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Os luxemburgueses que desembarcaram na Normandia

Os luxemburgueses que desembarcaram na Normandia

Foto: Coleção do Museu Nacional de História Militar em Diekirch
Luxemburgo 3 5 min. 11.06.2019

Os luxemburgueses que desembarcaram na Normandia

Marc THILL
Marc THILL
Três mil barcaças, 2.500 navios, 500 navios de guerra e sete luxemburgueses. No Dia D, 6 de junho de 1944, Jean-Bernard Ney, Charles-André Schommer, Félix Peters, Jean e Antoine Neven, Jean Reiffers e Pierre Laux desembarcaram na Normandia. Só quatro sobreviveram à guerra.

No dia 6 de junho de 1944, os Aliados desembarcaram nas praias da Normandia. Entre eles, estavam sete soldados luxemburgueses - jovens que se voluntariaram para fazer parte de um exército estrangeiro, para lutar pela liberdade da sua pátria. Nos dias seguintes, iriam juntar-se outros luxemburgueses, inclusive o Grão-Duque Jean, o único chefe de Estado a participar na batalha da Normandia. Mas no Dia D, apenas sete luxemburgueses participaram nas operações.

Todos eles seguiram por caminhos sinuosos através da França, Espanha e África do Sul, para no final acabar no Reino Unido, de onde partiu a histórica operação dos Aliados. Mas apesar dos diferentes percursos, os sete luxemburgueses têm algo em comum, como salienta Benoît Niederkorn, diretor do Museu Nacional de História Militar em Diekirch: "Não são simples soldados da infantaria, mas fazem parte, na sua maioria, do comando das suas respetivas unidades - provavelmente devido aos seus bons conhecimentos linguísticos". Quando o exército chega a um local, deve ser capaz de comunicar com os seus civis, ler mapas e interpretar sinais de trânsito. "Hoje seriam chamados soldados de elite", diz Niederkorn.

Jean-Bernard Ney (2º a contar da direita) foi o primeiro navegador de um esquadrão aéreo cuja missão era proteger os Aliados que saltavam de pára-quedas na praia de Omaha
Jean-Bernard Ney (2º a contar da direita) foi o primeiro navegador de um esquadrão aéreo cuja missão era proteger os Aliados que saltavam de pára-quedas na praia de Omaha
Foto: Coleção do Museu Nacional de História Militar em Diekirch

A vida pela liberdade

Jean-Bernard Ney nasceu no dia 6 de setembro de 1921 em Bettembourg. No início, ajudava os prisioneiros franceses e belgas a fugir da prisão. Quando foi descoberto, foi preso, mas acabou por conseguir escapar. Ao tentar atravessar os Pirinéus em direção a Espanha, os guardas da fronteira prenderam-no, mas Ney escapou no mesmo dia. Já em Espanha, é de novo detido e passa três meses na prisão.

É no dia 6 de fevereiro de 1942 que Ney chega à Grã-Bretanha, onde se juntou às "Forces aériennes françaises libres" ("Força Aérea Francesa Livre"). Em maio de 1944, juntou-se ao 342º esquadrão RAF, um esquadrão francês livre da Força Real Aérea, também conhecido como "Groupe de Bombardement Lorraine". Na madrugada de 6 de junho de 1944, Ney era o principal aviador de um esquadrão de aviões cuja missão era colocar uma espécie de névoa sobre a praia de Omaha, na Normandia, de forma a camuflar a aterragem de paraquedistas Aliados. Na noite do Dia D, Ney fez ainda parte de outra missão que tinha como objetivo destruir os caminhos-de-ferro perto de Folligny. Depois da guerra, Jean-Bernard Ney viveu no Congo Belga e mais tarde na Dordonha, onde faleceu no dia 31 de agosto de 2003.

Charles-André Schommer (1925-2009)
Charles-André Schommer (1925-2009)

Na praia de Omaha, onde Jean-Bernard Ney espalhou um "tapete" de nevoeiro, aterrou no mesmo dia Charles-André Schommer, um soldado da 29ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos da América (EUA). Foi para esse continente que os seus pais fugiram, em 1940, após os alemães terem invadido o Luxemburgo. Em 1943, Schommer, na altura com 18 anos, voluntariou-se para entrar no exército norte-americano.

