita o contacto com as pessoas, que diz ser a melhor parte da sua atividade. “Embora seja um trabalho praticamente igual todos os dias, acaba por ser diferente, porque vemos muitas pessoas”. Além disso, Sandra vive a apenas dois quilómetros do local de trabalho. “Gosto muito de estar aqui. Estou cá há 17 anos e espero continuar até ao fim”, admite.

Entre os muitos visitantes do Castelo, que tem como atração a exposição fotográfica “The Family of Man”, criada pelo luxemburguês Edward Steichen, há também vários portugueses, especialmente durante o Verão. “E há alguns que vão à Comuna e não falam francês. Então pedem-me para traduzir. Os meus colegas dizem: ‘chamem a senhora portuguesa’. Também já ajudei a traduzir em casamentos, porque o casal não percebia francês. Tenho quase um segundo trabalho como tradutora”, afirma, enquanto se ri.

Foto: Anouk Antony

Além do trabalho, Sandra também gosta muito de viver em Clervaux. Aquela comuna é a sua casa. “Já estou cá há 35 anos. Tenho mais tempo aqui do que em Portugal. Gosto muito, porque me transmite paz e é bonito”. Mesmo com o passar dos anos, o encanto não desaparece. “Como vemos isto todos os dias, às vezes nem ligamos à beleza que tem. Mas gosto de trabalhar aqui. É agradável e sossegado”, descreve, notando que no verão é diferente, porque tem muitos turistas. “Fazem muitas exposições e concertos. Temos sempre contacto com pessoas diferentes, pintores, artistas ou fotógrafos”.

Para a portuguesa, Clervaux tem algo de especial. Há uma recordação que guarda desde o dia em que ali chegou. “Tenho uma imagem de quando vim cá a primeira vez: era de noite e quando se desce para a vila, é muito bonito ver as luzes de Clervaux. O castelo, a igreja, tudo iluminado. Essa imagem marcou-me”, relembra. Além da paisagem da cidade, há também muitos espaços verdes, que atraem tanto os residentes como os visitantes. “Gosto muito da floresta e de fazer caminhadas. Há muitos passeios bonitos que se pode fazer a pé”, garante Sandra.

Por ter construído toda a sua vida em Clervaux, nunca pensou em sair daquela comuna. Ou sequer do país que a acolheu. “Adoro viver aqui. Gosto muito do Luxemburgo e há muitos sítios bonitos para visitar. Nunca pensei em mudar”, assegura. Se tudo correr bem, Sandra quer manter aquele trabalho até à reforma. Depois, “logo se vê”. “Tenho duas filhas cá. O meu objetivo é ficar aqui até me reformar. Depois decido se fico ou se volto para Portugal. Tudo depende. Não faço planos para o futuro”.

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