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Opinião. Sinais de fumo

Opinião. Sinais de fumo

Editorial Luxemburgo 4 min. 08.02.2019

Opinião. Sinais de fumo

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
A partir do próximo ano, o Luxemburgo vai impor a instalação obrigatória de detetores de fumo nas casas. Que a ninguém tenha ocorrido que a medida impede a livre fruição da vida privada a que até os fumadores têm direito é um sinal que preocupa.

Tinha acabado de aterrar de um longo voo intercontinental, a que sobrevivi com um "patch" de nicotina colado ao braço, desses de potência máxima. Ao fim de quase dez horas, nem eu nem o "patch" estávamos com boa cara. Saí do aeroporto para dar descanso ao adesivo e repor de forma natural os meus níveis de nicotina, mas mal tive tempo de sacar do isqueiro quando se instalou a dúvida. Poderei eu, fumadora impenitente, pária da sociedade "bio" e saudável, fumar ao ar livre? Nos Estados Unidos já fui impedida de fumar no passeio, empurrada para a via pública por cartazes que proíbem os fumadores de fumar a menos de uns poucos metros dos edifícios, e até no Luxemburgo já houve quem quisesse proibir o fumo em esplanadas, uma ameaça para já afastada mas que é um sinal do extremo a que chegou a perseguição aos fumadores. Olhei em redor. Havia cinzeiros - check. Não havia painéis a proibir o cigarro - check. Havia, como eu, meia dúzia de escorraçados a fumegar ao ar livre, alheios ao choque térmico do regresso a esta Europa onde no inverno faz realmente frio. Check. Livrei-me do "patch" e acendi um cigarro, de consciência tranquila.

Estava eu nesta prazenteira ocupação quando passa uma jovem mãe de rebento ao peito, aninhado num daqueles sacos para transportar bebés inspirados nos costumes africanos, que deixam às mães as mãos livres para o que lhes apetecer - em África para trabalhar, na Europa para consultar o telemóvel. Esta mãe, no entanto, usava as mãos para uma atividade mais premente: enquanto se preparava para entrar com a criança no aeroporto, de passada rápida, ia abanando as mãos à sua frente, como para dissipar uma densa nuvem de fumo imaginária que, sem os seus esforços, ameaçaria irremediavelmente os brônquios do pequeno.

À porta do aeroporto sucediam-se carros a vomitar poluentes, aviões aterravam e levantavam sem descanso - estávamos em Paris, nessa megalópole insana batizada aeroporto Charles de Gaulle, onde para uma pessoa se deslocar entre terminais tem de apanhar o metro ou o autocarro. Alheia aos problemas ambientais das viagens aéreas, a jovem mãe estava preocupada com as finas volutas de fumo expelidas para o ar por meia dúzia de nós, fumadores.

Naturalmente, a eficácia de abanar as mãos para proteger um bebé do fumo esparso dissipado pelas correntes de ar gélido, durante os três segundos que ela demorou a passar por nós, é duvidosa, como duvidoso é que o objetivo fosse proteger a saúde da criança. Não, as mãos a abanar serviam apenas um objetivo: mostrar desagrado. Um desagrado que já não se satisfaz com o exílio dos fumadores para a rua, mas sonha com a sua extinção definitiva. Lembrei-me de uma frase que li há dias, numa crónica escrita num blogue português sobre a perseguição aos viciados em nicotina: “A segregação sabe-se quando começa, não se sabe onde acaba”. E num provérbio chinês citado nesse mesmo texto que denuncia, com fina ironia, os perigos desta obsessão com a pureza: "Quanto mais a água é pura, menos peixes tem".

Os fumadores são uma espécie prodigiosamente adaptável a um ambiente cada vez mais hostil. Escorraçados de tudo quanto é sítio, resignaram-se: saem do restaurante para fumar, arriscando temperaturas abaixo de zero, ouvem sermões de desconhecidos, e aceitaram sem protestos que o seu vício se confine praticamente ao lar. Agora, até isso pode vir a acabar: a partir do próximo ano, o Luxemburgo vai impor a instalação obrigatória de detetores de fumo nas casas. Que a ninguém tenha ocorrido que a medida impede a livre fruição da vida privada a que até os fumadores têm direito é um sinal que preocupa. Há, ao que parece, mais fanáticos empenhados em combater um hipotético risco de incêndio do que defensores dos direitos fundamentais - que incluem o direito de, na intimidade da própria casa, cada um fazer o que lhe der na real gana, incluindo fumar um concreto cigarrinho sem fazer disparar um alarme.

Pergunto-me se quando, instalado o detetor de fumo anunciado pelo Governo luxemburguês na minha própria casa, eu for obrigada a ir fumar à varanda (de onde às vezes via o meu vizinho galego a chupar um cigarrinho, na varanda ao lado, para poupar a família ao fumo passivo - morreu há dias, vítima de uma pneumonia traiçoeira), os vizinhos que ainda me restam virão à janela abanar as mãos em desagrado. Pensarei então no meu antigo camarada de cigarros, que, por causa do frio na varanda, ou, o que é mais certo, da longa carreira de fumador, não morreu cheio de saúde, como desejam os militantes anti-tabaco.

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