Por causa das suas competências linguísticas, o luxemburguês passou por treinos de inteligência militar no Campo Ritchie, no estado de Maryland. No dia 6 de junho de 1944, Schommer desembarcou na praia de Omaha, durante a segunda vaga de ataques. Schommer lutou na batalha da Normandia, onde participou na libertação das cidades de Isigny e St-Lô. Mais tarde, foi ferido e, após passar algumas semanas num hospital militar, foi transferido para o quartel-general do exército americano no Luxemburgo. Charles-André Schommer estava assim de volta à sua pátria, que já tinha sido libertada na altura. Acabou por morrer em 2009, com 84 anos.

Quatro dos sete luxemburgueses que estiveram presentes no Dia D, os irmãos Jean e Antoine Neven, Félix Peters e Jean Reiffers, aterraram em Ouistreham, na Normandia. Eram todos membros das forças armadas francesas livres e pertenciam ao chamado Comando Kieffer. Três deles, Félix Peters e Jean e Antoine Neven, nasceram em Diekirch. No dia 19 de junho de 1941, deixaram juntos a sua cidade natal e atravessaram a fronteira para a Bélgica, até chegar a França, onde passaram bastante tempo num campo de trabalho para estrangeiros.


Lisbon 25 09 1940
A fuga para a liberdade da família grã-ducal
Como a Grã-Duquesa do Luxemburgo escapou à invasão nazi e conseguiu, ao fim de mil e uma peripécias, refugiar-se em Portugal, juntamente com uma comitiva de 72 pessoas. Uma das acompanhantes, então criança, recorda esses dias.

No dia 14 de julho de 1942, chegaram finalmente ao seu destino, a Grã-Bretanha, depois de terem passado por Espanha, Portugal e Gibraltar. Juntaram-se ao exército belga em Londres e foram enviados para o Congo Belga pouco depois. Quando lá chegaram, a entrada dos três soldados no exército belga foi cancelada, por terem nacionalidade luxemburguesa. Félix Peters e os dois irmãos Neven tiveram de cruzar mais uma vez a fronteira, desta vez para chegar à África Equatorial Francesa, onde se juntaram às "Forces navales françaises libres" ("Forças navais francesas livres"), a 16 de janeiro de 1943. Ao serviço dos franceses, os três luxemburgueses regressaram à Grã-Bretanha.

No Dia D, chegam com o Comando Kieffer à extremidade oriental da praia de Sword, o nome de código dado a um dos cinco locais de desembarque dos Aliados na costa da Normandia. A sua missão era atacar as forças alemãs em Ouistreham, proteger a ponte e depois unir forças com outros Aliados.

Às 11h30, Ouistreham está sob controlo. Ao cair da noite, os soldados do Comando Kieffer juntam-se à VI Divisão Aerotransportada Britânica. A sua missão do Dia D está terminada. Os três luxemburgueses de Diekirch sobreviveram ao "dia mais longo". Mas, 11 dias depois, a 17 de junho de 1944, Félix Peters acaba por morrer, em Amfreville, na Normandia. Jean Neven morreu no dia 2 de novembro de 1944, na Batalha de Walcheren Causeway, na Holanda. O irmão, Antoine Neven, é o único que regressa à sua cidade natal, em dezembro de 1945. Morreu  com 73 anos, no dia 23 de setembro de 1994.

Jean Reiffers (1912-1993)
Jean Reiffers (1912-1993)

Originário de Useldange, Jean Reiffers, um dos luxemburgueses que desembarcou em Ouistreham, na Normandia, com os três homens de Diekirch, ficou gravemente ferido durante os combates. Foi levado no mesmo dia para a Grã-Bretanha, onde passou seis meses em hospitais militares. Nunca recuperou totalmente dos ferimentos que sofreu no Dia D. Depois da guerra, regressou ao Congo e mais tarde instalou-se na Bélgica, onde faleceu em 1993.

Pierre Laux (1918-1944)
Pierre Laux (1918-1944)

O sétimo luxemburguês a participar no Dia D é Pierre Laux. Na madrugada do dia 6 de junho de 1944, Pierre Laux aterrou na praia de Sword, mas com o uniforme das tropas britânicas do Regimento de Devonshire. Participou na libertação de Ouistreham e na batalha da Normandia. A 2 de novembro de 1944, chegou à Holanda, mais precisamente Vlissingen, uma cidade localizada na ilha de Walcheren. Durante um ataque, Pierre foi morto e mais tarde enterrado no cemitério militar de Bergen-op-Zoom, na Holanda.

O artigo original foi publicado em alemão no Luxemburger Wort