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Os portugueses de Clervaux. Liliana dos chocolates
Luxemburgo 4 min. 16.11.2022
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Os portugueses de Clervaux. Liliana dos chocolates

Liliana Sousa é a proprietária da histórica chocolataria Au Chocolat há quase dois anos.
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Os portugueses de Clervaux. Liliana dos chocolates

Liliana Sousa é a proprietária da histórica chocolataria Au Chocolat há quase dois anos.
Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 4 min. 16.11.2022
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Os portugueses de Clervaux. Liliana dos chocolates

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
A Liliana dos chocolates, a Sandra que trabalha na Comuna, o casal de dentistas, a Maria da mercearia e a Lurdes da loja de roupa. Estes são os portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. E dali ninguém os tira.

Para Liliana Sousa, trabalhar numa chocolataria é um "castigo". Não há um dia em que esta portuguesa de 33 anos não coma um chocolate. Um dos preferidos é o de framboesa, mas gosta de todos. "Passo a vida a olhar para eles e a dizer a mim mesma ‘não posso, não posso’", confessa, entre risos. Combater a gula é um dos desafios da proprietária do espaço Au Chocolat, em plena Grand-Rue, no coração de Clervaux. Mesmo quando resiste à tentação de petiscar um dos bombons da vitrine, acaba por levar uns quantos para casa ao fim do dia. Para os filhos, garante.


Sandra Viegas trabalha na Comuna de Clervaux há 17 anos.
Os portugueses de Clervaux. Sandra da Comuna
O retrato dos portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. Sandra Viegas trabalha na Comuna de Clervaux há 17 anos.

Não foi, no entanto, a paixão pelos chocolates que a levou até ao Norte do Luxemburgo. Liliana chegou ao país há 14 anos. A mãe decidiu deixar Aveiro e emigrar. Instalaram-se em Larochette. "Na altura tinha 18 anos e tinha acabado os estudos. Vim cá passar uns meses com a minha mãe e as minhas irmãs mais novas para ver se gostava", recorda. E acabou por ficar. Por amor. Foi naquela pequena vila, em que metade da população é portuguesa, que Liliana conheceu o atual marido, que é de Vila Pouca de Aguiar e já vivia no Grão-Ducado.

Depois do casamento, Liliana passou a viver com o marido no Norte, porque ele trabalhava num restaurante e "era mais fácil" para os dois. Foi assim que a portuguesa entrou na área da restauração. "Foi sempre o trabalho que fiz desde que cá cheguei. Trabalhei mais ou menos dois anos e meio no restaurante onde ele estava. Depois abrimos o nosso restaurante em Wiltz, de cozinha francesa, porque o meu marido aprendeu a cozinhar cá", conta. Entretanto, Liliana, que já tinha duas filhas, voltou a engravidar. Mas uma surpresa mudou-lhe os planos: eram gémeos.

Foto: Anouk Antony

Com quatro crianças em casa, o casal não conseguia conciliar a vida familiar com a profissão. "Começou a ser muito complicado. Tivemos o restaurante em Wiltz durante cerca de cinco anos, mas decidimos fechar em 2020", explica. Decidiram mudar completamente o estilo de vida. O marido tirou a carta de pesados e agora trabalha como motorista de camião. Liliana encontrou a sua segunda paixão: os chocolates. "No final desse ano, o proprietário da chocolataria ia entrar na reforma e eu pensei que era um bom negócio para mim". E assim foi.

O trabalho no Au Chocolat permite-lhe gerir melhor o tempo para estar com os filhos. O espaço abre às 10h e fecha às 18h e funciona de segunda-feira a domingo. Nas folgas vai alternando com as outras duas funcionárias, também portuguesas. Liliana vive com o marido e os filhos em Clervaux: a mais velha tem 12 anos, outra tem 10 e os gémeos têm quatro. "Andam todos na escola. De vez em quando vêm cá e também querem sempre comer chocolates. Até evito que eles venham", brinca. Ao fim de dois anos a gerir a chocolataria, está "contente" e reconhece que foi um "bom investimento".

É uma coisa diferente do que se encontra cá. São chocolates artesanais, com fruta, pimenta, tem muita variedade.

Antes de assumir o negócio, o estabelecimento já tinha o mesmo nome, mas na altura era o proprietário que produzia os chocolates. Agora, vêm todos de Portugal. "Como eu não sou chocolateira, entrei em contacto com a Maria Chocolate e é ela que me fornece os produtos", revela. Liliana também gostava de ter um lugar de produção, mas o espaço é "muito pequeno". Além disso, os chocolates da Maria têm tido bastante sucesso. "É uma coisa diferente do que se encontra cá. São chocolates artesanais, com fruta, pimenta, tem muita variedade".

Foto: Anouk Antony

A portuguesa nota que não há um chocolate em específico que seja mais vendido, porque os clientes preferem "uma mistura" de sabores. "Vendemos muito as nossas caixas de chocolates. Também temos os bombons personalizados para casamentos, comunhões e batizados". Nesta altura do Natal e do inverno, os chocolates são mais procurados e há "muito trabalho e muita coisa para embalar". Mas, durante o verão, o forte são os gelados, que também "funcionam muito bem", sobretudo entre os clientes mais frequentes, que são os luxemburgueses e os turistas.

Liliana gosta de viver e trabalhar em Clervaux, mas gosta mais ainda do Norte do Luxemburgo. "É muito tranquilo e fácil de chegar de carro a qualquer lado. Tem paisagens muito bonitas e é isso que os turistas procuram, especialmente aqueles que gostam de fazer caminhadas", afirma. É ali que se sente em casa, até porque também há muitos portugueses. Se o trabalho permitir, a família tenta ir a Portugal pelo menos uma vez por ano. "Se eu não for, porque tenho cá a minha mãe e as minhas irmãs, vai o meu marido ver os pais".

Como tem a sua família no Luxemburgo, Liliana não pensa regressar um dia para a terra natal. "Pretendo ficar cá. A minha vida foi construída aqui, não faz muito sentido voltar. Já me sinto uma estrangeira quando vou a Portugal. Sinto que já não é a mesma coisa", admite. Quanto ao futuro, a proprietária do Au Chocolat gostaria de abrir um segundo espaço, também no Norte. Mas esse será um projeto a longo prazo, devido à conjuntura atual. "Estamos a passar por uma crise, portanto temos de ter os pés bem assentes na terra e não sonhar muito".

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