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Os 12 trabalhos das eurodeputadas Isabel e Monica
Luxemburgo 10 min. 10.07.2019

Os 12 trabalhos das eurodeputadas Isabel e Monica

Os 12 trabalhos das eurodeputadas Isabel e Monica

Luxemburgo 10 min. 10.07.2019

Os 12 trabalhos das eurodeputadas Isabel e Monica

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Isabel Wiseler-Lima e Monica Semedo passam no teste da primeira semana no Parlamento Europeu. A deputada do CSV vai ser porta-voz da comissão dos Direitos Humanos no maior grupo do Parlamento Europeu (EPP) e a deputada do DP ficou como titular na Comissão de Emprego e Assuntos Sociais no Renew Europe de Macron.

Uma do CSV (Partido Cristão Social) outra do DP (Partido Democrático), as duas deputadas lusófonas experimentaram emoções muito semelhantes quando se estrearam no edifício sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo, na semana passada. “Quando entrei pela primeira vez no hemiciclo foi um momento de grande emoção. Nunca pensei. Entrar ali e sentir que fazia parte daquele assembleia!”, recorda Isabel Wiseler-Lima, a cabeça de lista do CSV. No arranque oficial da 9ª legislatura do Parlamento europeu, a 2 de julho, a eleita pelo DP diz ter "por um momento parado de respirar quando começou a tocar o hino da União Europeia".


Sete meses depois de ter falhado a eleição nas legislativas do Luxemburgo, Monica Semedo conquista um lugar no Parlamento Europeu para o DP, o partido de Xavier Bettel.
Monica Semedo e Isabel Wiseler-Lima, as duas eurodeputadas lusófonas do Luxemburgo
Filha de imigrantes cabo-verdianos no Luxemburgo, Monica Semedo, que não conseguira ser eleita nas legislativas de outubro, conquista agora um assento no Parlamento Europeu, pelo DP. E bate mesmo a cabeça de lista do CSV, Isabel Wiseler-Lima, a outra eurodeputada do Grão-Ducado que fala português.

Monica Semedo, ficou de tal modo a viver o momento e a “rever todos os últimos cinco meses’”que a levaram ali, que não olhou para lado nenhum, nem reparou que os 29 deputados do partido do Brexit viraram as costas ao quinteto de jovens que tocava a 9ª Sinfonia de Beethoven. "Para mim foi muito comovente. Pensei na honra e na responsabilidade de ser um dos 751 deputados daquela casa. E disse para mim própria que nos próximos cinco anos irei usar toda a minha energia para que a vida dos europeus seja melhor e que possam viver a diversidade da União Europeia de forma muito mais intensa". Já Isabel Wiesel-Lima ficou chocada com a atitude do partido liderado por Nigel Farage, mas refere que não podemos tomar a parte pelo todo: "Há muitos deputados britânicos que não pensam assim e para eles deve ter sido um choque serem confrontados com a atitude desrespeitadora dos seus compatriotas".

A semana estava a ser turbulenta, com a escolha mais demorada do que o previsto dos nomes para os chamados ‘top jobs’ da União Europeia e que levaria a que os chefes de Estado e de Governo, reunidos em Bruxelas desde domingo, tenham precisado de uma maratona na capital da Europa para recusar todos os spitzenkandidat (os nomes apontados pelos vários grupos políticos antes das eleições para preencherem os lugares de topo da UE). Todos esse spitzenkandidaten acabaram por ser afastados no complexo e longo processo de negociações e, com surpresa, Ursula von der Leyen, a ministra da Defesa alemã foi escolhida para presidente da Comissão Europeia.

O pacote dos novos ‘chefes’ da Europa inclui ainda o primeiro-ministro belga Claude Michel para presidir ao Conselho Europeu, Christine Lagarde para o Banco Central Europeu e o espanhol Josep Borrell como alto representante para a política externa. Entretanto, a mais de 400 km de distância, em Estrasburgo, onde os deputados se reúnem a cada três semanas vindos de armas e bagagens de Bruxelas, a mudança de planos era recebida de maneiras diferentes.

O próprio presidente cessante da Comissão Europeia, o antigo primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker, lamentou a “falta de transparência” com que o processo foi conduzido, ao contrário da sua eleição em 2014. E disse que ele foi o primeiro e último spitzenkandidat, um mecanismo eleitoral que está a ser posto em cheque e reavaliado, após ter sido testado apenas uma vez.


