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Os portugueses de Clervaux. Dentistas Maria e Ricardo
Luxemburgo 4 min. 18.11.2022
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Os portugueses de Clervaux. Dentistas Maria e Ricardo

Ricardo Tavares e Maria Campêlo têm uma clínica dentária em Clervaux, outra em Ettelbruck e preparam-se para abrir uma terceira em Wiltz.
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Os portugueses de Clervaux. Dentistas Maria e Ricardo

Ricardo Tavares e Maria Campêlo têm uma clínica dentária em Clervaux, outra em Ettelbruck e preparam-se para abrir uma terceira em Wiltz.
Foto: Anouk Antony
Luxemburgo 4 min. 18.11.2022
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Os portugueses de Clervaux. Dentistas Maria e Ricardo

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
A Liliana dos chocolates, a Sandra que trabalha na Comuna, o casal de dentistas, a Maria da mercearia e a Lurdes da loja de roupa. Estes são os portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. E dali ninguém os tira.

Maria Campêlo e Ricardo Tavares conheceram-se e casaram em Portugal. Ela tem 34 anos e é de Lamego. Ele tem 32 e é do Porto. Ambos são dentistas, ela na especialidade da ortodontia e ele na cirurgia e implantes. Em 2019, Maria recebeu uma proposta de um colega que trabalhava no Luxemburgo para ir trabalhar dois dias por mês num gabinete em Differdange. Mesmo com as viagens, acabava por compensar. Depois, Ricardo também passou a vir. Ao fim de uns meses, o casal começou a ponderar instalar-se definitivamente no país.


Liliana Sousa é a proprietária da histórica chocolataria Au Chocolat há quase dois anos.
Os portugueses de Clervaux. Liliana dos chocolates
O primeiro retrato dos portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. E dali ninguém os tira.

Começaram a ver anúncios de clínicas que estavam à venda. Inicialmente queriam ficar no Sul, por causa da “facilidade da língua, uma vez que há muitos portugueses”. Mas, entretanto, surgiu uma oportunidade no Norte. Um dentista de Clervaux ia reformar-se e o casal decidiu ficar com aquela clínica, que já existe há mais de 40 anos. “Estamos aqui desde fevereiro de 2020. O gabinete já tinha pertencido a dois dentistas antes, então somos a terceira geração”, afirma Maria. Foi ali que finalmente sentiram que o trabalho era reconhecido, “tanto a nível profissional, como financeiro”.

No entanto, o início do Cabinet Dentaire Campêlo & Tavares não foi fácil, por causa da pandemia e da língua. “Ficamos um pouco assustados com essa situação e não só, porque no Norte também existe a barreira linguística. Não é só o falar português ou francês, temos muitos pacientes que falam luxemburguês e alemão. Não é tão fácil fazer um arranque aqui como no Sul”, explica Maria. Depois da covid, os médicos conseguiram dar a volta por cima. “Trabalhamos quase todos os dias das 8h às 20h30. E conseguimos. Os nossos objetivos têm sido cumpridos”.

Foto: Anouk Antony

No ano passado, o casal abriu uma segunda clínica, em Ettelbruck, e já estão a caminho do terceiro projeto, em Wiltz, que deverá estar concluído no próximo ano. O objetivo é chegar mais perto dos pacientes. “As pessoas vêm de bastante longe, algumas com uma certa idade. Começamos a notar as dificuldades que tinham em deslocar-se e preferimos estar menos dias num sítio, mas ter a oportunidade de estar mais próximos delas”, justifica a dentista. Isso significa também que a equipa está a crescer: são já seis médicos, cinco portugueses e um belga, duas secretárias e cinco assistentes.

Aqui os pacientes preferem ir ao dentista uma vez a cada seis meses do que um dia ter um problema sério e ser ainda mais caro.

Ricardo Tavares

Apesar de terem alguns pacientes portugueses, não são tantos quantos os que tinham no Sul. “Aqui é uma mistura. Não há uma maioria. É mais diversificado”, nota Ricardo. Por esse motivo, os dentistas viram-se obrigados a ter aulas de luxemburguês. “É difícil, mas já falamos algumas coisas com os pacientes. Também falamos muito francês, inglês e espanhol. Mais tarde queremos aprender alemão”, refere Maria.

Desde que chegaram ao Luxemburgo, os dentistas notaram algumas diferenças em relação a Portugal, sobretudo ao nível do reembolso. “As pessoas acabam por ter uma parte das faturas reembolsadas. Em Portugal isso não acontece. Aqui as pessoas frequentam mais regularmente o dentista e existe um respeito maior pela nossa profissão”, garante a médica. Além disso, existe também a questão cultural. “Os pacientes preferem ir ao dentista uma vez a cada seis meses do que um dia ter um problema sério e ser ainda mais caro ou nem ter solução. É outra mentalidade”, explica Ricardo.

Foto: Anouk Antony

Por outro lado, as pessoas em Portugal só vão ao dentista “por necessidade”, quando lhes dói ou “precisam mesmo”, lamenta o médico. Apesar disso, o casal não guarda mágoa em relação ao país de origem. “É a realidade que temos. Enquanto não houver uma grande transformação a nível socioeconómico, nunca vai avançar. Estão a formar pessoas para irem trabalhar para outros países, como França, Inglaterra ou Suíça”, critica Maria, numa opinião partilhada pelo marido: “Portugal forma para os outros beneficiarem”.

Foi este país que nos acolheu, portanto temos de retribuir. E temos tido bom feedback das pessoas.

Maria Câmpelo

Sandra Viegas trabalha na Comuna de Clervaux há 17 anos.
Os portugueses de Clervaux. Sandra da Comuna
O retrato dos portugueses que escolheram o Norte do Luxemburgo. Sandra Viegas trabalha na Comuna de Clervaux há 17 anos.

Apesar de viver em Wiltz, o casal tem uma ligação especial com Clervaux. “É uma comuna com muita história. Quando neva, a paisagem é espetacular. Temos os animais, os veados, os esquilos… Quando estamos a trabalhar, os veados aparecem no jardim e os pacientes podem vê-los e ficam relaxados”, descreve Maria. Os dentistas sentem que foram bem recebidos pela população, apesar de não ser fácil ganhar a confiança da gente do Norte, sublinha Ricardo. “Agora as pessoas já nos conhecem. A vila é muito acolhedora. O Luxemburgo também nos surpreendeu pela positiva. É um país pequeno, mas que tem muito para dar”.

Por causa de todos os investimentos que fizeram no Grão-Ducado, Maria e Ricardo não pensam voltar a Portugal. Querem continuar a servir as pessoas do Norte. “Foi este país que nos acolheu, portanto, temos de retribuir. E temos tido bom feedback das pessoas. Talvez voltemos um dia para a reforma”, admite Maria. A cada dois meses, viajam ao país de origem para “matar a saudade”, mas é em Clervaux que se sentem bem. E querem agradecer pelo acolhimento. “Tudo o que conseguimos até hoje foi com a ajuda de muita gente, desde pacientes, a família e amigos e também graças à nossa equipa. Estamos aqui hoje devido a essas pessoas”, conclui Ricardo.

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