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Os invisíveis
Editorial Luxemburgo 2 min. 04.09.2019

Os invisíveis

Os invisíveis

Foto: dpa
Editorial Luxemburgo 2 min. 04.09.2019

Os invisíveis

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Metade dos pobres da Europa dirigem o seu ódio e rancor, para a outra metade dos pobres, por razões tão curiais como não terem a nacionalidade, “raça” ou religião que os mandantes turnos garantem que é a certa.

A portuguesa Ana Telma Rocha interrompeu um direto da Sky News para expressar a sua revolta. Vive há quase 20 anos no Reino Unido. Serviu nesse país “em 32 empregos diferentes”, segundo confessa. Trabalha 63 horas semanais. Cria riqueza na Grâ-Bretanha, mas só serve para trabalhar calada. Na hora de decidir, sobre o seu futuro e da sociedade em que vive, ela não é chamada.

“O que me preocupa é estado das coisas, o estado da sociedade da qual uma pessoa fez parte durante 20 anos e do nada é apagada, é invisível”.

A operação que permite descartar os imigrantes como se fossem lixo, baseia-se numa correlação de forças que faz com que lhes seja negada a voz nas nossas democracias.

As sociedades europeias têm como modelo a Grécia antiga: não a sua elevação filosófica, mas o facto que apenas os nacionais têm alguns direitos, o resto são metecos, que servem para trabalhar calados.

Aqueles que trabalham têm a força do trabalho, mas a sua fraqueza política baseia-se na divisão. Metade dos pobres da Europa dirigem o seu ódio e rancor, para a outra metade dos pobres, por razões tão curiais como não terem a nacionalidade, “raça” ou religião que os mandantes turnos garantem que é a certa. Os pobres de todas as “raças”, credos e nacionalidades podem bater-se à paulada, mas o resultado é que ficarão sempre na mesma: pobres e subalternos.

A invisibilidade é uma operação ideológica que se alicerça na privação de poder da maioria da população do planeta. É um poderoso instrumento que permite fazer várias coisas: desde não conceder direitos políticos aos imigrantes nos países europeus, até negar o direito à vida às milhares de pessoas que são literalmente jogadas ao mar para morrerem afogadas no Mediterrâneo. Gente que tem como único crime procurar uma vida melhor para si e para os seus.

É pois significativo que o novo cardeal luxemburguês, Jean-Claude Hollerich, destaque como a mais bela mensagem de contentamento pela sua nomeação, a feita por migrantes salvos pelo navio humanitário Mare Jonio, que foi impedido de atracar em Itália. “Nessa embarcação, repleta de refugiados, quando souberam da nomeação dos cardeais – do padre Michael Czerny, que é responsável da secção migrantes da Santa Sé, do arcebispo de Bolonha [Matteo Zuppi] e da minha – começaram a aplaudir e a demonstrarem a sua alegria porque, para eles, era um sinal de que o Papa não os tinha abandonado”, contou o cardeal, acrescentando: “tem que se dar esperança às pessoas”. Comecemos portanto por lhes dar visibilidade.

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