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Os pecados de Engel
Editorial Luxemburgo 3 min. 26.08.2020

Os pecados de Engel

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Foto: Lex Kleren
Editorial Luxemburgo 3 min. 26.08.2020

Os pecados de Engel

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
As declarações do líder do CSV arriscam abrir uma crise não só no maior partido da oposição, mas também mostrar que socialistas e verdes têm colocado grande parte dos seus programas e dos interesses dos seus eleitores na gaveta, apenas para estar no poder.

O presidente do CSV achou que dirigia um partido cristão e social e defendeu que, perante a grave crise que o mundo atravessa, devia haver uma política fiscal que pedisse mais aos ricos que aos pobres. Estas declarações abriram uma Caixa de Pandora em pleno agosto: “O mundo está louco. Pedem-me para me demitir no Lëtzebuerger Wort porque respeito o meus princípios católicos. E o programa de base do meu partido”, protestou, no Twitter, o ainda líder do maior partido da oposição, que teve de convocar de urgência uma reunião da direção do partido em pleno motim.

Vamos por partes, numa entrevista ao site da revista Reporter, Frank Engel defendeu que devido a gravidade da crise, “era preciso uma política que beneficie os cidadãos que mais precisam de apoio”.

O presidente do CSV reiterou depois, em declarações à RTL, que a recessão atual e a crise ligada ao coronavírus não podem ser resolvidas apenas com o recurso ao endividamento estatal,é necessário aumentar as receitas sem taxar mais quem trabalha. Seria preciso, portanto, uma nova política fiscal centrada na taxação do setor financeiro e das pessoas que têm mais riqueza e património.

O Estado para apoiar as camadas sociais afetadas, tem de ir buscar mais dinheiro, mas para isso, seria preciso criar um imposto sobre a riqueza, taxar as transações financeiras e ir buscar receitas com um novo imposto sucessório, defendeu Frank Engel nessas entrevistas.

Todo o modelo económico luxemburguês se baseia, até agora, na ideia do chuveiro: não taxamos muito os mais ricos e as empresas, isso permite, supostamente, o crescimento económico. Os ricos ficam felizes e no final alguma coisa chegará ao resto da população.

A paz social depende de um mítico crescimento sem fim, que permita que algumas migalhas cheguem à base da sociedade. Em momentos de crise, este equilíbrio precário é rompido.

Na anterior crise, a gestão económica da paz social foi feita à custa dos trabalhadores transfronteiriços, que funcionam como válvula de escape da economia, podendo ser despedidos sem custos sociais, pelo menos até 2027, pela Segurança Social do Grão-Ducado.

Mas desta vez a crise é muito mais profunda e duradoura e não afeta apenas o setor financeiro.

O esforço do Estado para aguentar a economia e impedir uma grave crise social terá de ser bastante prolongado no tempo.

Acresce que o modelo de governação e o posicionamento do DP, do Xavier Bettel, têm retirado espaço à direita ao CSV. Esgotada a diferenciadora agenda dos costumes entre os dois partidos, os cristãos sociais não têm sido capazes de reencontrar bandeiras próprias e o lugar central que tinham na sociedade luxemburguesa no tempo de Jean-Claude Juncker.

A tentativa de ultrapassar o Governo pela esquerda, por parte de Engel, poderá ser rapidamente travada pelos notáveis do CSV, mas coloca um conjunto de questões ao conjunto da sociedade luxemburguesa que têm de ser discutidas.

A crise do coronavírus, os desafios ambientais e o crescimento das desigualdades sociais são uma séria ameaça ao modelo de desenvolvimento e de garantia da paz social seguido até aqui.

Isso é visível em setores, como a habitação, em que a política de defesa dos proprietários e do crescimento estratosférico dos preços, seguida, por exemplo, pelo DP e o CSV na capital, estão-se a tornar um problema para a economia do país.

Quando os socialistas, como o vice primeiro- ministro Dan Kersch, elogiam as declarações do atual líder do CSV, não percebem que estas, embora rapidamente terraplanadas pela direção dos cristãos sociais, colocam em realce também a sua posição incómoda num Governo que em matéria fiscal, de trabalho e em relação à habitação tem tido uma total incapacidade de reinventar políticas sociais que possam minorar o aumento das desigualdades sociais para a maioria da população.

As declarações de Frank Engel arriscam a abrir uma crise não só no maior partido da oposição, mas também mostrar que socialistas e verdes têm colocado grande parte dos seus programas e dos interesses dos seus eleitores na gaveta, apenas para estar no poder.

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