Europeias. Isabel Wiseler-Lima diz que "Europa precisa de mais imigrantes"
A candidata do CSV às próximas eleições europeias defende uma política que combata as desigualdades. Só melhorando a vida das pessoas é possível combater a extrema-direita.

Isabel Wiseler-Lima concorda com Juncker. "Não foi tido em conta que os europeus votaram acreditando que os nomes que os grupos políticos apresentaram seriam os que ocupariam os lugares cimeiros". “Acho muito triste que os chefes de Estado liberais tenham recusado os spitzenkandidat dos partidos mais votados (Manfred Weber, do EPP, e Frans Timmermans, dos socialistas). Foi sobretudo o Presidente da República francesa, Emmanuel Macron. E o primeiro-ministro luxemburguês, Xavier Bettel, também alinhou e aceitou a pressão do Grupo de Visegrád e, nomeadamente do primeiro húngaro Viktor Orbán que não aceitavam estes nomes. É importante que as pessoas se sintam respeitadas nos votos que fizeram. E por isso, também acho que se justificava um cargo de destaque para os Verdes”.

Acho muito triste que os chefes de Estado liberais tenham recusado os spitzenkandidat dos partidos mais votados. (...) É importante que as pessoas se sintam respeitadas nos votos que fizeram. 

A democracia europeia sai mais coxa deste processo, no entender da deputada de origem portuguesa. “Até porque com a abstenção enorme que tem havido não podemos afastar mais ainda as pessoas das urnas”. Porém, a deputada luxemburguesa prefere usar o bom-senso e admite que quando o nome de Ursula von der Leyen for apresentado dia 15 de julho ao Parlamento Europeu para a sua nomeação ser ratificada, o grupo do EPP (O grupo dos Cristãos-Democratas) vai votar a favor. “Não gostámos do processo de nomeação, mas neste momento não faz sentido ter a atitude irresponsável de votar contra. A Europa não pode estar sempre a dar a ideia de que não é capaz de reunir consensos. É difícil aceitar que não seja o Manfred Weber, porque ele era o nosso spitzenkandidat, mas a Ursula von der Leyen também é do EPP, e é uma mulher com grande experiência e estou convencida que poderá ser uma boa presidente da Comissão”.

Mas ainda não é 100% seguro que seja Von der Leyen a tomar posse a 1 de Novembro. Daqui a uma semana, a 15 de julho, o Parlamento Europeu terá que ratificar o seu nome e a assembleia está dividida. Mas esta mãe de sete filhos tem ainda encontros prévios com os parlamentares para lhes explicar o seu plano para dirigir a Europa. Sabe-se que Ursula quer uma união mais forte, numa época em que os extremos estão a roer as cordas.


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Para Monica Semedo o nome de Von der Leyen tendo surgido de surpresa não é, no entanto, desconhecido: “É uma pessoa que no Luxemburgo conhecemos relativamente bem. É uma mulher forte, com muitas qualificações. Disse no meu grupo, o Renew Europe (antigo ALDE, ampliado depois da entrada do partido de Macron), que é preciso ouvir quais são as suas prioridades, qual é a sua visão para os próximos cinco anos. E isso é o que vamos fazer. Mas se ela não for aceite é todo o pacote dos ’top jobs’ que terá que ser escolhido de novo”. Quanto ao processo de escolha dos nomes para as principais instituições da União Europeia, a euro-deputada do DP defende que há um processo de reforma em curso e que “é preciso democratizar a União Europeia”. Concretamente: “É preciso haver listas claras e transnacionais para que os eleitores saibam em que pessoas estão a votar para os cargos de relevo”.

Mais eurodeputadas (que passaram de 37% na votação de 2014 para 40% nas eleições de Maio deste ano) cargos de topo para mulheres pela primeira vez (Von der Leyen e Lagarde), são tudo boas notícias, mas nem Isabel Wiseler-Lima nem Monica Semedo dão mais importância a esse fato do que ao trabalho gigantesco que há por fazer. Haver mais mulheres “é uma nova normalidade”, defende a professora de literatura francesa e ex-vereadora da Câmara do Luxemburgo, Isabel Wiseler-Lima, que considerem seres estes tempos perigosos e “apaixonantes”, com os cidadãos a viverem um momento difícil.


