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Os ovos da serpente aqui ao pé
Editorial Luxemburgo 3 min. 09.12.2020 Do nosso arquivo online

Os ovos da serpente aqui ao pé

O tribunal do Grão-Ducado aprecia uma queixa por incitamento ao ódio e à violência.

Os ovos da serpente aqui ao pé

O tribunal do Grão-Ducado aprecia uma queixa por incitamento ao ódio e à violência.
Foto: Marc Wilwert
Editorial Luxemburgo 3 min. 09.12.2020 Do nosso arquivo online

Os ovos da serpente aqui ao pé

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Para haver liberdade para todos, é preciso existir um clima que impeça que os mais "fracos" na sociedade sejam remetidos para a invisibilidade.

Na altura em que escrevo, não sei o que decidiu ou foi dito no Tribunal Correcional do Luxemburgo, mas acho que esta história é importante.

No dia 8 de dezembro, um homem de nome Marcel M. compareceu perante os juízes por “incitar ao ódio e à violência”.

É acusado, pela porta-voz da rede de afro-descendentes luxemburgueses Finkapé, Antonia Ganeto, de escrever insultos racistas na página do Facebook do dirigente do ADR Tom Weidig, principal ativista do “não” ao direito dos estrangeiros votarem nas eleições parlamentares.

A Finkapé foi co-organizadora da “greve das mulheres” no Grão-Ducado a 7 de março deste ano. Nessa manifestação participaram mais de duas mil pessoas. Durante o evento, Antonia Ganeto foi uma das ativistas que tomou a palavra. Falou aos manifestantes usando um megafone que o coletivo de artistas Richtung 22 lhe emprestou. Nesse megafone estavam colados alguns autocolantes: um dos antifa e outro da peça de teatro “Lëtzebuerg, du hannerhältegt Stéck Schäiss”, cujo título irónico e crítico da chamada estratégia de branding do Grão-Ducado, é literalmente, “Luxemburgo, pedaço de merda desonesta”.

Apesar do político luxemburguês não ignorar tratar-se do nome de uma peça de teatro e não uma afirmação da oradora, postou um texto em que se ataca a manifestante negra: “Esta fotografia diz tudo... um autocolante a dizer merda hostil ao Luxemburgo. Um autocolante antifa de extrema-esquerda suscetível de provocar a violência.”

Estava dado o tom para os vários comentadores. Alguns deles, como menos cuidadosos na linguagem que o dirigente do ADR. Numa página conhecida pelo seu tom contra os imigrantes que vivem e trabalham no Luxemburgo, os comentários costumam ir em escalada: o acusado Marcel M. apoiou o post escrevendo o seguinte: “Que bando de imbecis, se não gostam do Luxemburgo: rua. Podemos enviar essa gente para a Lua ou para o Congo. E lá podem fazer de macacos, sobretudo longe de nós”.

Há uma “libertação” da palavra que nada tem a ver com a liberdade de expressão, mas que significa na prática a criação de um clima que naturaliza o racismo e abre a porta para ações mais violentas contra os imigrantes; e sobretudo que quer que parte da sociedade fique em silêncio.

As redes sociais são o terreno experimental para criar as condições para situações ainda mais desiguais nas nossas sociedades.

Pretende-se que os imigrantes trabalhem caladinhos, como dizia o ditador António Salazar, que a sua política seja só o trabalho. Sobre a sociedade em que vivem e em que vão crescer os seus filhos, façam o favor de estar calados e não pensarem em ajudar a mudar alguma coisa.

É uma estratégia conhecida, baseia-se na agressividade de uma minoria, no silêncio de grande parte das pessoas e no medo que infunde nos outros.

A agressão apoia-se na naturalização da violência e consegue mesmo que alguns trabalhadores imigrantes confundam qualquer crítica com um ataque ao país em que vivem. Não percebendo que quem exerce o direito à cidadania está a enriquecer o país em que trabalha.

Quem pretende uma sociedade mais desigual usa esta violência como forma de garantir o seu privilégio político de decidir em matéria que todos devem ser consultados. É o silêncio da maioria da sociedade que permite que no trabalho, na habitação e na escola as condições não sejam melhores para todos. O racismo foi sempre uma estratégia para uns ficarem com a melhor parte à conta de todos.

É por isso que esta ação no tribunal, independentemente da sentença, é tão importante. Para haver liberdade para todos, é preciso existir um clima que impeça que os mais fracos na sociedade sejam remetidos para a invisibilidade.

A violência das palavras serve para isso mesmo: tornar os protestos mais difíceis, naturalizando o racismo, o machismo e a xenofobia.

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Na semana passada, uma multidão concentrou-se à porta do Tribunal Correcional do Luxemburgo. Vinham em solidariedade com Antónia Ganeto, porta-voz da associação de afrodescendentes Finka-Pé, que movera um processo contra o autor de insultos num post do Facebook.