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OPINIÃO: Uma noiva e dois noivos
Editorial Luxemburgo 3 min. 14.10.2015 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: Uma noiva e dois noivos

Editorial Luxemburgo 3 min. 14.10.2015 Do nosso arquivo online

OPINIÃO: Uma noiva e dois noivos

Avenida da liberdade, por Sérgio Ferreira Borges - É um clássico da literatura. Uma noiva pretendida por dois homens. Uns dizem que, se escolher o rico, terá abundância, mas vai faltar-lhe o amor. Se escolher o pobre, terá muito amor, mas vai passar a vida a comer pão com azeitonas, dizem outros. A noiva, neste caso, chama-se Partido Socialista.

Avenida da liberdade, por Sérgio Ferreira Borges - É um clássico da literatura. Uma noiva pretendida por dois homens. Uns dizem que, se escolher o rico, terá abundância, mas vai faltar-lhe o amor. Se escolher o pobre, terá muito amor, mas vai passar a vida a comer pão com azeitonas, dizem outros. A noiva, neste caso, chama-se Partido Socialista.

Os resultados das eleições não foram clarificadores. Sucedem-se as análises, todas cheias de lógica, mas sem conseguirem apontar um caminho para uma decisão. Foi a coligação de direita que ganhou as eleições, disso não tenho a menor dúvida. Mas no parlamento existirá uma maioria de esquerda, o que também me parece ser uma verdade insofismável. A grande maioria dos portugueses, 62 por cento, votou contra a austeridade, e disso também não duvido. E 71 por cento votaram pela continuidade na União Europeia e no Euro, coisa que também me parece indesmentível. Mas tanta evidência analítica parece inútil na procura de uma solução governativa. Pecam por simplismo.

A coligação de direita não tem a maioria absoluta que lhe permita governar sem sobressaltos. Por isso, recorre à única solução possível: um acordo de incidência parlamentar com o PS, para assim conseguir os votos que o eleitorado lhe recusou. Este é um dos dois cenários possíveis. António Costa aceitou este pedido de namoro, mas já confessou que os primeiros encontros não deram em nada.

Mas há outra possibilidade, e António Costa também aceitou o pedido de namoro da esquerda. Já falou com o PCP, com o Bloco de Esquerda e com os Verdes, e as conversas foram promissoras. Vão dar direito a novos encontros, com a expectativa mais elevada.

Sem ilusões, a coisa parece inclinar-se para a esquerda. E porquê?

Não será a única razão, mas tem muita influência. O grande culpado deste idílio entre os socialistas e os partidos à sua esquerda é, sem dúvida, Cavaco Silva. Quando o Presidente da República excluiu de qualquer solução governativa todos aqueles que criticam a União Europeia e o Euro, a Nato, a relação transatlântica, espicaçou a esquerda, que agora quer criar mais um problema a Cavaco. Se a esquerda chegar a Belém com um entendimento parlamentar que permita ao PS formar Governo, Cavaco viverá o seu pior momento, desde que, há 10 anos, chegou à Presidência da República. Há quem antecipe, desde já, que Cavaco não vai aceitar uma solução deste tipo. E pode até recorrer a uma decisão de Mário Soares, quando o primeiro-ministro era o próprio Cavaco.

Em Abril de 1987, uma moção de censura derrubou o Governo minoritário de Cavaco Silva. O PS, o PRD e o PCP tentaram concertar uma alternativa de esquerda. Mário Soares recusou-a, dizendo que essa maioria “não era coerente”. Provavelmente, Cavaco Silva fará agora a mesma coisa, usará até a expressão de Soares, dizendo que a maioria de esquerda “não é coerente” e pode mesmo evocar esse episódio.

Se assim for, mantém o actual Governo em funções de gestão corrente, até que o novo Presidente da República resolva a questão, provavelmente dissolvendo o parlamento e convocando novas eleições, o que só pode acontecer em Abril do próximo ano.

Se esta for a escolha de Cavaco, teremos seis meses de instabilidade, com todas as forças em registo de campanha eleitoral. E com o PS quase obrigado a manter António Costa na liderança, depois de uma derrota que dividiu o partido. Recorde-se que, em 1987, Cavaco Silva conseguiu a sua primeira maioria absoluta.


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