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Mais importante do que tudo, para Monica Semedo, nascida no Luxemburgo – “de mãe cabo-verdiana, empregada de limpeza e que teve de criar sozinha cinco filhos”- é o exemplo de que é possível com origens humildes chegar longe. “As pessoas percebem que é possível ser de cor, mulher e jovem e ser eleita. Mas sei que não foi por isso que o DP me escolheu para entrar na lista de deputados”. Para a antiga jornalista da RTL ter acesso à educação é um passe para a liberdade. “Espero que as pessoas vejam em mim o exemplo de que o que alcancei teve a ver com a determinação de estudar. E que isso é possível e muda a vida das pessoas. Há muitos deputados de vários países no PE que têm uma história de vida parecida com a minha”. Monica recorda o momento em que recebeu o diploma de mestrado como um dos mais emocionantes da sua vida.

As pessoas percebem que é possível ser de cor, mulher e jovem e ser eleita. Mas sei que não foi por isso que o DP me escolheu para entrar na lista de deputados.  

No grupo político no Parlamento Europeu de que o DP faz parte – o Renew Europe – Monica Semedo ficou titular na comissão do Emprego e Temas Sociais e, como suplente, na comissão de Economia e Finanças. Assuntos que sempre lhe interessaram, diz: “Na minha tese de mestrado estudei a praça financeira luxemburguesa e também a europeia e mundial”.

Para os próximos cinco anos, Monica Semedo calcula como prioridades “ as alterações climáticas, assunto para o qual é preciso haver um plano concreto e financiamento, onde o European Investment Bank, sediado no Luxemburgo, pode ter um papel determinante. Por outro lado, é muito importante reforçar as novas competências dos jovens, nomeadamente as competências digitais. Tornar universal o direito a um salário mínimo. Criar escolas europeias nos diversos países como forma de garantir e incentivar a mobilidade das famílias. Encontrar novos recursos, reformular a agricultura e a indústria, converter para as tecnologias verdes. E, mais ainda, agir contra as forças negativas. É urgente fazer face à extrema-direita e encontrar soluções de integração dos migrantes”.

Para já, num plano imediato, a jovem deputada de 34 anos vai procurar casa em Bruxelas, “formar uma equipa jovem, multicultural e altamente motivada” e aproveitar o verão sem férias para se preparar a fundo para o arranque em Setembro.


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Isabel Wiseler-Lima acredita encara com enorme otimismo as tarefas que tem pela frente. “Serão tempos apaixonantes”. Não só integra no seu grupo a comissão que queria, a dos Direitos Humanos, da qual é coordenadora e por isso porta-voz, como é também efetiva na comissão dos Negócios Estrangeiros. “Sendo novata no PE, nunca pensei que me dessem esta oportunidade de ser porta-voz. Fiquei mesmo muito contente. Para mim, tudo o que tem a ver com Estado de Direito é extremamente importante”. Além destas, a eurodeputada do CSV também integra, mas como suplente, as comissões da Indústria, Investigação e Energia e a comissão das liberdades cívicas, justiça e assuntos internos.

É urgente fazer face à extrema-direita e encontrar soluções de integração dos migrantes.

“As liberdades cívicas e o estado de direito são muito importantes neste momento na Europa. Se não garantirmos isto, não garantimos aquilo para que a União Europeia foi criada. A extrema-direita, e as políticas anti-migração, vão contra tudo o que a Europa defende. Fiz a minha campanha insistindo nestas questões”. Um assunto que para o grupo político onde o CSV se inscreve é particularmente penoso, já que o EPP tomou a decisão de suspender o Fidesz, o partido do poder na Hungria, estando neste momento a ser avaliada uma possível expulsão definitiva do partido de Viktor Orbán. “Está a ser feito um relatório e isso poderá acontecer. Não podemos aceitar violações ao estado de direito. E com a extrema-direita é impossível fazer acordos. Não partilhamos ideiais. É possível criar consensos com todos outros partidos democráticos do Parlamento, já com estes senhores não”.


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Quanto a uma visão de uma Europa mais federalista, que Ursula Von der Leyden tem defendido em entrevistas, Isabel sustenta que é “a favor de uma maior integração. Conseguir uma Europa unida, com a diversidade que tem hoje, seria uma coisa maravilhosa. Mas como a ideia de uma Europa federalista é para tanta gente uma provocação talvez isso seja contraproducente. Temos que integrar o que é possível”.